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Modernismo, 100 anos depois

Antropofagia marginal continua ecoando nas periferias

“Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem”. Em seu “Manifesto Antropófago”, publicado em 1928, Oswald de Andrade propõe uma revolução cultural e social. Hoje, nas celebrações do Centenário da Semana de Arte Moderna — ápice do movimento modernista brasileiro — é possível perceber que a antropofagia se mantém atual e o modernismo, vivo.

Há cem anos, um grupo de artistas considerados “rebelde” organizava a semana que foi fundamental para que um novo processo artístico se estabelecesse por aqui. Mas a Semana de Arte Moderna não se limitou à São Paulo — tampouco a 1922. O cenário artístico acompanhou as mudanças que aconteciam no mundo e o movimento modernista persistiu — ou melhor, se adaptou, deglutindo todas as novas informações e influências e criando um novo movimento. O Novo Modernismo, como passou a ser chamado, é uma movimentação que coloca a negação das regras academicistas ainda em maior evidência, além de incluir em seu escopo a criação periférica.

Se foi a elite paulista que realizou a Semana de 22, hoje é o inverso. É a periferia que está dando a direção da cena artística, com personalidades negras, indígenas, LGBTQIA+, asiáticas e mulheres promovendo o debate. “Agora que estamos passando por uma revalorização das culturas ameríndias e afrodiaspóricas, e sobretudo agora que artistas indígenas e negres estão produzindo suas próprias narrativas sobre o que é pertencer a uma tradição nacional ou regional, é possível, sim, dizer que ainda há fôlego para a antropofagia”, afirma Pedro Meira Monteiro, professor de Espanhol e Português na Princeton University.

 

“Hoje é a periferia que está dando a direção da cena artística, com personalidades negras, indígenas, LGBTQIA+, asiáticas e mulheres promovendo o debate.”

 

Segundo o pesquisador, essa aproximação pode provocar um desconforto em relação a todos os lugares possíveis e a todas as explicações identitárias fixas. A arte teria essa função de “bagunçar” o mapa em que nos reconhecemos, e que nos diz quem somos e de onde viemos, e o processo cultural se daria nessa junção entre entendimento e desentendimento. “Não se produz nada de novo ou interessante quando há plena compreensão. Mas a incompreensão absoluta é um caminho para a violência. E a antropofagia pode ser uma resposta para esse dilema, porque ela pressupõe uma interpretação que é também uma forma de aproximação-limite, em que não se pretende tomar o lugar do Outro. Sobretudo, a arte serve para colocar em xeque e em suspenso a possibilidade de usar esse pronome tão enganoso quanto sedutor: ‘nós’”.

Antropofagia

Segundo o poeta e ensaísta Eucanaã Ferraz, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nós vivemos um tempo de globalização total, que fez desaparecer a necessidade de delimitação das culturas, ou ainda, a noção de “diferença” como força. Apenas o pensamento ultraconservador e/ou extremista se mantém interessado nas velhas noções de nacionalidade. “A antropofagia nos termos de Oswald teria muito a dizer acerca isso, sobre o ridículo e a fragilidade das perspectivas totalitárias”, diz. O pesquisador aponta ainda que é interessante pensar na proposta oswaldiana — que exige a deglutição, a digestão, a apreensão lenta, sensível, inteligente, e ainda, a singularidade, a diversidade e a divergência — em um momento em que vigora a velocidade e a absorção imediata.

O projeto da antropofagia possui um largo espectro, ainda que pareça vago e inalcançável. Mais do que mera provocação estética, é um chamamento à ação, à transformação, à participação dos artistas e intelectuais na vida social do país. “Ao cunhar o conceito de antropofagia, Oswald tencionava posicionar-se de outra maneira em relação à herança cultural europeia, não mais se servindo dela como modelo, rejeitando fórmulas pré-estabelecidas de composição poética e proclamando a abolição de todo eruditismo. A seu ver, o Brasil poderia oferecer algo de valor à civilização ocidental desde que seus artistas começassem a (re)ver nosso passado com renovado interesse”, explica Maria De Fátima Morethy Couto, professora do Instituto de Artes (IA) da Unicamp.

Quando Oswald lança a ideia da antropofagia, ela tem um impacto grande e se converte numa percepção interessante do que seria a dinâmica cultural brasileira. “O que era tabu vira totem, e aquilo que era tido como uma herança maldita da civilização tropical e escravista (a ascendência indígena e africana de grande parte da população) se converte em algo positivo. Há muitas idealizações e muitos silenciamentos nesse processo, mas a possibilidade de que as ideias europeias fossem contorcidas, e que da sua distorção pudesse nascer uma nova cultura, era nova e é até hoje muito provocativa. A metáfora de engolir o Outro que vem para ‘explicar’ o mundo é sempre produtiva”, explica Monteiro.

O conceito de antropofagia determina a possibilidade de questionar o sistema colonial e, simultaneamente, abre caminho para se pensar a identidade brasileira em sua complexidade. “Sua ambição é abater as perspectivas que julgavam as culturas não-europeias como simplesmente periféricas ou mesmo primitivas e bárbaras. Mas em vez de uma defesa que mirasse um frágil e ilusório nivelamento com a cultura europeia, Oswald trouxe os mais arraigados preconceitos para o centro de suas provocações, rindo deles e dando-lhes um sinal positivo: em vez de negar o atraso, ou o primitivismo, afirmou-os como poder transformador e libertário”, diz Ferraz. Segundo o pesquisador, as máximas oswaldianas ressaltaram pontos sensíveis da realidade brasileira e foram um motor poderoso num momento em que parte expressiva dos artistas, intelectuais, políticos e mesmo da elite econômica, empresarial e agrária buscava definir os rumos de um Brasil que se modernizava alheio ao que permanecia fora do quadro, ou seja, àquilo que o progresso sacrificava. “Este era o lado traumático do atraso, que trazia no bojo fendas sociais e econômicas gravíssimas, em larga medida decorrentes da escravatura e de um capitalismo de coronéis mal disfarçados em liberais. E as iluminações de Oswald foram enormes”, aponta.

Tropicália

A antropofagia se difundiu e acabou repercutindo e reverberando. O conceito adquire um sentido mais radical com a chamada geração tropicalista, no final dos anos 1960. Herdeiros do Concretismo e do Neoconcretismo, esses artistas consolidaram a transformação no modo de ver e sentir a arte propondo novas estruturas que possibilitassem uma “posição crítica realmente universal, profundamente revolucionária, ao campo das artes, do conhecimento, do comportamento”, como apontou Hélio Oiticica em artigo escrito para o Correio da Manhã em setembro de 1968.

Figura 1. A Tropicália era um movimento de inovações estéticas que propunha reinventar a música brasileira através da mistura de expressões
(Capa do álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”. Divulgação)

 

“Se a antropofagia de Oswald não se tornou vitoriosa sobre as outras propostas modernistas de interpretação da especificidade cultural brasileira no momento de sua elaboração ou nos anos imediatamente seguintes, ela foi talvez a proposta que mais impactou afirmativamente as gerações futuras e o debate artístico nacional, em especial a partir dos anos 1960”, aponta Couto. “Os poetas concretos, por exemplo, fizeram amplo uso da noção de antropofagia cultural, criada por Oswald de Andrade, e acabaram servindo de ponte entre o trabalho deste e os tropicalistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Foi também retomada por Hélio Oiticica em seu texto ‘Esquema Geral da Nova Objetividade’ (1967). No teatro, a apresentação do ‘Rei da vela’ no Teatro Oficina, por José Celso Martinez Corrêa, também foi um marco na retomada das ideias de Oswald”, conclui.

Assim como o modernismo buscou romper com o “passadismo”, a Tropicália pretendia romper com o “ufanismo” que dominava a produção artística no auge da ditadura militar. O movimento propunha uma ruptura com o que era feito até o momento, especialmente na música, e um novo processo para a construção das canções, repleto de singularidades e complexidade. A Tropicália era um movimento de inovações estéticas que propunha reinventar a música brasileira através da mistura de expressões — ou seja, criar algo novo a partir de algo já existente, como propõe a antropofagia. “A força e a originalidade de sua antropofagia — o Manifesto e o que se produziu mais imediatamente em torno dela — produziram algo muito raro: uma irradiação de pensamentos, imagens, intuições, sugestões, temas. A Tropicália é o exemplo mais flagrante e mais conhecido de ‘deglutição’ do muito que se irradiou da palavra de Oswald de Andrade”, aponta Ferraz.

Periferia

Por muito tempo o enfoque do modernismo se manteve na Semana de 22 e em São Paulo. Porém, pesquisas recentes vêm mudando esse quadro e mostrando a importância de tudo o que o grande evento paulistano acabou deixando de fora. Estudiosos, como Mônica Pimenta Velloso, historiadora e pesquisadora na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, apontam quem as relações entre centro e periferia eram mais complexas do que se pensava e que autores considerados de menor importância também tiveram participação significativa no desenvolvimento do modernismo no Brasil.

 

Figura 2. “Semana de Arte Moderna da Periferia” buscou rever discursos e atualizar o debate, trazendo a periferia para o centro.
(Cartazes da Semana da Arte Moderna de 1922 e da Semana de Arte Moderna da Periferia de 2007. Reprodução)

 

Como prova disso, em novembro de 2007, diversas iniciativas periféricas paulistanas se reuniram em uma mostra cultural coletiva intitulada “Semana de Arte Moderna da Periferia”. Segundo seus organizadores, o evento contou com a participação de cerca de 300 artistas e coletivos das áreas de literatura, teatro, dança, música e cinema, e contou até com a publicação de um “Manifesto da Antropofagia Periférica”. Mais do que uma referência à Semana de 1922, o evento buscou rever discursos e atualizar o debate, trazendo a periferia para o centro.

Através da arte, esses artistas criticam o conflito dos espaços urbanos socialmente excluídos e oprimidos, que, portanto, os mantém afastados dos centros artísticos. Desta forma, colocam em evidência todos os que estão “à margem”, que são ouvidos por outros que também estão marginalizados e anunciam sua arte independentemente de classe social, raça ou opção sexual. Assim, constroem seus próprios espaços, e concretizam o que os primeiros modernistas apenas idealizaram.

 

“Esses artistas criticam o conflito dos espaços urbanos socialmente excluídos e oprimidos, que, portanto, os mantém afastados dos centros artísticos.”

 

E hoje? Cem anos depois da Semana de Arte Moderna, novos nomes nas artes também têm buscado romper paradigmas. Eles são de diversas regiões do país, de diversos gêneros e raças, e marcam sua presença com uma arte ousada. Este é o caso do rapper indígena Kunumi MC, do cineasta, roteirista e compositor Marco Dutra, da artista visual e bailarina gaúcha Élle de Bernardini, do artista indígena Denilson Baniwa, e da escritora paulista Aline Bei, cujo estilo chama atenção pela junção de prosa e poesia. Eles se contrapõem aos pintores Di Cavalcanti e Anita Malfatti, ao maestro Heitor Villa-Lobos e aos escritores Menotti Del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, que fundaram a Semana de 22, ao mesmo tempo que levam adiante seu legado de fazer arte legitimamente brasileira, rompendo com os padrões e as tradições.

A antropofagia, enquanto “revolução caraíba”, inverte o vetor colonial, valorizando o que temos de mais brasileiro e original. Rumo ao centenário da Semana de 22, ela ainda nos une na busca por essa nacionalidade e construção de uma nação — mais diversa, mais justa. Como escreve Oswald de Andrade no primeiro aforismo do “Manifesto Antropófago”: “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”. E o “Manifesto da Antropofagia Periférica” ecoa: “A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor.”

 

Capa. Cem anos após a Semana de Arte Moderna, novos nomes nas artes continuam buscando romper paradigmas.
(“Cunhatain”, antropofagia musical, de Denilson Baniwa. 2018. Acrílica sobre tecido. Reprodução)
Chris Bueno

Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
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