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A memória dos sons

Como a ciência da acústica ajuda a preservar paisagens sonoras ameaçadas pelo avanço das cidades e a manter viva a identidade cultural das comunidades.

Feche os olhos por alguns segundos e imagine sua cidade. Talvez surjam buzinas, motores e sirenes. Mas e os sons que já não existem? O pregão do vendedor ambulante, o repicar dos sinos da igreja do bairro, o martelo do ferreiro, os cantos de trabalho entoados coletivamente. Muitos desses sons estão desaparecendo silenciosamente das paisagens urbanas. E, com eles, desaparecem também fragmentos da história, da cultura e da identidade das comunidades.

Embora o patrimônio cultural seja frequentemente associado a monumentos, edifícios e objetos históricos, existe uma dimensão menos visível — ou melhor, menos audível — que também merece ser preservada. Trata-se do patrimônio imaterial sonoro, formado por expressões, práticas, memórias e tradições transmitidas por meio dos sons que caracterizam um lugar e uma época.

 

A cidade que se ouve

O conceito de paisagem sonora, ou soundscape, ganhou destaque a partir dos estudos do pesquisador canadense R. Murray Schafer, considerado um dos pioneiros da ecologia acústica. Segundo essa abordagem, cada ambiente possui uma identidade sonora própria, composta por sons naturais, humanos e tecnológicos que interagem continuamente.

A cidade não é feita apenas de prédios e ruas: ela também é construída por sons. O ritmo das conversas nas praças, o toque dos sinos, o apito de fábricas, os músicos de rua e os pregões dos vendedores fazem parte de uma complexa rede de significados que ajuda os moradores a reconhecerem e interpretarem seu espaço.

 

“Quando um som desaparece, não perdemos apenas uma vibração no ar, mas uma parte da memória coletiva.”

 

Pesquisas em ecologia acústica mostram que as paisagens sonoras desempenham papel importante na construção da memória individual e coletiva. Estudos publicados nas últimas décadas indicam que determinados sons funcionam como marcadores emocionais, capazes de evocar lembranças, fortalecer sentimentos de pertencimento e reforçar vínculos culturais entre as pessoas e seus territórios.

Quando um som desaparece, não perdemos apenas uma vibração no ar, mas uma parte da memória coletiva. É por isso que pesquisadores de diferentes áreas têm se dedicado a documentar e compreender as chamadas “assinaturas sonoras” das cidades.

 

Sons que estão desaparecendo

As transformações urbanas vêm alterando profundamente o ambiente acústico das cidades. A expansão do tráfego, a verticalização, a mecanização do trabalho e as mudanças nos hábitos de consumo substituíram muitos sons tradicionais por ruídos mais uniformes e contínuos.

Entre os exemplos mais emblemáticos estão os pregões dos vendedores ambulantes. Durante séculos, comerciantes anunciaram seus produtos por meio de frases cantadas, versos improvisados e melodias facilmente reconhecíveis. Em muitas cidades brasileiras, esses sons foram gradualmente substituídos por carros de som padronizados ou simplesmente desapareceram com o avanço do comércio digital.


Figura 1. Unsplash. Reprodução

 

Outro exemplo são os cantos de trabalho. Antes da mecanização intensa, trabalhadores utilizavam ritmos vocais para sincronizar movimentos em atividades agrícolas, portuárias e artesanais. Essas manifestações combinavam função prática, expressão cultural e sociabilidade, mas hoje sobrevivem apenas em registros históricos e em algumas comunidades tradicionais.

Também os sinos das igrejas, que durante séculos organizaram a vida cotidiana, perderam espaço. Além das mudanças culturais e religiosas, muitas comunidades enfrentam restrições relacionadas à poluição sonora. O resultado é o silêncio de campanários que antes marcavam as horas, celebravam festas e anunciavam acontecimentos importantes da vida comunitária.

Nas oficinas tradicionais, o cenário é semelhante. O som da marcenaria manual, da ferraria ou da sapataria artesanal vem sendo substituído por máquinas industriais ou desaparece à medida que esses estabelecimentos deixam os centros urbanos.

 

A ciência da preservação sonora

Para registrar esse patrimônio em risco, pesquisadores utilizam ferramentas cada vez mais sofisticadas. Uma das principais é a gravação de alta fidelidade, capaz de capturar não apenas o som principal, mas toda a ambiência ao redor.

Microfones binaurais, por exemplo, simulam a audição humana tridimensional e permitem reproduzir com grande realismo a experiência sonora de um local. O resultado funciona como uma verdadeira cápsula do tempo acústica, preservando detalhes que dificilmente poderiam ser descritos apenas por fotografias ou textos.


Figura 2. Unsplash. Reprodução

 

Outra frente importante é o desenvolvimento de arquivos digitais e museus sonoros. Projetos internacionais, como o Conserve the Sound, catalogam ruídos e sons ameaçados de desaparecer. Universidades e centros de pesquisa também criam bancos de dados dedicados à documentação de paisagens sonoras urbanas, rurais e tradicionais. No Brasil, iniciativas como o Tudo Soa no Sertão documentam as paisagens sonoras do Ceará e promovem a escuta ativa, o registro de sons e a educação patrimonial com jovens. Já os Mapas de Ruído Urbano, desenvolvidos por universidades e centros de pesquisa com apoio da ProAcústica, monitoram a poluição sonora nas cidades, produzindo diagnósticos que subsidiam o planejamento urbano, a criação de áreas mais silenciosas e ações para melhorar a qualidade de vida da população.

Além do registro, a acústica moderna permite reconstruir ambientes desaparecidos por meio da chamada auralização. Utilizando dados históricos, características arquitetônicas e modelos computacionais, pesquisadores conseguem recriar digitalmente a forma como determinados espaços soavam no passado. É uma espécie de arqueologia acústica que permite ouvir lugares que já não existem.

 

Educação para ouvir

A preservação sonora também tem uma dimensão educativa. Diversos projetos ao redor do mundo vêm utilizando caminhadas sonoras, oficinas de escuta e atividades de gravação com crianças para estimular uma percepção mais atenta do ambiente.

Preservar uma paisagem sonora é preservar uma forma de perceber e habitar o mundo. Ao aprender a identificar sons, distinguir camadas acústicas e refletir sobre suas transformações, crianças e jovens desenvolvem não apenas sensibilidade auditiva, mas também consciência histórica, cultural e ambiental.

 

“A cidade não é feita apenas de prédios e ruas: ela também é construída por sons.”

 

No Brasil, iniciativas ligadas ao patrimônio imaterial encontram respaldo em ações de salvaguarda conduzidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O reconhecimento do Choro como Patrimônio Cultural do Brasil em 2024 reforça a importância das expressões sonoras na construção da identidade nacional. Da mesma forma, manifestações como o Jongo, o Tambor de Crioula e o Fandango Caiçara demonstram que sons, músicas e tradições orais são componentes fundamentais da diversidade cultural brasileira.

Em um mundo cada vez mais dominado por ruídos padronizados e tecnologias silenciosas, ouvir pode se tornar um ato de preservação. Registrar os sons que nos cercam não significa apenas guardar arquivos digitais para o futuro. Significa proteger memórias, modos de vida e formas de pertencimento que ajudam a contar quem somos. Afinal, a história de uma cidade não está escrita apenas em suas fachadas — ela também ecoa em seus sons.

 

Capa. Divulgação
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