Entrevistas
EN Giovanna Machado capa site

“Ciência nunca é uma atividade solitária.”

Confira entrevista com Giovanna Machado, diretora do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE)

Quando Giovanna Machado fala sobre ciência, a escala pode mudar radicalmente. No laboratório, ela trabalha com materiais tão pequenos que precisam ser observados em escala nanométrica para revelar propriedades capazes de produzir efeitos em dimensões muito maiores. Mas sua atuação científica também se volta para desafios concretos — energia, água, saúde e sustentabilidade — e para uma questão igualmente urgente: quem tem a oportunidade de participar da construção da ciência brasileira.

Em 2026, ela se tornou a primeira pesquisadora nível 1A do CNPq no Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (CETENE), onde é pesquisadora titular e atualmente ocupa o cargo de diretora. A conquista representa o reconhecimento de uma trajetória dedicada à Ciência dos Materiais e à Química, mas também ganha significado especial por acontecer em uma instituição de pesquisa localizada no Nordeste. “Visibilidade científica não deve ser confundida com qualidade, mas a ausência de visibilidade pode limitar oportunidades, colaborações e recursos”, afirma.

Essa preocupação em abrir caminhos está presente também em uma das iniciativas que criou: o Programa Futuras Cientistas, lançado em 2012 para aproximar alunas e professoras do Ensino Médio da pesquisa científica e das áreas de STEM. Vencedora do Prêmio LED – Luz na Educação, em 2022, a vitória traduz uma convicção que atravessa sua trajetória: não basta dizer a uma menina que ela pode ser cientista; é preciso criar condições para que ela conheça esse universo e consiga se imaginar pertencendo a ele. “Hoje, a liderança acrescentou outra dimensão: a possibilidade de criar condições para que outras pessoas também possam descobrir”, diz

Nesta entrevista à Ciência & Cultura, Giovanna Machado fala sobre o fascínio pelos nanomateriais, os desafios de transformar descobertas de laboratório em tecnologias aplicáveis, as barreiras ainda enfrentadas pelas mulheres na ciência, a produção científica no Nordeste e a importância de formar pesquisadores capazes de fazer suas próprias perguntas.

 

Ciência & Cultura — Nanomateriais parecem coisa de ficção científica, mas já estão sendo usados para resolver problemas muito concretos. O que mais te fascina nesse universo da química em escala tão pequena?

Giovanna Machado — O que mais me fascina é justamente o fato de que, quando diminuímos a matéria para a escala nanométrica, não estamos apenas tornando um material menor: podemos modificar profundamente suas propriedades. A relação entre estrutura, superfície e propriedade passa a ser determinante. Um mesmo material pode apresentar comportamento óptico, eletrônico, catalítico ou eletroquímico muito diferente quando controlamos sua dimensão, morfologia, interfaces e defeitos.

Para mim, o mais interessante é transformar esse conhecimento fundamental em soluções. No nosso grupo, trabalhamos com nanomateriais para produção fotoeletroquímica de hidrogênio verde, tratamento de efluentes, sensores e biomateriais. Estudamos, por exemplo, nanotubos de TiO₂, heteroestruturas de óxidos, materiais à base de carbono e eletrodos produzidos por laser. Em todos esses casos, a escala nanométrica nos permite controlar interfaces e caminhos de transferência de carga que seriam muito mais difíceis de manipular em materiais convencionais.

É essa possibilidade de ir da compreensão de fenômenos muito pequenos a respostas para problemas muito grandes. Neste caso, posso destacar os temas que trabalhamos no laboratório, como energia, água, saúde e sustentabilidade.

 

“É isso que transforma a ciência de profissão em projeto de vida.”

 

C&C — Você está construindo sua carreira em uma área de pesquisa bastante especializada. Em que momento você percebeu que queria fazer da ciência não apenas uma profissão, mas um caminho para a vida?

GM — Eu diria que essa percepção não aconteceu em um único momento. Foi sendo construída à medida que percebi que a ciência reunia coisas que sempre me mobilizaram: curiosidade, desafio intelectual, liberdade para criar e possibilidade de produzir algo que ultrapassa o indivíduo.

Ao longo da formação, e especialmente durante o doutorado e o pós-doutorado, ficou claro para mim que eu não queria apenas trabalhar com ciência; eu queria construir e entender perguntas, formar pessoas, criar laboratórios e participar da construção de ambientes onde outras pessoas também pudessem fazer ciência. Minha experiência internacional, no MIT, ampliou muito minha percepção sobre o que significa estar inserida em redes científicas de excelência, mas também reforçou a convicção de que era possível e necessário contribuir para construir ciência competitiva no Brasil.

Hoje, depois de muitos anos de carreira, continuo sentindo entusiasmo quando um resultado experimental aparece, quando uma hipótese começa a fazer sentido ou quando um estudante passa a formular suas próprias perguntas. É isso que transforma a ciência de profissão em projeto de vida.

 

C&C — O que significa ser uma jovem mulher construindo uma carreira na química hoje? Você percebe que algumas das barreiras enfrentadas pelas pesquisadoras permanecem?

GM — Houve avanços importantes. Hoje vemos muito mais mulheres ingressando na universidade, na pós-graduação e ocupando espaços de destaque científico. Mas presença numérica não significa, automaticamente, igualdade de oportunidades. À medida que avançamos na carreira, especialmente nos níveis mais altos de liderança, produtividade e tomada de decisão, a participação feminina ainda é pequena.

Ao longo da minha trajetória, percebi que muitas barreiras se tornaram menos explícitas, mas não necessariamente desapareceram. Elas podem aparecer na forma de menor reconhecimento, de diferentes expectativas sobre liderança, de redes de colaboração às quais nem todos têm o mesmo acesso ou da necessidade de provar competência repetidas vezes. Por isso, considero fundamental não apenas discutir representatividade, mas criar condições concretas para que meninas e mulheres permaneçam na ciência e possam chegar aos espaços de decisão.

Essa é também uma das razões pelas quais iniciativas como o Futuras Cientistas são tão importantes para mim. Não basta dizer a uma menina que ela pode ser cientista; é preciso permitir que ela entre em um laboratório, conheça pesquisadoras, faça experimentos e consiga se imaginar pertencendo àquele lugar. O futuro da ciência depende também de quem tem oportunidade de participar da sua construção.

Acredito que uma política pública de gênero iria contribuir significativamente para diminuir essas barreiras que ainda enfrentamos, principalmente em cargos e em áreas ainda de domínio masculino.

 

“Não basta dizer a uma menina que ela pode ser cientista; é preciso permitir que ela entre em um laboratório, conheça pesquisadoras, faça experimentos e consiga se imaginar pertencendo àquele lugar.”

 

C&C — Você acaba de se tornar a primeira pesquisadora 1A do CNPq no CETENE. O que essa conquista representa para você — e para a ciência feita no Nordeste?

GM — É uma conquista que me emociona porque representa muitos anos de trabalho, mas eu não a vejo apenas como uma distinção individual. Chegar ao nível 1A do CNPq significa o reconhecimento de uma trajetória científica construída com estudantes, pesquisadores, técnicos, colaboradores e instituições. Ciência nunca é uma atividade solitária.

Ser a primeira pesquisadora 1A do CETENE tem, para mim, um significado institucional muito especial. Mostra que é possível desenvolver pesquisa de alto nível e com reconhecimento nacional a partir de uma unidade de pesquisa localizada no Nordeste. Isso ajuda a romper uma visão ainda muito concentrada geograficamente sobre onde a ciência de excelência é produzida no Brasil. Mas também traz muita responsabilidade. Quero que essa conquista ajude a abrir caminhos para outros pesquisadores, especialmente jovens cientistas e mulheres. O melhor significado de chegar a determinado lugar é contribuir para que ele deixe de ser excepcional e passe a ser acessível a muitas outras pessoas.

 

C&C — Sua pesquisa transforma conhecimento em materiais e tecnologias para problemas muito concretos, como energia. O que muda quando a ciência sai do laboratório e precisa responder a desafios do mundo real?

GM — Muda quase tudo, e isso é muito estimulante e desafiador. No laboratório conseguimos controlar inúmeras variáveis. Quando pensamos em aplicação, aparecem questões de estabilidade, escala, custo, reprodutibilidade, disponibilidade de matérias-primas, segurança, impacto ambiental e integração com sistemas reais. E estes são desafios de outro nível. Um fotoeletrodo que funciona muito bem em uma área pequena, por exemplo, não necessariamente mantém o mesmo desempenho quando aumentamos sua área. Surgem perdas relacionadas ao transporte de carga e massa, à resistência, à uniformidade do material e à iluminação. Da mesma forma, tratar uma solução-modelo de um poluente é muito diferente de trabalhar com um efluente industrial real, que contém sais, corantes e inúmeros compostos interferentes.

Por isso, tenho procurado aproximar cada vez mais a ciência fundamental e o desenvolvimento tecnológico. Não significa abandonar a pergunta científica; significa torná-la mais completa. Quando a tecnologia encontra o mundo real, o próprio problema nos devolve novas perguntas científicas. A ciência precisa se aproximar da sociedade, e isto significa entender as necessidades da sociedade e desenvolver tecnologias para melhorar a qualidade de vida dela.

 

“O melhor significado de chegar a determinado lugar é contribuir para que ele deixe de ser excepcional e passe a ser acessível a muitas outras pessoas.”

 

C&C — O Nordeste ainda aparece pouco nas narrativas sobre produção científica no Brasil. O que a sua trajetória mostra sobre a ciência que é produzida na região — e sobre o que ainda precisa mudar para que ela tenha mais visibilidade e oportunidades?

GM — O Nordeste produz ciência de grande qualidade, muitas vezes enfrentando assimetrias históricas de infraestrutura, financiamento e concentração de redes científicas. Minha trajetória no CETENE mostra que, quando existe investimento, equipes qualificadas, colaboração e continuidade, podemos desenvolver projetos competitivos nacional e internacionalmente. Hoje trabalhamos em redes com instituições brasileiras e grupos no exterior, em temas de fronteira como hidrogênio verde, materiais fotoeletroquímicos, tratamento de efluentes, biomateriais e nanotecnologia.

Isso demonstra que localização geográfica não determina qualidade científica. Mas ainda precisamos avançar. É necessário ampliar e dar continuidade ao financiamento, fortalecer infraestruturas de pesquisa, criar oportunidades para fixação de jovens doutores e aumentar a participação das instituições do Nordeste nas grandes redes e decisões nacionais de ciência, tecnologia e inovação. Também precisamos comunicar melhor o que fazemos. Visibilidade científica não deve ser confundida com qualidade, mas a ausência de visibilidade pode limitar oportunidades, colaborações e recursos.

 

C&C — Você também ocupa hoje um lugar de liderança. Como conciliar a gestão, a formação de novos pesquisadores e a própria pesquisa sem perder aquilo que te fez escolher a ciência lá atrás?

GM — Essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis da carreira. A liderança é solitária, consome tempo e exige decisões que muitas vezes estão muito distantes da bancada. Ao mesmo tempo, aprendi que liderar seja uma instituição, uma sociedade científica ou um grupo de pesquisa também é uma maneira de fazer ciência acontecer.

Procuro preservar alguns espaços que considero essenciais: acompanhar meus estudantes. Tenho reuniões semanais com meu grupo e procuro, junto a eles, discutir resultados, escrever projetos e artigos e continuar pensando cientificamente. A formação de pessoas, para mim, não é uma atividade paralela à pesquisa; é parte central dela. É a formação de cidadãos éticos. Um dos maiores resultados que podemos produzir é um pesquisador que se torna independente, crítico e capaz de formular suas próprias perguntas.

Também aprendi que liderança, apesar de solitária, não deve significar centralizar tudo. É preciso formar equipes, delegar, confiar e criar oportunidades. O que me fez escolher a ciência foi a curiosidade e a possibilidade de descobrir. Hoje, a liderança acrescentou outra dimensão: a possibilidade de criar condições para que outras pessoas também possam descobrir.

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Picture of Chris Bueno

Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Relacionados

Desatar os nós

Talvez uma exposição sobre mulheres comece justamente por aquilo que não está