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No Limite: um físico apaixonado pelo cinema e professor ex-cêntrico

Conheça a história do cientista brasileiro Plínio Süssekind Rocha

 

Cinquenta anos atrás falecia Plínio Süssekind Rocha (Figura 1), um personagem importante no meio intelectual e acadêmico do Rio, entre as décadas de 1930 e 1970. Atuou como professor de física nos ensinos secundário e superior, e colaborou na formação das primeiras gerações de físicos e matemáticos no Brasil. Como professor de física na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), influenciou alunos nas sendas da física e da filosofia da ciência. Era aficionado pelo cinema. Atuou como crítico, criou cineclubes e estimulou alunos, alguns dos quais se tornaram destacados cineastas ou críticos de cinema. Uma ação, muito relevante para a cultura brasileira, foi ter sido o principal responsável pela preservação e recuperação do clássico filme “Limite” (1931) de Mário Peixoto, nas décadas de 1950/70, ao lado de Saulo Pereira de Mello, seu discípulo.

Figura 1. O físico Plínio Süssekind Rocha
(Reprodução)

 

Nascido em 1911, aluno do Colégio Zaccaria, Plínio criou, com apenas 17 anos, com três amigos, o famoso Chaplin Club. Publicavam o jornal O Fan (Figura 2), defensor do cinema mudo, onde Plínio exerceu um papel precursor de crítico de cinema. Fez engenharia civil, ficou amigo de Bernhard Gross, que o iniciou na pesquisa no Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e o convidou para ser professor na Universidade do Distrito Federal (UDF), criada por Anísio Teixeira, onde deu aulas de filosofia da ciência entre 1935 e 1937. A experiência da UDF é amputada e Plínio vai para Paris, por um ano, estudar filosofia da ciência com Abel Rey. Ali conhece e fica amigo de Mario Schenberg e de Paulo Emílio Sales Gomes e o introduz nas sendas cinematográficas.


Figura 2. O jornal O Fan
(Reprodução)

 

De 1942 a 1969, foi professor catedrático de Mecânica Racional, Mecânica Celeste e Física Matemática da FNFi. Ali criou um clube de cinema, que durou décadas, e estimulou alunos de física, para carreiras no cinema, como Joaquim Pedro de Andrade. De 1953 até sua morte, em 1972, juntamente com Saulo, quais Dom Quixote e Sancho Pança, fazem uma heroica e intensa campanha para a recuperação de “Limite”, cuja cópia, em mau estado, lhe havia sido entregue pelo amigo Mario Peixoto. A batalha tem êxito e o filme é completamente restaurado e novamente exibido em 1975 (Figura 3). Em 2015, o filme entrou em primeiro lugar na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Figura 3. Jornal O Globo de 26/05/1978
(Reprodução)

 

Apenas por ter cópias de filmes soviéticos, que exibia na FNFi, Plínio foi preso arbitrariamente, em 1966, sob a acusação de subversão. Em 1969, a ditadura militar acaba com sua carreira de professor universitário e contribui, pouco tempo depois, para sua morte prematura: foi aposentado compulsoriamente, com base no AI-5, com mais quatro colegas da física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ): Leite Lopes, Tiomno, Sarah Barbosa e Elisa Frota-Pessoa.

Plínio estimulou alunas da escola pública para carreiras científicas, entre as quais Elisa, que se tornaria, em 1942, uma das primeiras físicas do Brasil. Ela relatou: “No Ginásio Paulo Frontin eu tive uma sorte muito grande: o Plínio foi ensinar física lá. Nós ficamos muito amigos, ele me auxiliou muito, porque ele me dava outras coisas para eu ir estudando e acompanhava muito. O Plínio foi o primeiro que disse: ‘Se você gosta de física, você tem que fazer física mesmo. Agora já existe o curso de física na UDF’.” Para Sarah Barbosa: “O Plínio teve uma grande influência sobre nós, e sucessivamente sobre todos os estudantes de Física que vieram depois. Todos nós, além de admiradores, nos tornamos também amigos do Plínio… Era um homem inteligentíssimo e culto… Tinha muitos amigos na intelectualidade brasileira, como Paulo Emílio Sales Gomes, Otávio de Faria, Mário Peixoto, Paulo Carneiro, Almir de Castro, Vinícius de Moraes.”

Plínio exerceu influência em muitos estudantes da FNFi, como o brilhante físico teórico Jorge André Swieca, a quem apoiou em sua ida para estudar na Europa e que disse de Plínio: “Conhecê-lo foi um privilégio”. Ou em Luiz Pinguelli Rosa, que fez belo depoimento sobre Plínio em seu livro Memórias. Foi inspiração para Ennio Candotti, que se tornou seu grande amigo, quando, a convite de Schenberg, Plínio deu cursos de história e filosofia da ciência na Universidade de São Paulo (USP), em 1964. Segundo Ennio, na filosofia da ciência o maior interesse de Plínio era o conceito de tempo, que no cinema ocupa papel conceitual central. Este tema está presente em muitas das anotações manuscritas de Plínio. Para o físico Luciano Videira: “Quem, além de Plínio, impressionou e marcou, de um modo tão próprio e tão indelével, tantos daqueles jovens que vieram, eles sim, a tornarem-se físicos profissionais? … Obrigado por tudo e até sempre Professor.”

Um professor excelente e exigente, dotado de uma verve crítica tão apurada que, se encantava e formava bem seus alunos, também o impossibilitou de trazer à luz muitas de suas ideias e pesquisas. Na apreciação de Gross, Plínio “era extremamente inteligente e tinha uma grande visão. Devo muito a ele, na vida profissional tanto como na vida particular. O desaparecimento dele deixa o mundo mais pobre.” Plínio foi amigo de Laurent Schwartz – grande matemático francês, criador da Teoria das Distribuições, Medalha Fields de 1950 – que enviou uma carta comovida à companheira de Plínio, Myrce Gomes, após a morte deste (Figura 4).


Figura 4. Carta do matemático francês Laurent Schwartz
(Reprodução)

 

O caso de Plínio ilustra um tipo de intelectual que, embora pouco considerado na história da ciência, por não ter tido uma produção cientifica ampla e destacada, deu uma contribuição relevante tanto para a formação profissional de muitos cientistas, como por ter atuado com destaque na fronteira que conecta a cultura, em particular o cinema, e a ciência. Plínio vivenciou as primeiras iniciativas institucionais para a formação de cientistas no Brasil, as grandes mudanças culturais no cinema e as que ocorriam na ciência, como o surgimento de relatividade e da mecânica quântica. Em homenagem a este mestre ex-cêntrico e multifacetado, a Biblioteca do IF-UFRJ, da qual Plínio é o Patrono, organizou, sob a batuta competente de Bárbara Nóbrega, uma expressiva exposição sobre ele, que pode ser ali vista até 9 de dezembro, com documentos, livros e materiais de seu acervo pessoal (Figura 5). Vale ver!


Figura 5. Exposição sobre Plínio Süssekind Rocha na Biblioteca do IF-UFRJ
(Reprodução)

 

Capa: Foto do professor Plínio com o seu aluno Saulo Pereira de Mello
(Imagem por Myrce Rocha./ Reprodução)
Ildeu de Castro Moreira

Ildeu de Castro Moreira

Ildeu de Castro Moreira é professor do Instituto de Física e do programa de pós-graduação em história das ciências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Recebeu o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica do CNPq em 2013. É presidente de honra da SBPC, membro do Conselho Superior da CAPES e editor desta edição da Ciência & Cultura.
Ildeu de Castro Moreira é professor do Instituto de Física e do programa de pós-graduação em história das ciências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Recebeu o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica do CNPq em 2013. É presidente de honra da SBPC, membro do Conselho Superior da CAPES e editor desta edição da Ciência & Cultura.
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