A palhaçaria com Ciência, mistura boa

Ciência que transforma quem faz e quem ouve

Resumo

A palhaçaria científica constitui uma abordagem inovadora no campo da comunicação e da extensão universitária, ao integrar práticas artísticas à disseminação do conhecimento científico. Este artigo apresenta e analisa o projeto de extensão Palhaçaria Científica, desenvolvido a partir de 2023, cujo objetivo é promover a aproximação entre ciência e sociedade por meio de estratégias lúdicas, interativas e sensíveis. O projeto organiza-se em duas frentes principais: oficinas formativas direcionadas a estudantes, docentes e pesquisadores, e a realização de espetáculos científicos voltados ao público geral. A metodologia adotada fundamenta-se em técnicas de palhaçaria e na tradução de conceitos científicos em linguagem acessível. Entre 2023 e 2025, foram realizadas aproximadamente 30 apresentações, com alcance estimado de cerca de 3000 pessoas em diferentes contextos, incluindo escolas, auditórios e espaços públicos. Os resultados indicam que a palhaçaria científica se apresenta como uma ampliação da compreensão pública da ciência e contribui para o desenvolvimento de competências comunicativas e socioemocionais entre os participantes. Conclui-se que a articulação entre arte e ciência representa uma estratégia eficaz para a democratização do conhecimento científico e para a formação de pesquisadores mais engajados socialmente.

Introdução

Nas últimas décadas, as práticas de palhaçaria têm ampliado significativamente seu campo de atuação, ultrapassando os limites dos espaços tradicionais de entretenimento e inserindo-se em contextos como hospitais, ambientes educacionais e ações sociais.[1, 2] Nesse contexto, a linguagem da palhaçaria tem se mostrado um instrumento eficiente de mediação, sensibilização e integração social.

Diante do aumento do negacionismo, particularmente no contexto da pandemia de COVID-19,[3] França et al. (2021) [4] realizaram o primeiro experimento de articulação entre ciência e palhaçaria com o espetáculo “A Terra é plana, e agora?”, que visava desmistificar o terraplanismo (Figura 1). Essa iniciativa, que incluiu cinco apresentações, demonstrou ser uma estratégia de comunicação eficaz para superar barreiras técnicas e aproximar o conhecimento acadêmico do público. [4, 5]

Nesse panorama, a Palhaçaria Científica emerge como uma abordagem interdisciplinar que une o rigor conceitual a uma linguagem acessível, fomentando uma comunicação mais inclusiva, crítica e participativa. Com esse propósito, o projeto Palhaçaria Científica foi lançado em 2023 para integrar práticas artísticas à divulgação científica e à formação universitária. [6, 7] Desde então, o projeto consolidou-se como uma atividade significativa de extensão universitária e divulgação, marcando presença em eventos institucionais, festivais culturais e ações educativas, além de conquistar reconhecimento em veículos de comunicação acadêmicos e institucionais.


Figura 1. Cartaz de divulgação do Espetáculo “A terra é plana! E agora?”, apresentada na Casa dos Quatros em Brasília, nos dias 15 a 17 de novembro de 2019.

 

Oficina

Com o propósito inicial de recrutar novos membros para futuras atividades, em 2024 foi lançada a primeira Oficina de Palhaçaria Científica. Para sua realização, foi essencial convidar dois artistas externos ao ambiente acadêmico, Pedro Caroca (Seu Coco) e Julia Bertolini (Palhaça Catarina), para que, junto ao palhaço cientista Dr. Terremoto (Prof. George Sand França) [8], promovessem uma maior integração entre ciência e palhaçaria.

A oficina despertou grande interesse, resultando na seleção de 10 participantes, incluindo alunos de graduação e pós-graduação, servidores da USP, professores e atores. O objetivo central era capacitar os participantes a comunicar ciência de forma sensível, criativa e acessível, culminando em um Cabaré, com pequenas apresentações individuais. Desde então, três edições da oficina já foram realizadas, e as instigantes apresentações têm ocorrido no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. A Figura 2 ilustra momentos da oficina e do III Cabaré Científico.

Figura 2: Imagens da Oficina Palhaçaria Científica e III Cabaret Científico e da Oficina.

 

Em decorrência desse resultado, foi criado o Grupo πADA – Palhaçaria Científica, que congrega estudantes de graduação e pós-graduação, docentes, funcionários da Universidade de São Paulo e membros da comunidade externa. As oficinas desempenham um papel crucial na formação inicial dos palhaços científicos e na viabilização de apresentações em espaços acadêmicos inéditos para tais atividades. Os cabarés científicos, que marcam o encerramento das etapas de trabalho, contam com o engajamento total da instituição.

 

Os espetáculos

O projeto do grupo teatral πADA – Palhaçaria Científica teve início com o espetáculo “A viagem ao interior da Terra”, em novembro de 2023, criado para um evento do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, com a participação da doutoranda Janine Araújo do Carmo, gentilmente batizada de palhaça Magnetita. A peça, que serve como cartão de visita do grupo, narra a jornada de dois palhaços convidados a realizar uma viagem financiada ao interior da Terra, explicando de forma lúdica as camadas mais superficiais do planeta.

 

“A Palhaçaria Científica emerge como uma abordagem interdisciplinar que une o rigor conceitual a uma linguagem acessível, fomentando uma comunicação mais inclusiva, crítica e participativa.”

 

Em 2024, o projeto consolidou-se com diversas apresentações do espetáculo, incluindo uma performance no concerto Cosmogonia Sonoras da Orquestra Sinfônica da USP (OSUSP, IAG/USP), além de apresentações na 9ª Feira do Livro USP São Carlos, no 308º Encontro de Estudos da Palhaçaria (Centro de Memória do Circo), e no Observatório Abrahão de Morais, em Valinhos-SP. Inicialmente, o grupo contou com a colaboração do técnico Giovanni Moreira e do aluno de graduação Gustavo Gosling.

Com a consolidação do projeto, surgiram novos convites: uma performance para o Prêmio Mães Pesquisadoras, destacando a importância da figura paterna no cuidado do bebê [9], e a participação na série Concertos Didáticos da OSUSP. Para essa série, foi apresentado o espetáculo “A Terra Animada” durante uma semana, totalizando seis sessões.[10] A Figura 3 mostra imagens dos dois eventos. Esse trabalho contou com uma maior participação de palhaços cientistas, resultando em um marco para o grupo e na adaptação do segundo espetáculo para apresentações sem a presença da orquestra.

Figura 3. Registro dos consertos didáticos (acima) e da performance “Mães Pesquisadoras” (abaixo).

 

A divulgação científica por meio da palhaçaria científica tem o objetivo de despertar a curiosidade e instigar a busca pelo entendimento. Em A Viagem ao Interior da Terra, são abordados temas como rochas sedimentares, falhas geológicas, dinâmica da Terra e terremotos, sendo o espetáculo direcionado principalmente ao público do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio. Já A Terra Animada, que envolve temas como sistema solar, rotação, translação e meio ambiente, atende públicos de todas as idades.

As apresentações foram realizadas em diferentes contextos, incluindo escolas públicas, centros culturais, festivais e espaços institucionais, alcançando públicos diversificados. Destacam-se ações realizadas em regiões como no bairro distante da USP em Brasilândia e no entorno, em São Bernardo, bem como participações em eventos como o Parque Cientec da USP e festivais acadêmicos.

 

 

“A divulgação científica por meio da palhaçaria científica tem o objetivo de despertar a curiosidade e instigar a busca pelo entendimento.”

 

Dois momentos destacaram-se como particularmente marcantes durante o projeto. O primeiro ocorreu na Escola Municipal de Educação Infantil Zélia Gattai, onde a interação e a experiência com “A Terra Animada” foram tão significativas que as crianças expressaram o espetáculo por meio de desenhos. O segundo momento ocorreu na Escola Municipal de Educação Básica Luiz Gushiken e ilustra o despertar da curiosidade. Ao final da apresentação, era mencionado que, até o momento, não existe tecnologia capaz de permitir uma viagem ao interior da Terra. Logo após o espetáculo, uma criança de cinco anos declarou com convicção: “Eu vou fazer um carro para viagem ao interior da Terra”, respondendo ao ceticismo inicial (“vai nada”) com um enfático “vou sim”. Tais reações demonstram que o objetivo de despertar o interesse foi plenamente alcançado. A Figura 4 mostra imagens desses dois momentos.

A utilização de elementos teatrais e a interação direta com o público favorecem a construção de experiências significativas de aprendizagem, ampliando o interesse e a compreensão sobre temas científicos.

Figura 4. Palhaços científicos mostram os desenhos da Escola Municipal de Educação Infantil Zélia Gattai (acima) e apresentação da A Viagem ao Interior da Terra na Escola Municipal de Educação Básica Luiz Gushiken (abaixo).

 

Comentários finais

O projeto Palhaçaria Científica demonstrou um potencial significativo na integração entre arte e ciência como estratégia de comunicação e formação. A abordagem lúdica e instigante contribuiu para a democratização do conhecimento científico, tornando-o mais acessível e atrativo para diversos públicos. Até o momento, foram realizadas nove apresentações de “A viagem ao interior da Terra” e nove apresentações da “A Terra Animada”, além de uma performance, três oficinas e três cabarés científicos. Essa quantidade de eventos, aliada à busca pela qualidade e por uma troca mútua entre público e realizadores, confirma um caminho promissor para a divulgação científica.

Observa-se um impacto significativo na formação dos participantes, especialmente no desenvolvimento de habilidades comunicativas, bem como na construção de uma postura mais crítica e sensível em relação à prática científica.

 

“A abordagem lúdica e instigante contribuiu para a democratização do conhecimento científico, tornando-o mais acessível e atrativo para diversos públicos.”

 

Frente aos desafios atuais da divulgação científica, a palhaçaria científica emerge como uma iniciativa crucial para fortalecer a comunicação entre academia e público. Essa abordagem promove uma ciência mais acessível, inclusiva e socialmente engajada.

 

Agradecimentos

Rafael Santos de Barros, Pedro Caroca, Julia Bertolini, Gustavo Gosling, Luiz Martin Suarez Sotelo, Mônica Rodrigues Lopes, Ana Claudia Campos, Lucas Sampaio de Amori e Eduardo Tessarri Coutinho. Ao CNPq pela bolsa de produtividade de pesquisa PQ.

 

Capa: Freepik. Reprodução.
[1] COELHO BORTOLETO, Marco Antonio. Palhaços sem fronteiras: O circo a serviço da sociedade
Clowns Without Borders: The Circus at the Service Of Society. Percursos, Florianópolis, v. 6, n. 2, 2007. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/percursos/article/view/1454. Acesso em: 13 abr. 2026.
[2] DOUTORES DA ALEGRIA. Relatório de Pesquisa. 2026. Disponível em: www.doutoresdaalegria.org.br/. Acesso em: 02/02/2010.
[3] DAMASCENA, Viviane Oliveira. Um estudo sobre negacionismo científico e suas possíveis influências nas práticas dos professores de Ciências. 2023. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de São Paulo, Campus Diadema, Diadema, 2023.
[4] FRANÇA, Gabriel B.; BRITO, Paulo Eduardo. The Flat Earth satire: using science theater to debunk absurd theories. Geoscience Communication, v. 4, p. 297–[final], 2021. DOI: https://doi.org/10.5194/gc-4-297-2021
[5] FRANÇA, George Sand; SANTOS, Brendo Sousa. “The Earth is Flat! Isn’t it? 2.0!” clowns experience. In: AGU Fall Meeting 2022, 2022. AGU Fall Meeting Abstracts. San Franciscp, CA Washington, DC: American Geophysical Union, 2022. Disponível em: ADS Harvard Abstract. Acesso em: 18 maio 2026.
[6] BARRETO, P. S. C. S.; FRANÇA, G. S.; MYJNYK, J. F.; GOMES, L. C. T.; GOUVEIA, F. Palhaços científicos: o que são? In: 5. Seminário Internacional de Circo, 2024, Campinas. Anais do 5. Seminário Internacional de Circo. Campinas, 2024a.
[7] BARRETO, P. S. C. S.; FRANÇA, G. S.; BERTOLLINI, J.; RAMOS, F. C.; MOREIRA, G.; GOSLING, G.; GOMES, L. C. T.; SIFFERT, L. R.; SANTOS, P. B.; MIQUELLACI, M. H. Palhaços científicos: o que são? In: 11º Encontro de Divulgação de Ciência e Cultura, 2024, Campinas. 11 Caderno de Resumos: Decolonizar para Viver. Campinas, 2024b. v. 11, p. 170–172.
[8] REVISTA PESQUISA FAPESP. Hoje tem espetáculo? São Paulo: FAPESP, 2024. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/hoje-tem-espetaculo/. Acesso em: 18 maio 2026.
[9] JORNAL DA USP. Prêmio Mães Pesquisadoras homenageia cientistas das Ciências Agrárias e Ambientais. São Paulo, 8 maio 2025a. Disponível em: Jornal da USP. Acesso em: 19 maio 2026
[10] JORNAL DA USP. Risos, ciência e música: “Concertos Didáticos” reúne crianças, orquestra e palhaços. São Paulo, 18 set. 2025b. Disponível em: Jornal da USP. Acesso em: 19 maio 2026.
George Sand França é geofísico e professor titular na Universidade de São Paulo (USP) e Bolsista de Produtividade do CNPq, desenvolve pesquisa em Geociências, com ênfase em Sismologia, abrange áreas como Estrutura da Terra, Estatística aplicada a Terremotos, Sismicidade desencadeada por reservatórios e naturais e também na área da Divulgação Científica e Educação.

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