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O direito de contar sua própria história

Museus indígenas e afro-brasileiros ajudam a enfrentar apagamentos históricos e a construir novas narrativas sobre a formação do Brasil

Um museu pode guardar uma flecha, uma cerâmica, uma fotografia, um instrumento musical ou um documento. Mas também pode guardar aquilo que não cabe em uma vitrine: memórias, conhecimentos, cosmologias, dores, resistências e modos de existir. Quando se trata da história dos povos indígenas e da população negra no Brasil, essa dimensão ganha ainda mais importância. Afinal, durante séculos, suas histórias foram contadas principalmente por outros — muitas vezes a partir de olhares coloniais, racistas ou eurocêntricos. Criar e fortalecer espaços capazes de colocar essas populações no centro da narrativa é, portanto, também uma forma de disputar o presente.

 

Quando a memória foi construída de fora

Os museus modernos surgiram associados à construção de narrativas sobre o passado e à formação de imaginários coletivos e projetos de nação. No Brasil, essa tradição foi fortemente influenciada pelos modelos europeus, cujos acervos foram constituídos, em grande medida, durante períodos de colonização e expansão imperial. Objetos retirados de seus territórios de origem passaram a ser reunidos e classificados como testemunhos de povos e culturas muitas vezes tratados como objetos de estudo.

Essa história deixou marcas profundas nos acervos indígenas brasileiros. Objetos foram coletados por exploradores, viajantes, missionários, comerciantes, pesquisadores e colecionadores e, em muitos casos, acabaram distantes das comunidades que os produziram. A situação também se repetiu fora do país: importantes coleções indígenas brasileiras estão hoje em instituições europeias e norte-americanas. O problema, portanto, não é apenas onde estão os objetos, mas quem tem acesso a eles, como são catalogados e, sobretudo, quem tem autoridade para interpretar seus significados.

 

“Durante séculos, suas histórias foram contadas principalmente por outros — muitas vezes a partir de olhares coloniais, racistas ou eurocêntricos.”

 

Por isso, falar em museus indígenas é falar também em direito à memória. O Brasil reúne centenas de povos originários, centenas de línguas e uma enorme diversidade de conhecimentos, práticas e formas de compreender o mundo. Ainda assim, essa diversidade permaneceu durante muito tempo ausente ou sub-representada nas narrativas sobre a formação nacional. Museus podem ajudar a modificar esse quadro ao apresentar povos indígenas não como personagens de um passado distante, mas como sociedades contemporâneas, produtoras de conhecimento, arte, tecnologia e pensamento.

 

Da coleção à autonarrativa

Essa mudança depende, porém, de mais do que aumentar o número de objetos indígenas ou negros nas vitrines. É preciso questionar a própria maneira como os acervos são organizados, pesquisados e apresentados. Uma coleção pode, por exemplo, separar objetos por tipo, função ou região geográfica e deixar de registrar informações fundamentais para os povos que os produziram — como o nome da comunidade, o território de origem, o nome indígena do objeto ou as pessoas responsáveis por sua produção.

É nesse ponto que ganha força o protagonismo das próprias comunidades. Em iniciativas como o Museu Nacional dos Povos Indígenas (RJ) e o Museu das Culturas Indígenas (SP), a presença indígena na construção das narrativas desloca o museu de uma posição tradicional de autoridade sobre o outro. O conhecimento deixa de ser produzido apenas “sobre” determinado povo e passa a ser construído também “com” e “a partir” dele. Essa participação é fundamental para que os museus deixem de reproduzir antigas hierarquias e se transformem em espaços de diálogo e reconhecimento.

O Museu Nacional dos Povos Indígenas, criado em 1953 por Darcy Ribeiro, é um dos exemplos mais importantes dessa trajetória. Seu acervo reúne mais de 20 mil peças etnográficas, além de documentos, fotografias e registros audiovisuais. A instituição também reúne coleções constituídas pelos próprios indígenas e, segundo o material consultado, tornou-se o primeiro grande acervo etnográfico brasileiro a contar com direção indígena. A proposta evidencia que preservar patrimônio não significa simplesmente conservar objetos, mas também garantir que seus detentores participem das decisões sobre sua memória.

Em São Paulo, o Museu das Culturas Indígenas apresenta uma experiência ainda mais explícita de gestão compartilhada e protagonismo indígena. Inaugurado em 2022, o espaço trabalha com exposições sensoriais, arte contemporânea e tradicional, performances e conhecimentos ancestrais. Já em diferentes regiões da Amazônia Legal, experiências como o Museu Paiter A Soe, criado pelo povo Paiter Suruí em Rondônia, e o Museu Kuahí, no Amapá, mostram como os próprios povos podem criar instituições voltadas à preservação, transmissão e divulgação de suas histórias e patrimônios. (Figura 1)

Figura 1. Museu Kuahí (Foto: Hugo Macial/ Instituto IEPE. Reprodução)

 

Uma história negra que também precisa ser contada

A disputa pela memória não diz respeito apenas aos povos indígenas. Em um país cuja formação foi profundamente marcada pela diáspora africana e pela escravização de milhões de pessoas, preservar e divulgar histórias afro-brasileiras significa também enfrentar uma narrativa nacional que durante muito tempo reduziu a população negra à condição de mão de obra escravizada. Museus dedicados às culturas africanas e afro-brasileiras ajudam a deslocar essa perspectiva, revelando trajetórias de resistência, produção intelectual, religiosidade, arte, organização comunitária e criação cultural.

Em Salvador, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) aproxima o público das matrizes africanas que participaram da formação do Brasil, com destaque para regiões como Angola, Moçambique e Guiné. Resistência negra, quilombos, religiosidade, festas e culturas populares aparecem como dimensões de uma história que não pode ser compreendida apenas pelo trauma da escravidão. A Casa do Benin, também em Salvador, estabelece outra ponte importante: seu acervo e suas atividades ressaltam os vínculos históricos entre a Bahia e o Golfo do Benin, lembrando que a diáspora não apagou as conexões entre os dois lados do Atlântico.

No Rio de Janeiro, essa memória também se manifesta de maneira particularmente contundente. O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos preserva vestígios arqueológicos e históricos do antigo Cemitério dos Pretos Novos, onde milhares de africanos escravizados foram sepultados. Já o Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, localizado na região conhecida como Pequena África, reúne atividades educativas, exposições e manifestações culturais que colocam em evidência a contribuição e a resistência da população negra. São espaços nos quais a memória deixa de ser abstrata: ela se relaciona diretamente com lugares onde vidas foram vividas, violentadas, reconstruídas e transformadas. (Figura 2)

Figura 2. Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Foto: Sailko. CC BY-SA 4.0. Reprodução)

 

Em São Paulo, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo reúne mais de oito mil obras relacionadas à religiosidade, à arte e às histórias das culturas africanas e afro-brasileiras. Em Belo Horizonte, o Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu) amplia ainda mais a ideia de patrimônio ao reunir fotografias, objetos, festas, danças, celebrações e histórias das comunidades de favelas e quilombos urbanos. No Maranhão, a Casa do Tambor de Crioula valoriza uma manifestação de matriz afro-brasileira reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil; no Amapá, o Museu de Artes, Culturas e Memórias Negras evidencia a herança africana na formação da identidade afro-amazônica.

 

Memória também é educação

A importância desses espaços ultrapassa as paredes do museu. Ao aproximar estudantes, professores e público em geral de histórias e conhecimentos que foram frequentemente invisibilizados, essas instituições podem contribuir para uma educação mais plural. O papel é especialmente relevante diante da legislação brasileira que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Museus, centros culturais, memoriais e acervos podem funcionar, assim, como espaços de pesquisa, formação e produção de materiais educativos.

Mas preservar memória exige recursos. Muitos museus brasileiros possuem coleções importantes e, ao mesmo tempo, enfrentam limitações de espaço, infraestrutura, equipes técnicas e financiamento. A conservação de materiais orgânicos, por exemplo, demanda controle de temperatura e umidade, combate a fungos e pragas e equipes especializadas. O incêndio do Museu Nacional, em 2018, tornou dramaticamente visível o que está em jogo quando instituições responsáveis por preservar patrimônios históricos não dispõem das condições necessárias para fazê-lo.

Há ainda um desafio contemporâneo: tornar os acervos acessíveis sem ignorar os direitos das comunidades. A digitalização pode ampliar enormemente o acesso a documentos e objetos, especialmente quando coleções estão espalhadas por diferentes instituições e países. Mas nem tudo deve necessariamente estar disponível para todos. Para os povos indígenas, por exemplo, determinados objetos e conhecimentos podem possuir usos, significados ou restrições específicos. Protocolos de acesso precisam, portanto, ser construídos com consulta às comunidades, respeitando seus costumes e tradições.

 

De quem é o patrimônio?

Essa discussão conduz a uma questão ainda mais delicada: o que fazer com objetos que foram retirados de seus territórios de origem? O debate sobre repatriação vem ganhando espaço internacionalmente e envolve dimensões jurídicas, diplomáticas, históricas e, sobretudo, éticas. O retorno do Manto Tupinambá ao Brasil, depois de permanecer no Museu Nacional da Dinamarca, tornou-se um símbolo desse processo. O objeto, levado à Europa no século XVII, é apenas um dos mantos Tupinambá que permanecem em instituições europeias.

 

“Museus são instituições de memória, mas também podem ser instituições de futuro.”

 

A repatriação, entretanto, não precisa ser entendida apenas como a devolução física de uma peça. Ela também envolve a restituição do direito de conhecer, acessar, interpretar e decidir sobre o próprio patrimônio. A restituição digital de acervos, a revisão de catálogos, a abertura de bases de dados e a participação efetiva das comunidades são etapas possíveis de um processo mais amplo de reparação. Nesse sentido, museus podem deixar de ser apenas guardiões de coleções para se tornar parceiros na reconstrução de relações historicamente marcadas pela desigualdade.

No fundo, a pergunta sobre os museus é também uma pergunta sobre o próprio Brasil. Quem aparece quando contamos a história do país? Quem é apresentado como protagonista e quem aparece apenas como objeto? Quais conhecimentos são reconhecidos como ciência, quais memórias são consideradas patrimônio e quais vozes ainda permanecem fora das vitrines? Fortalecer museus indígenas e afro-brasileiros não significa substituir uma narrativa por outra, mas ampliar o campo de histórias capazes de compor a memória nacional.

 

Capa. Museu das Culturas Indígenas (MCI). Divulgação
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