HC - irene joliot curie - capa site

Irène Joliot-Curie: ciência em movimento

Da radiologia nos campos de batalha à criação de radioisótopos, cientista uniu pesquisa, medicina e atuação política

Aos 18 anos, Irène Joliot-Curie já havia trocado os livros da universidade pelos hospitais improvisados da Primeira Guerra Mundial. Ao lado da mãe, Marie Curie, ela aprendeu a operar equipamentos de raios X e passou a utilizá-los para localizar fragmentos de projéteis nos corpos de soldados feridos. Anos depois, em um laboratório de Paris, ajudaria a produzir algo que até então parecia impossível: átomos radioativos que não existiam naturalmente. Entre uma experiência e outra, construiu uma trajetória que atravessou ciência, medicina, política e defesa da paz — e que lhe renderia, em 1935, o Prêmio Nobel de Química.

A história de Irène Joliot-Curie, porém, começou cercada por uma família que já ocupava um lugar excepcional na ciência. Nascida em Paris, em 1897, ela era a filha mais velha de Marie e Pierre Curie. Os pais trabalhavam longas horas em pesquisas sobre radioatividade e, durante parte de sua infância, foi o avô paterno, Eugène Curie, médico aposentado, quem teve papel importante em sua formação. Ele estimulou na menina o interesse pela natureza, pela poesia e também pela política. (Figura 1)

Figura 1. Marie Curie e Irène Joliot-Curie no Radium Institute, 1922. (Foto: ©Association Curie Joliot-Curie. Reprodução)

 

A educação de Irène Joliot-Curie também fugiu aos padrões de sua época. Durante dois anos, ela frequentou uma espécie de escola cooperativa organizada por Marie Curie e outros cientistas para seus filhos. Em vez de uma sala de aula convencional, as crianças recebiam aulas de diferentes áreas ministradas pelos próprios pesquisadores, incluindo matemática, física, línguas e artes. Mais tarde, retomaria a educação formal e ingressaria na Universidade de Paris para estudar ciências.

 

Da guerra ao laboratório

A Primeira Guerra Mundial interrompeu seus estudos. Em 1914, quando Irène Joliot-Curie tinha 17 anos, o conflito levou milhares de soldados aos hospitais com ferimentos provocados por armas de fogo e estilhaços. Marie Curie percebeu que a radiografia poderia ajudar os médicos a localizar objetos metálicos dentro do corpo dos combatentes e se empenhou em levar aparelhos de raios X para unidades próximas às frentes de batalha.

Irène Joliot-Curie, então com 18 anos, acompanhou a mãe nessa tarefa. Aprendeu a operar os equipamentos, ajudou a instalar e administrar unidades móveis de radiologia e também ensinou outras pessoas a utilizá-los. A experiência mostrou à jovem pesquisadora uma dimensão que acompanharia sua carreira: a ciência não era apenas uma atividade realizada em laboratórios, mas também uma ferramenta capaz de responder a problemas concretos e urgentes da sociedade. (Figura 2)

Figura 2. Irène Joliot-Curie descendo de um “carro radiológico”, 1916. (Foto: © Association Curie Joliot-Curie. Reprodução)

 

Depois da guerra, retomou sua formação em física, química e matemática e passou a trabalhar no Instituto do Rádio, em Paris, criado por Marie e Pierre Curie. Foi ali que conheceu Frédéric Joliot, engenheiro químico que ingressou no laboratório como pesquisador. Marie Curie pediu à filha que o orientasse nas técnicas de trabalho com materiais radioativos. A parceria científica logo se transformou em parceria pessoal, e os dois se casaram em 1926. A partir de 1928, passaram a assinar conjuntamente seus trabalhos científicos.

 

Quando o átomo se torna laboratório

Os Joliot-Curie dedicaram-se a investigar o núcleo atômico e a interação entre diferentes elementos e partículas. Seus experimentos utilizavam partículas alfa — núcleos de hélio — para bombardear materiais. O objetivo era observar o que acontecia quando essas partículas atingiam os núcleos dos átomos.

No início da década de 1930, o casal chegou perto de interpretar corretamente alguns resultados importantes, mas não percebeu que seus experimentos continham pistas para fenômenos que seriam identificados por outros pesquisadores. A história da ciência é também feita desses momentos em que uma observação correta pode receber uma interpretação equivocada. O avanço, muitas vezes, depende de uma nova pergunta feita sobre um resultado já conhecido.

 

“A ciência não era apenas uma atividade realizada em laboratórios, mas também uma ferramenta capaz de responder a problemas concretos e urgentes da sociedade.”

 

Em 1934, entretanto, Irène e Frédéric encontraram a pista decisiva. Ao bombardear uma amostra de alumínio com partículas alfa, observaram que ela continuava emitindo pósitrons mesmo depois que o bombardeamento havia terminado. O fenômeno indicava que algo novo havia sido produzido durante a experiência: átomos radioativos de um elemento que, em sua forma natural, era estável.

A conclusão representava uma mudança fundamental. Até então, os elementos radioativos disponíveis para os pesquisadores precisavam ser extraídos de minérios naturais, em processos trabalhosos, caros e limitados pela quantidade existente na natureza. Os Joliot-Curie demonstraram que era possível produzir artificialmente radioisótopos, transformando elementos estáveis em formas radioativas por meio de reações nucleares.

 

Do laboratório para a medicina

A descoberta abriu um novo campo de investigação. Se radioisótopos podiam ser produzidos artificialmente, eles poderiam também ser utilizados de maneira mais ampla para acompanhar processos físicos, químicos e biológicos. A radioatividade deixava de ser apenas uma propriedade observada em materiais encontrados na natureza e passava a ser uma ferramenta que os cientistas podiam produzir sob condições controladas.

As consequências para a medicina e para a pesquisa biomédica foram profundas. Radioisótopos passaram a ser empregados como marcadores para acompanhar processos no organismo e estudar o funcionamento de órgãos e tecidos. Entre suas aplicações está o uso de radioisótopos de iodo para investigar a atividade da tireoide. A mesma lógica contribuiu para o desenvolvimento da medicina nuclear e de aplicações terapêuticas da radiação, inclusive no tratamento de diferentes tipos de câncer.

A descoberta também teve consequências para a própria física nuclear. O trabalho desenvolvido pelos Joliot-Curie contribuiu para a expansão das pesquisas sobre o núcleo atômico, em um período de rápidas transformações na área. Estudos posteriores sobre reações nucleares ajudariam a construir o conhecimento que levou à descoberta da fissão nuclear, fenômeno no qual o núcleo de determinados átomos se divide e libera grande quantidade de energia.

Em 1935, Irène e Frédéric Joliot-Curie receberam conjuntamente o Prêmio Nobel de Química pela produção artificial de novos elementos radioativos. O reconhecimento colocou Irène Joliot-Curie ao lado da mãe na história da premiação: Marie Curie havia recebido o Nobel de Física, em 1903, e o de Química, em 1911. Ela tornou-se, assim, parte de uma das mais notáveis famílias científicas do século XX — mas sua contribuição ao conhecimento tinha identidade própria.

 

A cientista além do laboratório

O Nobel não encerrou a trajetória de Irène Joliot-Curie. Em 1936, ela assumiu o cargo de subsecretária de Estado para a Pesquisa Científica no governo francês, tornando-se uma das primeiras mulheres a ocupar uma posição ministerial no país. Sua passagem pela política foi breve, mas reveladora de uma convicção que apareceria repetidamente em sua trajetória: a ciência deveria ter participação ativa na sociedade e precisava contar com políticas públicas e financiamento estatal.

Irène Joliot-Curie também se envolveu com movimentos antifascistas, com a defesa da educação das mulheres e com organizações internacionais voltadas à paz. Em um período de crescente tensão política na Europa, ela e Frédéric se posicionaram contra o fascismo e o nazismo. A possibilidade de que os conhecimentos produzidos pela física nuclear fossem empregados para fins militares também passou a preocupar o casal. Em 1939, diante da aproximação da Segunda Guerra Mundial, os dois protegeram sua documentação científica relacionada à pesquisa nuclear.

 

“Para Irène Joliot-Curie, fazer ciência não significava afastar-se dos grandes conflitos de seu tempo.”

 

Essa dimensão política ajuda a compreender uma característica central de sua trajetória: para ela, fazer ciência não significava afastar-se dos grandes conflitos de seu tempo. Ao contrário, pesquisa, educação, política, igualdade de gênero e paz estavam conectadas. Em 1946, assumiu a direção do Instituto do Rádio e também participou da estruturação das pesquisas nucleares francesas no período posterior à guerra.

 

O legado de uma cientista-cidadã

A relação entre radioatividade e saúde, entretanto, também tinha um lado sombrio. Assim como sua mãe, Irène Joliot-Curie esteve exposta durante anos à radiação em um período em que os riscos biológicos ainda eram pouco compreendidos. Em 1946, um acidente envolvendo uma cápsula de polônio ocorreu no laboratório onde trabalhava. Irène Joliot-Curie morreu em Paris, em 1956, aos 58 anos, em decorrência de leucemia.

Sua morte evidencia uma das grandes contradições da história da radioatividade: a mesma área de conhecimento que abriu novas possibilidades para diagnosticar e tratar doenças também expôs seus primeiros pesquisadores a riscos que ainda não eram plenamente conhecidos. A trajetória de Irène Joliot-Curie é, nesse sentido, inseparável da própria história da construção do conhecimento sobre os benefícios e os perigos da radiação.

O legado de Irène Joliot-Curie também atravessou gerações. Seus dois filhos seguiram carreiras científicas: Hélène Joliot-Curie tornou-se física nuclear, enquanto Pierre Joliot dedicou-se à bioquímica. Mas talvez sua herança mais importante de esteja menos no sobrenome que compartilhou com a mãe e mais na maneira como articulou diferentes dimensões da vida científica. Ela foi pesquisadora, professora, gestora, política e ativista — e defendeu a ideia de que conhecimento científico não existe separado das escolhas feitas pela sociedade sobre seus usos.

Capa. Divulgação
Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Picture of Blog Ciencia e Cultura

Blog Ciencia e Cultura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Relacionados

Desatar os nós

Talvez uma exposição sobre mulheres comece justamente por aquilo que não está