Resenha
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Desatar os nós

Uma exposição que revisita a história da ciência e da arte para revelar mulheres que produziram conhecimento, enfrentaram apagamentos e ajudaram a inventar outros modos de existir

Talvez uma exposição sobre mulheres comece justamente por aquilo que não está lá. Pelo nome que não aparece na legenda, pela descoberta atribuída a outro, pela pesquisa que sobreviveu sem a assinatura de quem a realizou. Comece pelo silêncio. É a partir desse território de ausências que “Nós – Arte e Ciência por Mulheres”, exposição realizada pelo Sesc, constrói seu percurso: não apenas para acrescentar mulheres a uma história já conhecida, mas para perguntar por que elas foram tantas vezes retiradas dela. Entre obras de arte, documentos, imagens, objetos e referências científicas, a mostra transforma a própria ideia de memória em matéria de investigação.

 

Uma palavra que amarra e aproxima

O título é, desde o início, uma espécie de chave de leitura. “Nós” é aquilo que aperta, prende, entrelaça fios e dificulta a passagem — uma imagem possível para as estruturas históricas de desigualdade que atravessaram gênero, raça, classe e colonialismo. Mas “nós” também é pronome: fala de um coletivo, de uma experiência compartilhada, de uma história que não pertence a uma única mulher. A exposição trabalha justamente nessa ambiguidade. Há os nós que precisam ser desfeitos e há os nós que precisam ser fortalecidos: redes de conhecimento, memória, solidariedade e criação.

Essa escolha impede que a mostra seja apenas uma galeria de heroínas. Há, evidentemente, mulheres cujos nomes já atravessaram os livros — Marie Curie, Ada Lovelace, Hipátia, Bertha Lutz, Nise da Silveira, Margaret Hamilton. Mas elas aparecem ao lado de outras trajetórias menos conhecidas, de diferentes épocas, territórios e matrizes culturais. O efeito é importante: em vez de apresentar a presença feminina na ciência como uma exceção produzida por algumas personagens extraordinárias, “Nós” sugere uma história muito mais extensa, feita também de trabalhos anônimos, conhecimentos comunitários, observações, cuidados, experimentações e formas de produzir saber que nem sempre couberam nos modelos institucionais de ciência.

 

Quando conhecimento também é território

Um dos aspectos mais potentes da curadoria está justamente em ampliar a pergunta sobre o que conta como conhecimento. A pajé Pataxó Mestra Japira, por exemplo, aparece como guardiã e educadora de histórias, rituais, tecnologias, práticas de cura e saberes sobre as plantas. O conhecimento, nesse caso, não está separado da comunidade, da ancestralidade ou da relação com o território. A exposição coloca esse saber em diálogo com a trajetória de naturalistas, botânicas, arqueólogas e cientistas, criando uma fricção produtiva entre diferentes maneiras de observar e interpretar o mundo. (Figura 1)

Figura 1. Divulgação

 

O calendário dos povos do rio Tiquié é outro exemplo dessa ampliação. Suas constelações não são apenas desenhos no céu: articulam ciclos ambientais, pesca, agricultura, águas, animais e práticas comunitárias. Ao aproximá-lo das observações astronômicas realizadas por mulheres como Maria Clara Eimmart, a exposição desloca a astronomia de uma narrativa exclusivamente institucional. O céu continua sendo o mesmo, mas as perguntas feitas a ele podem ser muito diferentes. E talvez seja justamente aí que a ciência se torne mais interessante: quando percebemos que observar nunca é um gesto neutro, porque depende também de onde se olha e de quais perguntas se considera legítimas.

 

A ciência que foi deixada de fora

“Nós” também percorre os mecanismos mais explícitos de apagamento. Rosalind Franklin surge como exemplo conhecido de uma contribuição decisiva para a compreensão da estrutura do DNA que durante muito tempo permaneceu à margem da narrativa consagrada. Maria Lavoisier aparece como cientista, ilustradora e tradutora, revelando uma participação que ultrapassa a imagem da “colaboradora” de Antoine Lavoisier. Graziela Maciel Barroso, pioneira da botânica brasileira, e Emilie Snethlage, naturalista dedicada à fauna amazônica, lembram que produzir ciência também significava percorrer territórios, coletar, classificar, desenhar, registrar e construir acervos.

 

“O céu continua sendo o mesmo, mas as perguntas feitas a ele podem ser muito diferentes.”

 

Mas a exposição não se limita a corrigir nomes nas placas da história. Seu movimento mais interessante é perguntar o que acontece quando se muda o sujeito que produz conhecimento. A pergunta deixa de ser apenas “quais mulheres fizeram ciência?” e passa a ser “que ciência foi produzida quando mulheres puderam — ou precisaram — olhar para problemas que os modelos dominantes não enxergavam?”. É nesse ponto que a exposição se aproxima de debates contemporâneos sobre ciência inclusiva, vieses e produção de conhecimento. (Figura 2)

Figura 2. Divulgação

 

A presença de Londa Schiebinger ajuda a explicitar essa passagem. Ao abordar os efeitos dos vieses de gênero e raça em áreas como o reconhecimento facial, a exposição mostra que a ausência não é apenas uma questão de justiça histórica. Ela pode produzir conhecimento pior e tecnologias menos adequadas à diversidade humana. O problema deixa de ser somente quem teve o direito de entrar no laboratório e passa a envolver também quais perguntas foram feitas, quais corpos foram considerados padrão e quais experiências permaneceram fora dos dados.

 

Corpos, memória e resistência

É nesse ponto que arte e ciência deixam de parecer dois campos simplesmente colocados lado a lado. As obras das artistas contemporâneas funcionam como outras formas de investigação. Berna Reale, Camila Soato, Thatiana Cardoso, Yacunã Tuxá, Paty Wolff, Mônica Ventura e tantas outras não ilustram necessariamente os conteúdos científicos apresentados pela mostra. Elas tensionam esses conteúdos, devolvem-lhes corpo, memória, experiência e conflito.

A escolha de reunir mulheres indígenas, negras, brancas, brasileiras e estrangeiras, de diferentes gerações e linguagens, também impede que “mulher” apareça como uma categoria homogênea. A exposição incorpora discussões sobre feminismo negro, colonialidade, racialidade, sexualidade e identidade de gênero. Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, bell hooks e Grada Kilomba ajudam a deslocar a discussão: não existe uma única experiência feminina, assim como não existe uma única forma de exclusão. Os nós se cruzam. E justamente por isso não podem ser desatados um de cada vez.

 

O trabalho que não aparece

Talvez um dos núcleos mais atuais seja aquele dedicado à economia do cuidado. A exposição lembra que cozinhar, limpar, criar filhos, cuidar de doentes e sustentar emocionalmente uma família não são atividades que simplesmente acontecem fora da economia. São trabalho — embora historicamente tenham sido tratados como uma extensão “natural” da condição feminina e, portanto, frequentemente não remunerados nem reconhecidos.

 

“O problema deixa de ser somente quem teve o direito de entrar no laboratório e passa a envolver também quais perguntas foram feitas, quais corpos foram considerados padrão e quais experiências permaneceram fora dos dados.”

 

Essa discussão produz uma passagem especialmente interessante entre ciência, sociedade e vida cotidiana. Ao colocar o cuidado dentro da história da produção, “Nós” questiona uma divisão antiga entre aquilo que seria considerado conhecimento e aquilo que seria apenas reprodução da vida. A mulher que observa plantas, a que pesquisa doenças, a que desenha fósseis, a que calcula órbitas e a que sustenta uma casa aparecem, assim, dentro de uma mesma pergunta: quem produz as condições para que uma sociedade exista e quem recebe o reconhecimento por isso?

 

Desfazer sem apagar

Há, portanto, uma tensão importante na exposição. Ao recuperar mulheres historicamente invisibilizadas, ela não pretende simplesmente substituir uma narrativa masculina por uma narrativa feminina. Seu projeto parece mais ambicioso: ampliar o próprio campo da memória. Isso significa reconhecer que a história da ciência foi construída por disputas de poder, instituições, critérios de legitimidade e formas específicas de selecionar aquilo que merece ser preservado.

Por isso, “Nós – Arte e Ciência por Mulheres” funciona melhor quando não é vista apenas como uma exposição sobre mulheres. Ela é também uma exposição sobre a própria construção do conhecimento. Sobre quem pode falar, quem pode ser ouvido, quem ganha uma assinatura, quem vira referência, quem permanece nos arquivos e quem desaparece deles. Ao fazer essas perguntas, a mostra transforma o apagamento em objeto de investigação — e a memória, em território de disputa. (Figura 3)

Figura 3. Divulgação

 

No fim, talvez seja esse o principal mérito de Nós: não oferecer uma história definitiva das mulheres na arte e na ciência — tarefa impossível, como reconhece a própria curadoria —, mas abrir frestas para que outras histórias possam entrar. A exposição não desfaz todos os nós. Nem poderia. Alguns são antigos demais, outros continuam sendo refeitos no presente. Mas, ao aproximar ciência, arte, memória, território, gênero e raça, ela mostra que produzir conhecimento também pode ser um gesto de reparação: olhar novamente para aquilo que parecia conhecido e descobrir, ali, outras presenças.

E talvez seja justamente essa a experiência mais duradoura que uma exposição como essa pode provocar. Depois de passar por suas mulheres, seus arquivos, suas obras e seus silêncios, já não é tão fácil olhar para uma história da ciência como se ela tivesse sido escrita por poucos. O passado permanece o mesmo, mas a pergunta mudou. E, quando muda a pergunta, também pode mudar aquilo que somos capazes de enxergar.

 

Onde visitar agora
Local atual: Sesc Casa Verde (São Paulo – SP).
Período: De 12 de setembro de 2026 a 31 de janeiro de 2027.
Horários: Terça a sexta-feira, das 10h30 às 18h30; sábados, domingos e feriados em horário regular de funcionamento da unidade.

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
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Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
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