As cidades parecem feitas de concreto, asfalto e linhas de ônibus. Mas, para a socióloga e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ana Marcela Ardila, elas são feitas também de conflitos, escolhas políticas e disputas silenciosas sobre quem pode circular, descansar, morar e existir. Com trajetória acadêmica entre Colômbia e Brasil, transitando entre Sociologia e Geografia, Ana Marcela Ardila construiu uma carreira dedicada a compreender como o espaço urbano produz desigualdades — e como ele também pode ser transformado. “Quando você vê uma calçada, você não está vendo simplesmente uma superfície com um tamanho, com uma forma, você está vendo uma briga”, afirma. Pesquisadora de temas como mobilidade urbana, espaço público e planejamento das cidades, ela reúne experiência rara: passou pela universidade, pela pesquisa de campo e pela gestão pública em Bogotá, onde participou de programas inovadores de cultura cidadã e planejamento urbano. Hoje, a partir da UFMG, segue investigando como gênero, classe, raça, idade e deficiência moldam a experiência urbana. “A ciência não é a ciência, a ciência é as ciências”, defende. Nesta entrevista à Ciência & Cultura, Ana Marcela Ardila fala sobre o valor da interdisciplinaridade, o papel da ciência nas políticas públicas, os limites do urbanismo excludente e as barreiras enfrentadas por mulheres em ambientes técnicos ainda marcados por desigualdades. Confira!
Ciência & Cultura – Sua trajetória acadêmica transita entre Sociologia e Geografia, tendo a cidade como eixo central. O que essa travessia disciplinar permite enxergar sobre os espaços urbanos?
Ana Marcela Ardila – Eu estudei Sociologia na Colômbia, na Universidad Nacional de Colombia, e fiz mestrado também em Sociologia. Depois realizei o doutorado em Geografia na UFRJ. Essa formação em universidades públicas foi fundamental e mostra como a educação pública pode oferecer altíssima qualidade. Sempre me interessei por entender por que as pessoas tomam decisões, como tomam e quais elementos consideram nesse processo. Ao mesmo tempo, eu tinha grande interesse pelo espaço. Na Sociologia, tive professores que me ensinaram a pensar a espacialidade de forma crítica, menos determinística, compreendendo como as pessoas leem, usam e interpretam os lugares. Esse olhar me ensinou algo decisivo: nada no espaço é natural. Quando olhamos uma cidade, estamos vendo uma construção histórica, política e social. Essa travessia entre Sociologia e Geografia me permitiu compreender justamente isso: que o espaço urbano não é cenário neutro, mas parte ativa das relações sociais.
“Nada no espaço é natural.”
C&C – Seu trabalho mostra que a cidade é vivida de forma profundamente desigual. Como gênero atravessa essas experiências urbanas?
AMA – Quando ensino sobre esse tema, costumo dizer: quando você vê uma calçada, não está vendo apenas uma superfície. Está vendo uma briga entre quem tem direito de usar a cidade. O tamanho da calçada, a iluminação, a existência ou não de um ponto de ônibus, a presença de parques ou áreas verdes: tudo isso expressa decisões políticas. Historicamente, áreas centrais e valorizadas receberam melhores espaços públicos, enquanto periferias foram tratadas apenas como lugares para morar.
O gênero atravessa fortemente essas experiências. As pesquisas mostram que mulheres enfrentam ameaças e violências que muitos homens não enfrentam. Além disso, realizam muitas viagens ligadas ao cuidado: levar crianças à escola, acompanhar familiares, resolver tarefas domésticas. São deslocamentos encadeados, múltiplos, que os sistemas de transporte raramente consideram. Também precisamos falar de mulheres trans e outras identidades de gênero, que enfrentam formas específicas de violência e exclusão no espaço urbano.
C&C – Bogotá aparece como referência importante em sua trajetória. Que aprendizados essa experiência oferece às cidades brasileiras?
AMA – Trabalhei em Bogotá em programas muito marcantes, como Cultura Cidadã, uma experiência reconhecida internacionalmente. Havia ali uma ideia importante: educação não é só para crianças. Adultos também precisam aprender a conviver e a compartilhar a cidade. Participei de equipes que mediam práticas urbanas cotidianas: como as pessoas atravessavam ruas, utilizavam parques, consumiam água em momentos de crise, se relacionavam com equipamentos públicos. Depois trabalhei no planejamento urbano e na formulação de planos diretores para equipamentos e infraestruturas da cidade. Bogotá teve experiências muito relevantes ao tratar espaço público e mobilidade como eixos estruturantes da política urbana. Esse é um aprendizado importante para o Brasil: pensar cidade não apenas como moradia, mas como acesso, convivência, deslocamento e direito ao comum.
“Os pobres não têm direito a ter espaços públicos de qualidade.”
C&C – Quais são os principais desafios para que a pesquisa social influencie decisões sobre mobilidade e política urbana?
AMA – A primeira coisa é entender que não existe “a ciência” como algo único. Existem ciências, com métodos e prioridades distintas. A engenharia pode buscar velocidade e eficiência; as ciências sociais perguntam quem ganha e quem perde com isso; a saúde pública observa outros impactos. O desafio é construir diálogo entre esses campos e também entre universidade, gestão pública e sociedade. Sem isso, muitas decisões são tomadas sem informação adequada.
Há cidades que sequer realizam pesquisas básicas, como a origem-destino, fundamental para saber para onde as pessoas querem ir, quais trajetos fazem, quem está excluído do sistema. Sem dados, fica muito difícil alocar recursos, definir rotas ou corrigir desigualdades. A ciência tem papel essencial na produção de informação, no monitoramento e na transparência pública.
C&C – Você costuma dizer que cidades mal desenhadas produzem problemas em cadeia. Pode explicar melhor?
AMA – Muitas vezes se culpa a população por comportamentos que, na verdade, são respostas a infraestruturas mal planejadas. Se uma estação gera gargalos constantes, se as pessoas pulam barreiras ou improvisam caminhos, talvez o problema não seja moral, mas de desenho urbano e gestão. Lugares mal projetados criam conflitos permanentes.
Quando o planejamento falha, a solução frequentemente é colocar polícia ou controle. Eu brinco que, em muitas cidades, a polícia virou elemento de desenho urbano. Mas isso mostra justamente que o problema não foi resolvido na origem. Planejar bem exige observar práticas reais das pessoas e reconhecer como elas usam a cidade.
C&C – Como mulher pesquisadora em ambientes técnicos e institucionais, que resistências enfrentou ao longo da carreira?
AMA – Esse foi um tema que aprendi muito com minhas alunas. Durante muito tempo, eu me percebia прежде de tudo como socióloga, pesquisadora, alguém interessada em dados e trabalho de campo. Mas, olhando para trás, percebo que construí uma postura forte também para garantir credibilidade em ambientes bastante masculinos, especialmente ligados à engenharia e ao planejamento técnico.
Para participar desses espaços, muitas vezes senti que precisava chegar mais preparada, dominar normas técnicas, indicadores, linguagem especializada. Era como se eu precisasse provar mais. Em reuniões, frequentemente me chamam de engenheira. Eu sempre esclareço que não sou. Isso revela algo importante: para falar de certos temas técnicos, parece que uma mulher precisa ocupar outro lugar de legitimidade.
“Sem informação, fica muito difícil tomar decisões.”
C&C – Que mensagem deixaria para jovens mulheres interessadas em ciência, cidade e políticas urbanas?
AMA – Eu vejo muitas mulheres talentosas, criativas e inovadoras, mas frequentemente marcadas por insegurança. É muito comum que sintam que nunca são suficientes. Por isso, eu diria: estudem, se qualifiquem, dominem ferramentas técnicas, aprendam a falar em público, a defender seus dados e a ocupar espaços. Isso também se aprende. Mas não é uma luta individual apenas. Precisamos construir ambientes coletivos mais justos, onde homens e mulheres aprendam juntos a escutar, colaborar e compartilhar poder. A cidade democrática que queremos depende também de uma ciência democrática.


