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Antibióticos: a revolução que mudou a medicina

Da descoberta da penicilina à ameaça da resistência microbiana, a história desses medicamentos revela como avanços científicos transformaram a saúde

Durante boa parte da história, uma infecção podia transformar um pequeno ferimento em uma ameaça à vida. Uma pneumonia, uma infecção após o parto ou uma bactéria que entrasse no organismo por um corte na pele podiam ter consequências devastadoras. Antes da chegada dos antibióticos, os recursos para combater muitas infecções bacterianas eram limitados, e procedimentos médicos hoje considerados rotineiros envolviam riscos muito maiores.

Muito antes de conhecerem os microrganismos ou compreenderem como as infecções se desenvolviam, diferentes sociedades já recorriam a substâncias naturais para tratar feridas e doenças. Preparações vegetais, materiais fermentados e outros produtos de origem biológica eram utilizados em práticas tradicionais. Algumas dessas substâncias podiam conter compostos com atividade antimicrobiana, mas seu uso se baseava na experiência, e não na identificação científica dos agentes responsáveis por seus efeitos.

A transformação começou a ganhar impulso no século XIX, quando a microbiologia avançou e os pesquisadores passaram a relacionar microrganismos específicos a determinadas doenças. Em 1889, o médico francês Paul Vuillemin empregou o termo antibiose para descrever uma relação em que um organismo prejudica outro. A ideia ajudaria a fundamentar um princípio central da pesquisa antimicrobiana: encontrar substâncias capazes de combater agentes infecciosos sem provocar danos inaceitáveis ao organismo tratado.

 

Da química à penicilina

No início do século XX, a busca por tratamentos específicos ganhou força com o trabalho do médico e pesquisador alemão Paul Ehrlich. Em 1909, sua equipe identificou um composto à base de arsênico que se mostrou eficaz contra a sífilis. Comercializado a partir de 1910 como Salvarsan, o medicamento representou um marco da chamada quimioterapia antimicrobiana: a tentativa de atingir o agente causador de uma doença por meio de uma substância química. Embora tóxico e posteriormente substituído por tratamentos mais seguros, o composto ajudou a estabelecer uma nova maneira de pensar a terapêutica.

A descoberta que mudaria a história da medicina, porém, surgiu de uma observação inesperada. Em 1928, o médico e bacteriologista escocês Alexander Fleming examinava culturas de bactérias do gênero Staphylococcus em seu laboratório, no Hospital St. Mary’s, em Londres. Uma das placas havia sido contaminada por um bolor, e Fleming percebeu que as bactérias não cresciam ao redor do fungo. A zona sem crescimento indicava que o microrganismo produzia alguma substância capaz de inibir as bactérias.

Figura 1. Alexander Fleming. (Foto: Calibuon/ Wikimedia Commons. Reprodução)

 

Fleming identificou o bolor como pertencente ao gênero Penicillium e deu à substância responsável pela atividade antibacteriana o nome de penicilina. Em 1929, publicou seus resultados, abrindo caminho para uma nova frente de investigação. A observação foi decisiva, mas ainda havia obstáculos importantes: a substância era instável, difícil de purificar e de obter em quantidades suficientes para o tratamento de pacientes. Descobrir que algo podia inibir bactérias não significava, por si só, conseguir transformá-lo em medicamento.

 

Da descoberta ao medicamento

A passagem da observação de Fleming para um tratamento eficaz exigiu o trabalho de uma equipe. No fim da década de 1930, pesquisadores da Universidade de Oxford, entre eles o patologista Howard Florey, o bioquímico Ernst Boris Chain e diversos colaboradores, retomaram o estudo da penicilina. O grupo desenvolveu métodos para extraí-la, purificá-la e testar seus efeitos em animais e seres humanos. No início da década de 1940, os resultados clínicos demonstraram seu potencial contra infecções bacterianas graves.

 

“A história do medicamento não se resume ao acaso de uma placa contaminada, mas envolve observação, experimentação, desenvolvimento tecnológico, ensaios clínicos e capacidade de produzir e distribuir um tratamento em escala.”

 

A Segunda Guerra Mundial acelerou a produção e a distribuição do medicamento. Com a participação de laboratórios, instituições de pesquisa e empresas farmacêuticas do Reino Unido e dos Estados Unidos, tornou-se possível ampliar a fabricação da penicilina. O antibiótico foi utilizado no tratamento de soldados e de outras pessoas com infecções, contribuindo para reduzir mortes em situações nas quais as opções terapêuticas eram escassas. A produção em escala industrial marcou a passagem de uma descoberta laboratorial para uma intervenção de grande alcance na saúde pública.

Figura 2. Penicilina. (Foto: Reprodução)

 

Em 1945, Fleming, Chain e Florey receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina pelo trabalho relacionado à descoberta da penicilina e aos seus efeitos terapêuticos. O reconhecimento simbolizou uma conquista coletiva: a história do medicamento não se resume ao acaso de uma placa contaminada, mas envolve observação, experimentação, desenvolvimento tecnológico, ensaios clínicos e capacidade de produzir e distribuir um tratamento em escala. A penicilina tornou-se um dos emblemas da medicina moderna.

 

A era de ouro dos antibióticos

A penicilina foi apenas o começo. A partir dos anos 1940, a pesquisa de substâncias produzidas por microrganismos do solo ampliou rapidamente as possibilidades de tratamento. Em 1943, o microbiologista Selman Waksman e seus colaboradores identificaram a estreptomicina, um antibiótico produzido por bactérias do gênero Streptomyces. Sua importância foi especialmente grande no combate à tuberculose, doença que por muito tempo teve opções terapêuticas bastante limitadas.

Nas décadas seguintes, pesquisadores descobriram ou desenvolveram diferentes classes de antibióticos, incluindo tetraciclinas, cefalosporinas e outros compostos que atuam sobre estruturas e processos essenciais das bactérias. O período entre os anos 1940 e 1960 é frequentemente descrito como uma era de ouro da descoberta desses medicamentos. A diversidade de substâncias encontradas permitiu tratar uma variedade crescente de infecções e tornou possíveis avanços em áreas como cirurgia, transplantes e tratamentos oncológicos, que dependem também da prevenção e do controle de infecções.

 

“O futuro desses tratamentos depende tanto da capacidade de inovar quanto das escolhas feitas hoje

 

Os antibióticos, entretanto, não são uma solução universal para todas as doenças infecciosas. Eles atuam contra bactérias, interferindo, por exemplo, na formação da parede celular ou na produção de proteínas necessárias à sobrevivência desses microrganismos. Não combatem vírus, como os que causam gripe e resfriado. A distinção é fundamental: usar um antibiótico quando a doença é viral não traz benefício contra o vírus e ainda pode contribuir para selecionar bactérias resistentes.

 

Quando os medicamentos deixam de funcionar

A capacidade das bactérias de sobreviver à ação de medicamentos é um fenômeno biológico que acompanha a própria história dos antibióticos. Em populações bacterianas, algumas variantes podem apresentar características que lhes permitem resistir a determinado tratamento. Quando um antibiótico é usado, as bactérias sensíveis tendem a ser eliminadas, enquanto as resistentes podem sobreviver e se multiplicar. O uso inadequado ou excessivo desses medicamentos favorece esse processo, embora a resistência também possa surgir e se disseminar por mecanismos naturais de evolução e troca de material genético.

A resistência antimicrobiana tornou-se um dos grandes desafios contemporâneos da saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2023 aproximadamente uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo era resistente aos tratamentos com antibióticos. Entre 2018 e 2023, a resistência aumentou em mais de 40% das combinações de microrganismos e medicamentos monitoradas pela organização. Esses dados mostram que infecções comuns podem se tornar mais difíceis de tratar e que as opções terapêuticas disponíveis não devem ser consideradas garantidas.

O problema não se resolve apenas com a descoberta de novas moléculas. É necessário investir em pesquisa e desenvolvimento, ampliar o acesso a diagnósticos e tratamentos adequados, prevenir infecções e fortalecer a vigilância da resistência. Também é essencial usar antibióticos somente quando indicados por profissionais de saúde, respeitar a prescrição e evitar compartilhar medicamentos ou guardar sobras para outra ocasião. A responsabilidade é coletiva: envolve serviços de saúde, governos, indústria, produção animal, ambiente e sociedade.

 

O futuro pode estar onde menos esperamos

Apesar dos obstáculos, a busca por novos compostos continua — e parte dela explora relações ecológicas que existem há milhões de anos. Um exemplo vem das formigas-cortadeiras, que cultivam fungos em seus ninhos como fonte de alimento. Para proteger essas culturas de organismos capazes de destruí-las, as formigas mantêm associações com bactérias que produzem substâncias antimicrobianas. Pesquisadores investigam se esses compostos naturais podem inspirar tratamentos para infecções humanas.

Em um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), liderados por Mônica Tallarico Pupo, em colaboração com Jon Clardy, da Universidade Harvard, foi identificada a cifomicina, uma molécula produzida por bactérias associadas a formigas. Em testes laboratoriais e pré-clínicos, o composto demonstrou atividade contra fungos patogênicos, inclusive alguns resistentes a medicamentos disponíveis. O resultado não significa que a cifomicina já seja um tratamento aprovado: ainda são necessárias etapas de pesquisa para avaliar sua segurança, eficácia e possível aplicação clínica. A descoberta, porém, reforça o potencial da biodiversidade como fonte de moléculas para o desenvolvimento de fármacos.

A história dos antibióticos mostra que uma observação fortuita pode abrir caminhos extraordinários, mas que transformar uma descoberta em benefício para a sociedade exige ciência continuada, colaboração e investimento. A penicilina revolucionou o tratamento de infecções, e as gerações seguintes de medicamentos ampliaram as possibilidades da medicina. Agora, diante da resistência crescente, o desafio é preservar a eficácia do que já existe e encontrar novas alternativas. O futuro desses tratamentos depende tanto da capacidade de inovar quanto das escolhas feitas hoje para usar os antibióticos com responsabilidade.

Capa. Magnific. Reprodução.
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