De pioneira da oceanografia nacional a primeira mulher da Academia Brasileira de Ciências, Marta Vannucci construiu uma trajetória que uniu pesquisa, viagem, resistência e a criação de instituições fundamentais para o país.
A trajetória de Marta Vannucci atravessa quase um século de ciência brasileira. Nascida em Florença, em 1921, chegou ao país ainda menina, fugindo do avanço do fascismo. Seu pai, médico e antifascista, moldou-lhe a curiosidade e o rigor intelectual, influências que mais tarde guiariam sua escolha pela biologia e pelo estudo do mar. Aos 25 anos, já havia defendido um doutorado na Universidade de São Paulo e trabalhava como assistente do zoólogo Ernst Marcus.
O Instituto de Oceanografia
A entrada de Marta Vannucci no nascente Instituto Paulista de Oceanografia marcou o início de sua atuação decisiva para a estruturação da pesquisa oceanográfica no Brasil. Ao lado de Wladimir Besnard, empenhou-se em transformar o instituto em uma unidade universitária voltada integralmente às ciências do mar. O esforço culminou, em 1951, na criação do Instituto Oceanográfico da USP (UOUSP), marco institucional que redefiniu a formação científica brasileira na área. (Figura 1)

Figura 1. Inauguração do Instituto Oceanográfico como Unidade de Pesquisa da USP, em 1951.
(Foto: Acervo IOUSP. Reprodução)
No IOUSP, a pesquisadora ajudou a organizar cursos, liderou pesquisas sobre plâncton e ecossistemas costeiros e participou da construção do primeiro navio oceanográfico brasileiro, o Professor Wladimir Besnard. Aos poucos, consolidou-se como uma das principais especialistas em manguezais do mundo, combinando expedições extensas pelo litoral brasileiro com pesquisas em bases internacionais. Sua atuação também a levou à direção do Instituto, cargo que assumiu em 1964 — tornando-se a primeira mulher a ocupar o posto.
Ao longo de sua carreira, Marta Vannucci enfrentou desafios frequentes em um ambiente predominantemente masculino e pouco receptivo à presença feminina nos altos cargos científicos. Ela nunca romantizou tais dificuldades. Em depoimentos posteriores, reconheceria a tensão entre maternidade, vida pessoal e produção acadêmica, destacando como as redes de apoio foram determinantes para que conseguisse seguir no caminho da ciência.
Do Brasil para o mundo
Sua saída do IOUSP, em 1969, aconteceu sob o peso da ditadura militar, que a “aconselhou” a se afastar. A partir desse momento, sua trajetória ganhou dimensão global. Convidada pela UNESCO, trabalhou como perita em oceanografia na Índia, depois no México, e posteriormente voltou ao sul da Ásia para dirigir um escritório regional. Mais tarde, dedicou-se também ao estudo e à preservação dos manguezais, atuando em projetos internacionais que definiram parâmetros globais para o tema.
“Sua presença abriu caminho para gerações futuras, ajudando a questionar a desigualdade de gênero no meio científico.”
Durante mais de quatro décadas de viagens constantes, Marta Vannucci colecionou experiências em diferentes mares e culturas, aprendeu vários idiomas e tornou-se referência mundial na pesquisa sobre ecossistemas de mangue. Ainda assim, nunca rompeu sua ligação com o Brasil. Publicou mais de cem artigos, colaborou com instituições nacionais e criou, em homenagem ao filho, o Prêmio Érico Vannucci Mendes, hoje parte importante do reconhecimento de pesquisas sobre cultura e memória brasileira.
Academia Brasileira de Ciências
O prestígio científico que acumulou ao longo da vida lhe garantiu, em 1955, a entrada na Academia Brasileira de Ciências (ABC) como membro associado. Em 1966, tornou-se a primeira mulher eleita membro titular da instituição, conquistando um espaço até então reservado quase exclusivamente aos homens. Sua presença abriu caminho para gerações futuras, ajudando a questionar a desigualdade de gênero no meio científico. (Figura 2)

Figura 2. Marta Vannucci foi a primeira mulher a se tornar membro titular da Academia Brasileira de Letras (ABC)
(Foto: Reprodução)
O legado de Marta Vannucci se estende também pela dimensão formadora. Orientadora exigente, formou pesquisadores que mais tarde se tornaram referência em oceanografia e ecologia. Muitos deles destacam sua disciplina, sua generosidade intelectual e sua capacidade de enxergar além das fronteiras da própria área — marca de uma carreira que atravessou desde o plâncton marinho até estudos de antropologia.
Ao mesmo tempo, sua atuação institucional transformou a pesquisa oceanográfica no país. Do fortalecimento do IOUSP ao estabelecimento de vínculos internacionais, Marta contribuiu para estruturar uma área que, até sua chegada, praticamente não existia. Hoje, o reconhecimento internacional dos estudos brasileiros em manguezais e ecossistemas costeiros deve muito ao seu trabalho inicial.
Pioneirismo e legado
A cientista também legou uma reflexão importante sobre o papel das mulheres na ciência. Apesar de resistir ao rótulo de pioneira feminista, sua trajetória evidencia a complexidade de avançar em um campo dominado por homens, enfrentando pré-julgamentos, sobrecarga e expectativas sociais rígidas. Sua história revela, portanto, não apenas a consolidação da oceanografia no Brasil, mas também a persistência necessária para ocupar espaços onde antes nenhuma mulher havia estado.
“Hoje, o reconhecimento internacional dos estudos brasileiros em manguezais e ecossistemas costeiros deve muito ao seu trabalho inicial.”
Ao morrer, em 2021, aos 99 anos, Marta Vannucci deixou uma marca profunda na ciência brasileira e internacional. Seu nome permanece associado à expansão da oceanografia, à defesa dos manguezais e à formação de uma comunidade científica sólida no país. Mais do que isso, sua história inspira novas gerações a navegar seus próprios caminhos em busca de conhecimento.


