Quando Maria da Conceição Tavares chegou ao Brasil, em fevereiro de 1954, trazia na bagagem uma formação em Matemática, uma filha ainda pequena e a experiência de ter crescido em Portugal sob a ditadura de António de Oliveira Salazar. Tinha vindo em busca de um país democrático. Encontrou, porém, uma sociedade que poucos anos depois também mergulharia em uma ditadura. No intervalo entre esses dois regimes, construiu uma das trajetórias intelectuais mais marcantes da economia brasileira — entre universidades, instituições de planejamento, debates políticos e salas de aula.
Nascida em Anadia, Portugal, em 1930, Maria da Conceição Tavares inicialmente estudou Engenharia e depois Ciências Matemáticas na Universidade de Lisboa, onde se licenciou em 1953. No Brasil, diante da impossibilidade inicial de obter a equivalência de seu diploma para lecionar em universidades, começou trabalhando como estatística no Instituto Nacional de Imigração e Colonização. Em 1957, naturalizou-se brasileira e iniciou o curso de Economia na então Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No ano seguinte, passou a trabalhar como analista matemática no então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), atual BNDES.
Foi no BNDE que matemática e economia começaram a se encontrar de maneira decisiva. Entre 1958 e 1960, Maria da Conceição Tavares participou de grupos ligados ao planejamento econômico do governo Juscelino Kubitschek e ao esforço de implantação do Plano de Metas. A experiência aproximou-a de questões que marcariam sua obra: industrialização, acumulação de capital, financiamento, inflação e o papel do Estado no desenvolvimento. Seu percurso também foi influenciado por economistas como Celso Furtado, Caio Prado Jr. e Ignácio Rangel. Este último, segundo a própria pesquisadora, insistiu que os economistas precisavam compreender também moeda, bancos e finanças — uma preocupação que ela incorporaria à sua análise da economia brasileira.
Uma economia com história e território
A aproximação com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) ampliou esse horizonte. Criada pelas Nações Unidas em 1948, a instituição desenvolveu uma tradição de pensamento que procurava compreender o desenvolvimento latino-americano a partir das condições históricas e estruturais da própria região. Maria da Conceição Tavares tornou-se uma das importantes expoentes dessa tradição e participou de seus debates no Brasil, no Chile e no México. Para ela, compreender a economia não significava apenas acompanhar indicadores: era preciso investigar como a industrialização, as relações de poder, o capital e a inserção internacional produziam determinadas estruturas econômicas e sociais. A própria CEPAL a reconheceu, após sua morte, como uma das fundadoras e expoentes do pensamento cepalino e neoestruturalista latino-americano. (Figura 1)

Figura 1. UFRJ. Reprodução.
Essa perspectiva aparece em um de seus trabalhos mais conhecidos, Auge e declínio do processo de substituição de importações no Brasil, posteriormente incorporado ao livro Da substituição de importações ao capitalismo financeiro, publicado em 1972. O estudo analisava o processo de industrialização brasileiro e seus limites, mostrando que o crescimento econômico não eliminava automaticamente as desigualdades nem rompia com as características estruturais do capitalismo dependente. Em textos posteriores, Maria da Conceição Tavares aprofundaria a análise da acumulação de capital, da industrialização e dos ciclos e crises da economia brasileira. Sua produção passou a ocupar lugar importante no pensamento econômico latino-americano.
A trajetória acadêmica, entretanto, foi atravessada pela história política do país. Durante a ditadura militar brasileira, a pesquisadora manteve sua atuação intelectual e política, circulando também por outros países latino-americanos. Em 1974, foi presa por órgãos da repressão brasileira e permaneceu detida durante alguns dias, sendo posteriormente libertada. Depois disso, voltou à atividade acadêmica e dividiu sua carreira entre a UFRJ e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na Unicamp, participou da construção institucional do Instituto de Economia e da formação de seus cursos de pós-graduação, contribuindo para consolidar uma tradição de pesquisa em economia política e desenvolvimento.
A professora que ultrapassou a sala de aula
A universidade foi, durante décadas, um dos principais espaços de atuação de Maria da Conceição Tavares. Professora titular da Unicamp e professora emérita da UFRJ, ela formou gerações de economistas que posteriormente ocupariam posições na academia, em instituições públicas e no debate político brasileiro. Entre seus ex-alunos e interlocutores estiveram nomes como José Serra, Luiz Gonzaga Belluzzo e Luciano Coutinho. Suas aulas gravadas, produzidas décadas atrás, voltariam a circular amplamente nas redes sociais no século XXI, alcançando públicos muito além das universidades.
“A expansão da produção poderia coexistir com concentração de renda, desigualdade e exclusão.”
Essa passagem da universidade para o debate público também ocorreu por meio da imprensa e da política. Entre 1993 e 2004, Conceição escreveu a coluna Lições Contemporâneas, na Folha de S.Paulo, discutindo temas econômicos que afetavam diretamente a vida cotidiana. Em 1994, foi eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores, exercendo mandato entre 1995 e 1999. No Congresso, participou dos debates econômicos do período e se posicionou criticamente em relação às políticas adotadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso, incluindo o Plano Real. Suas posições pertenciam a uma tradição econômica heterodoxa e desenvolvimentista e eram objeto de controvérsia no próprio debate econômico brasileiro.
A presença pública de Maria da Conceição Tavares tornou-se particularmente conhecida durante o Plano Cruzado, lançado em 1986 para enfrentar a hiperinflação. Ao assistir ao anúncio do programa, ela se emocionou diante da expectativa de que a política pudesse proteger os trabalhadores dos efeitos da inflação.
O que significa desenvolver um país?
No centro de sua obra estava uma pergunta que continua atual: o que significa, afinal, desenvolver uma economia? Para a pesquisadora, crescimento econômico e desenvolvimento não eram sinônimos. A expansão da produção poderia coexistir com concentração de renda, desigualdade e exclusão. Por isso, compreender o desenvolvimento exigia observar não apenas quanto uma economia crescia, mas como esse crescimento era produzido, quem se beneficiava dele e quais estruturas permaneciam intocadas.
“Mais do que oferecer respostas prontas, Conceição Tavares deixou uma forma de olhar para o Brasil: desconfiar das explicações simples, investigar as estruturas por trás dos números e perguntar, sempre, quem paga a conta.”
Essa maneira de pensar ajudou a aproximar a economia de outras áreas das ciências sociais. Em vez de tratar números e indicadores como fenômenos isolados, Maria da Conceição Tavares procurava relacioná-los à história, à política, às instituições e às relações sociais. Em suas aulas e entrevistas, frequentemente transformava conceitos econômicos abstratos em perguntas sobre a vida concreta.
Um legado que continua em construção
Maria da Conceição Tavares morreu em Nova Friburgo, em 8 de junho de 2024, aos 94 anos. Sua morte encerrou uma trajetória de sete décadas dedicada à economia, mas não encerrou o debate provocado por sua obra. Em 17 de junho daquele ano, suas cinzas foram depositadas no bosque do Instituto de Economia da Unicamp, onde foi uma das fundadoras e onde atuou por mais de uma década. No local, foi plantada uma muda de ipê-branco, em uma cerimônia que reuniu familiares, colegas, ex-alunos e estudantes. (Figura 2)

Figura 2. Agência Brasil. Reprodução.
Seu legado permanece, portanto, em dois lugares ao mesmo tempo: nos conceitos e análises que ajudaram a interpretar a economia brasileira e nas instituições e pessoas que continuam produzindo conhecimento a partir deles. Em 1998, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Economia. Em 2024, a CEPAL voltou a destacar sua contribuição para o pensamento econômico latino-americano; na Unicamp, sua memória passou a integrar também a história do Instituto de Economia e de suas pesquisas.


