Gemini_Generated_Image_i4xj0qi4xj0qi4xj

As mulheres que a história da ciência esqueceu

Mulheres já são maioria entre pesquisadores no Brasil, mas continuam sub-representadas no reconhecimento, na liderança e na memória da ciência

Imagine abrir um livro sobre a história da ciência brasileira e encontrar páginas repletas de homens. Não porque eles tenham sido os únicos a pesquisar, descobrir, ensinar ou construir instituições, mas porque, durante muito tempo, foram eles que receberam mais crédito, mais espaço e mais permanência na memória. Algumas mulheres aparecem como exceções extraordinárias — quase sempre acompanhadas da palavra “primeira” ou “pioneira”, como se a simples presença dela naquele espaço fosse algo extraordinário. Outras surgem como esposas, assistentes ou colaboradoras de homens. Muitas simplesmente desaparecem. O problema é que o apagamento não termina quando uma cientista deixa o laboratório: ele pode continuar na forma como seus trabalhos são citados, seus nomes aparecem em livros, seus prêmios são distribuídos e sua contribuição é lembrada pelas gerações seguintes.

Mas há uma diferença importante entre apagamento e simples ausência. Não se trata apenas de contar quantas mulheres estão dentro da ciência. É preciso observar quem recebe crédito, quem assina primeiro, quem é convidado a liderar, quem ganha financiamento, quem ocupa posições de decisão e quem passa a ser lembrado como autor de uma descoberta. A ciência é uma atividade coletiva, mas suas recompensas são distribuídas de maneira desigual. E, quando o reconhecimento se concentra repetidamente nos mesmos grupos, a própria história produz a impressão de que eles foram os principais responsáveis pelo conhecimento construído.

 

Uma ciência que mudou, mas não por completo

O Brasil avançou muito na participação feminina na pesquisa. Segundo o Censo de 2023 do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, as mulheres representavam 52% dos pesquisadores vinculados aos grupos cadastrados, contra 50% em 2016. O dado desmonta a ideia de que as mulheres seriam uma pequena minoria na ciência brasileira. Elas estão presentes em grande número e participam ativamente da produção de conhecimento.

O problema aparece quando se acompanha a trajetória ao longo da carreira. Em 2023, o próprio governo federal destacava que as mulheres correspondiam a 60% das bolsas de iniciação científica, mas a apenas 35% das bolsas de produtividade do CNPq — um indicador associado às etapas mais avançadas da carreira de pesquisa. O que parece uma linha contínua de formação transforma-se, portanto, em uma espécie de funil: muitas meninas entram, muitas mulheres se formam, mas uma parcela menor chega aos espaços de maior prestígio e poder.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) oferece outro retrato dessa assimetria. Após as eleições de 2024, as mulheres passaram a representar 22,26% dos membros titulares da instituição. Entre os membros afiliados, que representam uma geração mais jovem de pesquisadores, a proporção era de 40,67%. A diferença entre as categorias não explica sozinha toda a desigualdade, mas revela como a presença feminina diminui à medida que se sobe na hierarquia científica.

 

“Uma cientista pode estar presente no laboratório e ainda assim permanecer ausente da história.”

 

Esse percurso é conhecido na literatura como efeito tesoura: mulheres e homens podem começar uma trajetória acadêmica em proporções relativamente próximas — ou mesmo com vantagem feminina em determinados níveis —, mas as duas linhas se afastam conforme avançam a formação, a carreira e os cargos de maior responsabilidade. Não há uma única causa. Entram nessa equação estereótipos sobre quais áreas seriam “adequadas” para mulheres, redes profissionais predominantemente masculinas, distribuição desigual do trabalho de cuidado, critérios de avaliação e diferentes oportunidades de acesso a financiamento, liderança e reconhecimento.

 

O tempo que não aparece no currículo

Um dos pontos de maior impacto é a maternidade. A carreira científica costuma ser organizada em torno da produtividade: número de artigos, citações, projetos, orientações, participação em eventos e obtenção de recursos. O problema é que esses indicadores pressupõem uma disponibilidade de tempo que não é distribuída igualmente. Pesquisas brasileiras mostram que professoras e pesquisadoras mães enfrentam tensões relacionadas às jornadas extensas, ao trabalho reprodutivo e à necessidade de conciliar cuidado e carreira.

A questão não é simplesmente que a maternidade “reduz a produtividade” das mulheres. O ponto mais profundo é que o sistema científico frequentemente transforma uma diferença temporária de disponibilidade em desvantagem acumulada. Um intervalo na publicação de artigos pode afetar bolsas, promoções, convites, orientações e oportunidades futuras. Por isso, algumas agências passaram a adaptar seus critérios. O CNPq, por exemplo, prevê em determinados comitês a ampliação da janela de avaliação para pesquisadoras que tiveram filhos ou adotaram crianças. Em 2026, a CAPES criou o Programa Aurora, voltado a reduzir o impacto da maternidade na continuidade da carreira científica.

Essas medidas são importantes justamente porque mostram que a desigualdade não pode ser explicada como falta de esforço individual. Se mulheres e homens são avaliados por um sistema construído sobre trajetórias diferentes, tratar todos exatamente da mesma maneira pode produzir resultados desiguais. Equidade, nesse caso, não significa conceder vantagens arbitrárias, mas reconhecer condições concretas que interferem na possibilidade de produzir, pesquisar, viajar, estabelecer redes e permanecer na carreira.

 

As mulheres que estavam lá

A história brasileira oferece inúmeros exemplos de cientistas cuja presença foi muito maior do que a memória pública deixou transparecer. Yolande Monteux, nascida na França e naturalizada brasileira, foi a primeira mulher a se formar em Física no Brasil, pela USP, em 1937. Trabalhou com pesquisas em raios cósmicos e, por mais de duas décadas, esteve entre as poucas mulheres com formação superior atuando no Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Ainda assim, o próprio CNPq observa que atualmente pouco se sabe sobre sua trajetória em comparação com a de outros pioneiros da física brasileira.

Poucos anos depois, Sonja Ashauer tornou-se outra pioneira. Formada em Física pela USP, ela foi para Cambridge em 1945 e realizou seu doutorado sob orientação de Paul Dirac, Nobel de Física de 1933. Defendeu a tese em 1948, sobre eletrodinâmica quântica, tornando-se a primeira mulher brasileira a obter um doutorado em Física no exterior. Morreu naquele mesmo ano, aos 25 anos. Sua carreira curta ajuda a explicar parte de sua ausência da memória pública, mas não explica tudo: durante décadas, sua contribuição permaneceu pouco conhecida fora de círculos especializados.

Elisa Frota-Pessôa foi outra personagem fundamental da física brasileira. Uma das primeiras mulheres formadas em Física no país, ela foi a única mulher entre os fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e teve papel importante na criação e estruturação do Departamento de Emulsões Nucleares. Seu trabalho envolveu estudos de radioatividade e de partículas subatômicas. Hoje, seu nome batiza uma premiação dedicada à valorização da produção científica feminina — uma forma de reconhecimento que também evidencia como sua trajetória precisou ser recuperada e reinscrita na memória da própria instituição científica. (Figura 1)

Figura 1. Elisa Frota-Pessôa. (Foto: Arquivo pessoal. Reprodução)

 

Quando a ciência se mistura a outras lutas

Há ainda trajetórias que revelam como gênero, raça e classe podem se combinar na produção da invisibilidade. Enedina Alves Marques, formada em Engenharia Civil pela então Universidade do Paraná em 1945, foi a primeira engenheira negra do Brasil. Filha de uma empregada doméstica, estudou em condições adversas e ingressou em uma profissão e em uma universidade dominadas por homens brancos. Como engenheira, participou de importantes obras de infraestrutura no Paraná, incluindo trabalhos relacionados à Usina Capivari-Cachoeira. A Universidade Federal do Paraná (UFPR) registra que sua trajetória foi pouco abordada por muito tempo e que estudos posteriores identificaram padrões hierarquizados de classe, etnia e gênero em sua passagem pela Faculdade de Engenharia. (Figura 2)

Figura 2. Enedina Alves Marques. (Foto: Divulgação)

 

Bertha Lutz, por sua vez, é frequentemente lembrada por sua atuação no movimento sufragista brasileiro. Essa memória é legítima, mas incompleta. Naturalista e bióloga, ela trabalhou no Museu Nacional e participou de expedições e pesquisas sobre anfíbios, além de atuar na organização de coleções científicas. A documentação do Museu Nacional mostra uma carreira que atravessava pesquisa, curadoria, viagens científicas e atuação institucional. Sua história ajuda a perceber outro mecanismo de apagamento: quando uma mulher possui uma atuação política marcante, sua produção científica pode acabar relegada a segundo plano. (Figura 3)

Figura 3. Bertha Lutz. (Divulgação)

 

No caso de Nise da Silveira, a invisibilidade assumiu outras formas. Formada em Medicina em 1926, única mulher de sua turma, ela enfrentou tanto o machismo de seu ambiente profissional quanto perseguição política durante o governo Vargas. Ao retornar ao serviço público, recusou métodos psiquiátricos então utilizados, como eletrochoques, e criou uma abordagem baseada na terapia ocupacional, na expressão artística e no vínculo afetivo. Em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente. Hoje reconhecida como uma das figuras fundamentais da história da saúde mental no Brasil, sua trajetória mostra que inovação científica também pode significar questionar práticas consideradas normais por uma instituição inteira. (Figura 4)

Figura 4. Nise da Silveira. (Foto: Divulgação)

 

Não basta colocar mulheres na fotografia

Essas histórias têm algo em comum: não basta perguntar quantas mulheres participaram da ciência. É preciso perguntar em que condições participaram e o que aconteceu com o reconhecimento de seu trabalho. Uma cientista pode estar presente no laboratório e ainda assim permanecer ausente da história. Pode assinar um artigo e ter sua contribuição atribuída ao colega mais conhecido. Pode liderar uma equipe e não ser lembrada como autora principal. Pode produzir conhecimento durante décadas e continuar desconhecida fora de seu círculo profissional.

Isso também ajuda a explicar por que recuperar nomes não é apenas um exercício de justiça histórica. Memória produz referência. Quando meninas aprendem que a história da física, da engenharia, da medicina ou da matemática foi construída quase exclusivamente por homens, a mensagem não precisa ser explícita para produzir efeitos: aquele lugar parece pertencer a eles. A invisibilidade de cientistas do passado pode, assim, contribuir para limitar as possibilidades imaginadas pelas cientistas do presente.

 

Reescrever a história é mudar o presente

O movimento de recuperação dessas trajetórias já acontece em instituições brasileiras. O CNPq mantém o programa Pioneiras da Ciência, criado para dar visibilidade às contribuições de mulheres à ciência brasileira. Em 2025, o governo federal também entregou a primeira edição do Prêmio Mulheres e Ciência, reconhecendo pesquisadoras e instituições de diferentes regiões e áreas do conhecimento. Iniciativas como essas não eliminam desigualdades estruturais, mas ajudam a disputar quais nomes entram nos arquivos, nos museus, nos livros e na memória pública.

 

“Quando esses nomes voltam aos livros, aos laboratórios, aos arquivos e às salas de aula, não estamos apenas corrigindo uma injustiça do passado.”

 

A mudança, porém, exige mais do que acrescentar algumas mulheres a uma narrativa que continua essencialmente masculina. É preciso revisar os próprios critérios pelos quais o mérito científico é reconhecido, ampliar a diversidade nos espaços de decisão, considerar as diferentes condições de produção da pesquisa, combater vieses na avaliação e garantir que mulheres negras, indígenas e de outros grupos historicamente sub-representados também possam permanecer e ascender na carreira. O próprio desenho de políticas recentes já aponta nessa direção: chamadas do CNPq passaram a prever ações específicas para meninas e mulheres nas ciências exatas, engenharias e computação e iniciativas voltadas à internacionalização de pesquisadoras negras, indígenas, quilombolas e ciganas.

Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja quantas mulheres conseguiram “vencer” apesar das barreiras. Essa formulação coloca novamente sobre elas a responsabilidade por superar um sistema que não foi construído em condições iguais. A pergunta é outra: que ciência poderia ter sido construída se tantas mulheres tivessem recebido, desde o início, as mesmas oportunidades de reconhecimento, financiamento, autoria e liderança? Não há como responder retrospectivamente. Mas é possível olhar para os nomes que foram esquecidos e perceber que a história conhecida da ciência brasileira é apenas uma parte da história que efetivamente aconteceu.

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Picture of Blog Ciencia e Cultura

Blog Ciencia e Cultura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Relacionados