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“A crise climática interage e agrava outras importantes contradições da nossa sociedade.”

Confira entrevista com Gabriela Di Giulio, professora do Departamento de Saúde Ambiental da USP

 

Poucas pesquisadoras brasileiras transitam com tanta naturalidade entre saúde pública, comunicação, governança do risco e mudanças climáticas quanto Gabriela Di Giulio. Professora do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP, ela construiu uma trajetória marcada pelo diálogo entre áreas que raramente conversam — e é justamente desse encontro que nasce sua força analítica. Jornalista de formação, doutora em Ambiente e Sociedade pela Unicamp e com passagens por centros de pesquisa na Inglaterra e na Alemanha, Gabriela di Giulio atua na linha de frente dos estudos sobre crises, vulnerabilidades urbanas e adaptação climática. “Os problemas socioambientais requerem compreensão sobre processos decisórios, arcabouços regulatórios e hiatos entre formulação e implementação de políticas públicas”, defende. À frente de grupos como o CIRIS – Governança, Risco e Comunicação e integrante da coordenação do Programa Biota-Fapesp, ela tem se dedicado a entender como ciência, política e sociedade se relacionam em um cenário de riscos crescentes e decisões urgentes. Membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da coordenação do URBAN Prediction Project da Organização Meteorológica Mundial, sua pesquisa ilumina um ponto crucial do debate contemporâneo: a emergência climática só pode ser compreendida — e enfrentada — a partir de suas dimensões humanas, sociais e profundas desigualdades. “O enquadramento de emergência pode ser potente e mobilizador se houver espaço para acomodar um discurso que reforça a insustentabilidade do status quo”, argumenta a pesquisadora.

Confira a entrevista completa!

 

Ciência & CulturaSua trajetória transita por jornalismo, política científica, saúde pública e estudos ambientais. Como essa formação híbrida moldou o seu olhar sobre as mudanças climáticas não apenas como um fenômeno físico, mas como um problema profundamente social, urbano e político?

Gabriela Di Giulio – É interessante iniciar essa entrevista reconhecendo esse “hibridismo”. Quando alguém me pergunta sobre a minha formação acadêmica e profissional, eu quase sempre devolvo com “você prefere a versão curta ou longa dessa resposta?”. A curta é direta: sou formada em comunicação social/jornalismo, com doutorado em Ambiente e Sociedade. Mas reconheço que essa tentativa de “objetividade” nem de longe situa a minha trajetória formativa e como ela tem sido fundamental na condução das minhas pesquisas e na minha atuação como professora, pesquisadora e orientadora. Então, se quem pergunta tem mais tempo e disposição para a escuta da versão mais longa da resposta, eu imagino que verá também mais brilho nos meus olhos. Porque é justamente quando revisito essa trilha que reelaboro as potencialidades e os desafios desse percurso.

Foi no meu estágio de pós-doc, entre 2011 e 2013, no Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM), na Unicamp, que direcionei meus estudos para o debate sobre dimensões humanas e mudanças climáticas – temática principal das pesquisas que venho desenvolvendo ao longo desses 15 anos. A pesquisa de pós-doutorado, sob supervisão da Lúcia da Costa Ferreira, com financiamento da Fapesp, foi vinculada a um projeto temático coordenado por ela e envolveu um amplo estudo sobre situações de risco no litoral norte paulista associadas às mudanças climáticas e ambientais. Na pesquisa, buscamos situar comportamentos individuais e institucionais frente às mudanças climáticas e ambientais, aos possíveis conflitos que poderiam ser gerados com os novos empreendimentos instalados na região e às informações disponíveis sobre os riscos.

O estudo empírico envolveu realização de grupos focais, laboratórios participativos, registro de entrevistas semiestruturadas e observação, e revelou um conjunto de elementos que moldavam as diferentes formas pelas quais os atores sociais (moradores de áreas consideradas de risco e atores institucionais) elaboravam conexões e compreensões do fenômeno, seus riscos e incertezas, e formavam suas percepções, incluindo informação e conhecimento; experiências pessoais relacionadas a eventos climáticos; relações entre lugar, identidade e pertencimento; condições financeiras e afetivas. Naquele momento, nossa análise mostrou que, enquanto os riscos associados às mudanças climáticas apareciam como uma prioridade ainda relativamente baixa, os potenciais conflitos e problemas gerados com os novos empreendimentos que estavam em curso no litoral norte, e que poderiam trazer impactos negativos e urgentes no dia a dia da região, eram encarados com preocupação maior pelos atores. As interações com os atores sociais do litoral norte paulista já nos mostravam, na prática, como a crise climática interage e agrava outras importantes contradições da nossa sociedade.

Embora meu foco de estudo sobre mudanças climáticas tenha iniciado no pós-doc, é fundamental situar que a instigação para a pesquisa, sobretudo nesta perspectiva, como você coloca, de compreender as relações entre crises ambientais e contextos socioculturais e como essas relações são incorporadas e expressas em práticas sociais, conflitos e processos decisórios, surgiu já na especialização em Jornalismo Científico, no Labjor/Unicamp, quando tive uma bolsa de divulgação científica da Fapesp do projeto temático coordenado por Bernardino Figueiredo, que depois veio a ser meu orientador do doutorado. Foi com Bernardino, com seu olhar aguçado e sua generosidade para sempre nos motivar com boas perguntas de pesquisa, que me aproximei dos temas de comunicação e governança de risco.

Foi neste projeto que se abriu uma possibilidade instigante e desafiadora de pesquisa, conduzida depois no mestrado em Política Científica e Tecnológica e no doutorado em Ambiente e Sociedade, ambos na Unicamp, na perspectiva de entender mais a fundo o processo de construção de problemas socioambientais e dos próprios riscos. Foi a partir dessa experiência de pesquisa também que comecei a construir as bases daquilo que entendo ser uma característica da minha produção científica e trajetória acadêmica: a atuação inter e transdisciplinar sedimentada nas parcerias e colaborações para pensar questões e processos sociais nas interfaces entre ambiente, saúde e sustentabilidade.

 

“As desigualdades sociais continuam a definir como os impactos relacionados aos eventos climáticos são experienciados.”

 

Ainda que a questão climática siga como meu principal tema de investigação, em particular com enfoque em cidades e adaptação, outros temas desafiadores dessas interfaces seguem me instigando, sobretudo a partir das perguntas trazidas pelos estudantes que oriento, em seus diferentes níveis de formação, na Faculdade de Saúde Pública da USP, onde sou docente desde 2013. Ao revisitar essa trilha, vejo como essas experiências e as muitas pessoas com quem tenho tido a alegria de partilhar e aprender são fundamentais para seguir com a ideia de que, mais do que situarmos os “fenômenos” a partir de análises científicas acuradas, os problemas socioambientais requerem compreensão sobre processos decisórios, arcabouços regulatórios e hiatos entre formulação e implementação de políticas públicas, e disposição para prestar atenção em outras formas de enxergar e viver o mundo.

 

C&CGrande parte do seu trabalho se dedica às dimensões humanas das crises climáticas, aos riscos e às incertezas. Nas cidades — onde vivem hoje a maioria das pessoas — quem tende a ficar mais exposto aos impactos climáticos e por quê? O que essa desigualdade revela sobre a forma como planejamos e governamos os espaços urbanos?

GG – Nos nossos estudos sobre mudanças climáticas e cidades, temos insistido muito em três pontos. O primeiro é que as cidades e regiões brasileiras têm sido cada vez mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas e expostas a eventos simultâneos e cumulativos (por exemplo, inundações, secas, aumento de temperatura), que ameaçam o abastecimento de água, a infraestrutura e a agricultura, gerando impactos sociais, econômicos e de saúde em cascata. Um exemplo claro disso é o Rio Grande do Sul, que em 2023 sofreu uma seca causada pelo fenômeno La Niña – a pior em 17 anos – resultando em perdas econômicas substanciais e, em 2024, sofreu inundações extremas que deslocaram mais de 615 mil pessoas, principalmente moradores de baixa renda que viviam em moradias inadequadas e com acesso precário a serviços públicos. Esse e outros tantos exemplos mostram a gravidade dos impactos dos eventos climáticos nas cidades brasileiras e a necessidade de respostas coordenadas de políticas públicas e apoio financeiro e institucional urgente. Embora cada vez mais a questão climática esteja no bojo das discussões públicas e políticas, ainda temos muito a avançar em direção a abordagens consistentes e abrangentes para tornar nossas cidades adaptadas e resilientes.

O segundo ponto é que há uma interdependência crítica entre os impactos dos eventos climáticos extremos, questões políticas e dinâmicas locais de planejamento urbano, e essa interdependência está na base das chamadas “tragédias anunciadas” nas cidades. É fundamental situarmos como o processo de urbanização desordenada que caracteriza, em geral, a maioria das cidades brasileiras, e a segregação socioespacial interferem criticamente nos impactos climáticos. Além disso, a falta de definição de responsabilidades e prioridades em relação às ações a serem executadas, a desarticulação de políticas setoriais (como as relacionadas à preservação ambiental e habitação, por exemplo) e o predomínio de uma perspectiva política utilitarista, fortemente influenciada por interesses políticos bastante hostis às questões ambientais, são elementos importantes e que tornam as cidades ainda mais suscetíveis aos impactos negativos das mudanças climáticas. Há de se ressaltar ainda a atuação de grupos de pressão, que estão constantemente fazendo lobby por ações que beneficiem interesses particulares (no caso dos centros urbanos, sobretudo os setores imobiliário e de transporte e mobilidade), em detrimento dos interesses públicos; e a fiscalização insuficiente na governança dos regulamentos, normas e marcos vigentes.

O terceiro ponto, e que responde mais diretamente às suas perguntas, é que as consequências associadas aos eventos extremos, como deslizamentos de terra, enchentes e ondas de calor, têm efeitos drásticos sobretudo para os grupos mais desfavorecidos e vulnerabilizados, que já lutam contra a pobreza e a marginalização. É fundamental reconhecer que as desigualdades sociais continuam a definir como os impactos relacionados aos eventos climáticos são experienciados de diferentes formas, e como as capacidades de resposta e as condições que facilitam ou dificultam as estratégias de adaptação pelos indivíduos e nos territórios também são diversas. É por isso que a questão climática, como temos argumentado, não pode jamais ser dissociada de questões relacionadas às injustiças em suas múltiplas dimensões (ambientais, climáticas, alimentar, energética) e ao racismo ambiental e climático. As clivagens de classe, raça, etnia e gênero, tão presentes na estrutura social da nossa sociedade, e as diversas carências de infraestrutura e acessos desiguais a serviços básicos e assistência produzem distintas temporalidades em que os impactos dos eventos extremos e o sofrimento social são vivenciados.

 

C&CA comunicação aparece como um eixo central da sua pesquisa, especialmente na relação entre ciência, políticas públicas e sociedade. O que ainda estamos fazendo mal — ou deixando de fazer — na comunicação sobre riscos climáticos, sobretudo quando falamos com populações urbanas diversas e desiguais?

GG – Certamente a emergência climática traz desafios tanto à comunicação científica (quanto às formas, formatos, conteúdos, públicos), ao nosso papel enquanto divulgadoras e divulgadores da ciência, como também ao entendimento sobre o papel da mídia (e agora, sobretudo, das mídias sociais) em criar um fórum para potencializar o discurso público sobre o tema, a própria compreensão pública sobre os riscos, incertezas, consequências e medidas de enfrentamento que são apresentadas pela ciência e pela política. Neste sentido, menos do que situar as possíveis falhas na comunicação sobre riscos climáticos, eu gostaria de situar alguns elementos que me parecem importantes para nossa reflexão coletiva.

O primeiro é sobre o próprio enquadramento das mudanças climáticas enquanto uma emergência e como esse enquadramento tem contribuído (ou não) para a compreensão pública sobre as ações necessárias urgentes. Nos estudos críticos da saúde global, temos argumentado que esse enquadramento de emergência pode ser potente e mobilizador se, diferentemente do paradigma tecnocrático dominante que compreende emergência desde uma perspectiva securitizadora (na qual os fenômenos tendem a ser perpassados por narrativas excessivamente deterministas e por abordagens autoritárias de enfrentamento), houver espaço para acomodar um discurso de emergência enquanto estratégia que reforça a insustentabilidade do status quo. Um enquadramento que possibilite desvelar os contextos e implicações sociais e políticas mais amplas, que desperte a mobilização necessária dos Estados e das sociedades para enfrentar concretamente as negligências e os determinantes socioeconômicos que estão nas bases constituintes dos problemas.

O segundo elemento, que está conectado a esse primeiro, reside justamente no desafio sobre como promover a comunicação da ciência dentro de uma perspectiva reflexiva, interrogativa e problematizadora. Aqui, os estudos sociais de ciência e tecnologia lançam luz a alguns aspectos importantes que temos buscado avançar, inclusive no nosso grupo de pesquisa CIRIS, com quem divido a coordenação com Marko Monteiro (DPCT/Unicamp), e que conta com a colaboração da pesquisadora Simone Figueiredo (Labjor/Unicamp). Em especial, eu destacaria a reflexão sobre como a ciência, sobretudo quando se debruça sobre fenômenos que combinam falta de garantias, incerteza e insegurança, como as mudanças climáticas, também precisa reconhecer os limites da sua habilidade em imaginar possíveis eventos futuros e seus desdobramentos, e ser transparente sobre isso. Um outro aspecto que me parece relevante está associado à ideia de narrativas científicas, sobre como, no processo de construção social de um problema (como é o caso das mudanças climáticas), nós, pesquisadoras e pesquisadores, temos um papel central na forma como apresentamos nossos achados científicos por meio de narrativas que ajudam a tornar fenômenos complexos mais acessíveis, intuitivos e memoráveis. É preciso estarmos cientes de que as narrativas, que contêm elementos descritivos e prescritivos sobre determinado problema, têm importantes implicações políticas. Especialmente porque a aceitabilidade de determinadas narrativas científicas pelos atores políticos depende da extensão com que elas concordam com suas crenças e suas motivações políticas.

Um terceiro elemento que gostaria de destacar está relacionado à ideia de usabilidade da informação científica que é gerada e comunicada. O uso da informação científica — neste caso, da informação climática — para subsidiar políticas públicas e impulsionar ações relacionadas às mudanças climáticas depende fortemente de arranjos institucionais e dos contextos nos quais as decisões são tomadas. Os estudos sobre as interfaces entre ciência e política chamam atenção para o fato de que a usabilidade da informação científica nas decisões (individuais, coletivas e institucionais) depende da percepção que os atores sociais têm quanto à informação disponibilizada; de como os novos conhecimentos produzidos se articulam com aqueles já existentes e disseminados; e, principalmente, do nível e da qualidade da interação entre os chamados “atores científicos” e “não científicos”. E é aqui que me parece estar uma chave importante nesse processo de comunicação, sensibilização e interação com a sociedade. Quando pensamos na urgência de ações de enfrentamento à emergência climática, por toda sua complexidade e transversalidade, entendo que há a necessidade de uma interação (dialógica, mas sobretudo respeitosa, legítima, genuína) entre os atores da ciência, os que formulam políticas e a sociedade (na sua perspectiva mais pluralista possível) para tratar de questões globais e, em particular, de questões locais específicas, e para evitar a ampliação das desigualdades sociais e das condições de vulnerabilidade.

 

“Garantir espaço e legitimidade a outros saberes, conhecimentos, narrativas e enquadramentos é um compromisso científico, ético e político fundamental.”

 

Temos insistido bastante que essa interação pode ser facilitada por meio da coprodução de conhecimento, rompendo assim os clássicos modelos de déficit de conhecimento e de transferência e abrindo possibilidades de produção coletiva de conhecimento. Experiências de coprodução, como é o caso do nosso projeto Biota Síntese, coordenado por Jean Paul Metzger (IB/USP) e pelo especialista ambiental Rafael Chaves (SEMIL), têm mostrado um enorme potencial para fomentar estratégias e soluções criativas para os problemas postulados e maior usabilidade do conhecimento coproduzido em processos decisórios. Certamente há desafios, desde questões relacionadas aos diferentes tempos (o tempo da pesquisa, da política, da mobilização social, da ação) aos recursos necessários (inclusive financeiros), mas envolve também como nós, pesquisadoras e pesquisadores, precisamos repensar nossas tradições acadêmicas, especialmente considerando que as soluções reais para o enfrentamento das mudanças climáticas dependem de como a sociedade pluralista é representada no próprio contexto de pesquisa. Garantir espaço e legitimidade a outros saberes, conhecimentos, narrativas e enquadramentos sobre o problema que investigamos é um compromisso científico, ético e político fundamental no enfrentamento da emergência climática.

 

C&CVocê integra iniciativas internacionais ligadas à Organização Meteorológica Mundial (WMO) e à previsão urbana. Como o diálogo entre ciência global e realidades locais pode contribuir para cidades mais preparadas diante de eventos extremos? E quais são os principais desafios para que esse conhecimento chegue de forma efetiva às políticas públicas no Brasil?

GG – O convite para integrar essa iniciativa da WMO veio em um momento muito oportuno. Somos um time interdisciplinar de pesquisadoras e pesquisadores de seis continentes, com bagagens e vivências diversas, e juntos temos o desafio de avançar tanto no debate como na prática sobre o desenvolvimento de sistemas de previsão de riscos urbanos e alertas para alcançar cidades e comunidades mais preparadas, adaptadas e resilientes frente aos eventos extremos climáticos. Eu colaboro sobretudo em duas frentes: uma mais focada na acessibilidade e relevância da informação, ou seja, que dados são necessários na escala local para a tomada de decisão e como o contexto local (dados, experiências, práticas) é fundamental para o fortalecimento de capacidades com foco na adaptação e resiliência; e outra mais focada na interface entre ciência e políticas públicas, por meio de processos participativos que envolvem o diálogo entre cientistas, governos e comunidades para promover equidade na adaptação e buscar políticas culturalmente sensíveis, inclusivas e baseadas na aprendizagem mútua.

A base dessa iniciativa é justamente conectar a ciência global às necessidades da sociedade e de fortalecer a colaboração mundial na previsão do clima e nas ações necessárias e protetivas diante dos múltiplos riscos relacionados ao clima. Estamos, neste momento, selecionando as primeiras cidades nas quais poderemos avançar nessas frentes, a partir da metodologia participativa baseada na coprodução de conhecimento. Certamente as experiências dessas cidades, que trazem diversidades múltiplas nas suas potencialidades e desafios, nas diferentes formas como estão lidando com os impactos dos eventos climáticos e nos aprendizados, vão contribuir para os estudos atuais sobre cidades e adaptação às mudanças climáticas. Nossa aposta é que poderemos avançar também sobre os desafios imbricados na chamada “política baseada em evidências”, entendendo inclusive suas limitações, sobre a circulação e os usos da informação científica e sobre as múltiplas dinâmicas que caracterizam as interações entre ciência e política.

Sobre as interlocuções estabelecidas entre ciência e política na questão climática e os principais desafios para que o conhecimento chegue de forma efetiva às políticas públicas no Brasil, nossas experiências empíricas têm mostrado que os modos de interação entre os chamados produtores, usuários e mediadores da informação científica são fundamentais nesse processo. A ideia de uma interface ciência-política não pode ser conceituada de forma simplista como atividades sobrepostas de entidades que, de outra forma, agiriam de forma independente. É preciso reconhecer que as interações entre ciência e política não são lineares nem unidirecionais; ao contrário, são relações emaranhadas que coproduzem conjuntamente seus arranjos.

Nossos estudos têm mostrado que experiências que unem iterativamente formas de conhecer e agir, envolvendo uma maior diversidade de participantes (cientistas, atores institucionais governamentais, atores da sociedade civil), apostando no processo de coprodução de conhecimento, alcançam múltiplos benefícios, inclusive o fomento a estratégias e soluções criativas para os problemas colocados. Posso dar dois exemplos bem recentes sobre isso.

O primeiro é um estudo coproduzido pela equipe do Biota Síntese e liderado pela pesquisadora Luciana Ferreira, que faz seu estágio de pós-doc sob minha supervisão. A partir das interações dentro do grupo, veio a ideia de mapear o potencial para restauração florestal nas chamadas bordas urbanas (ou periurbano) da macrometrópole paulista. O estudo não só conseguiu quantificar esse potencial, como tem suscitado discussões sobre como essa estratégia de restauração do periurbano pode ser importante para o estado de São Paulo para a recuperação da biodiversidade, proteção ambiental e, em particular, para a mitigação de eventos extremos, melhoria da qualidade da água e do ar, oferta de espaços de lazer, contribuindo para a saúde e o bem-estar humano. Seguimos atentos acompanhando os possíveis desdobramentos dessa análise em termos de políticas públicas no estado.

O segundo exemplo são os esforços que temos feito para avançar em estratégias de adaptação para São Paulo. No projeto CiAdapta, desenvolvemos um índice de adaptação urbana e aplicamos primeiramente nos 645 municípios paulistas. Ao mapear a existência (ou inexistência) de políticas públicas e instrumentos que são da alçada dos municípios, e que têm relações importantes com o maior ou menor potencial que as cidades têm em avançar na trajetória de adaptação climática, pudemos alcançar um retrato sobre a capacidade adaptativa institucional dessas cidades. Além disso, no projeto Biota Síntese seguimos contribuindo com a elaboração e o aprimoramento da principal política pública de adaptação do estado paulista, o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (Pearc). Mais recentemente, também coproduzimos uma nota técnica sobre ondas de calor, resultado de uma oficina que contou com a participação de pesquisadores e técnicos da SEMIL e das prefeituras de São Paulo e Campinas. O documento, disponibilizado publicamente e lançado no final de 2025, discute os principais desafios para implantação de Soluções baseadas na Natureza (SbN) para minimizar os efeitos do aumento de temperatura e das ondas de calor, como encontrar espaços em cidades consolidadas, garantir participação social para decidir onde e quais SbN podem ser adotadas, e como monitorar e avaliar seus efeitos.

 

C&CAo longo da sua carreira, você ocupou espaços de liderança científica em ambientes ainda marcados por desigualdades de gênero. Como avalia hoje a presença das mulheres na ciência climática e ambiental no Brasil? Que avanços são visíveis e que barreiras — explícitas ou sutis — ainda persistem?

Ainda que meu campo de estudos sobre mudanças climáticas não enfoque especificamente a participação de mulheres e a incorporação dos debates de gênero na governança climática e na ciência climática — tema, por exemplo, dos estudos da pesquisadora Ligia Galbiati —, me somo às muitas análises que mostram que, embora a participação de cientistas mulheres venha aumentando de forma substancial, com pesquisadoras liderando iniciativas fantásticas e transformadoras que aliam conhecimento e criatividade, lançando luz a temas e desafios críticos no enfrentamento das mudanças climáticas, nós ainda enfrentamos barreiras históricas e sociais importantes, que limitam nossa participação plena na ciência, como desigualdades claras em posições de liderança, financiamentos de ponta e reconhecimento científico.

 

“Somos todos produtores de conhecimento e fazer ciência envolve curiosidade, brilho no olhar, persistência, solidariedade e muita disposição para dialogar.”

 

Cito aqui um estudo publicado recentemente, liderado por pesquisadoras do IB da USP, que discute como a falta de representação e a discriminação contra as mulheres na academia seguem sendo uma realidade perversa, apesar dos esforços crescentes para promover inclusão e reduzir as desigualdades de gênero. Especificamente neste estudo, as autoras analisaram dados de uma série de seminários sobre biodiversidade, a partir da presença do público, e demonstraram que mulheres, especialmente em níveis acadêmicos mais seniores, atraíram consistentemente públicos menores do que seus colegas homens neste fórum de discussão, mostrando como formas sutis de exclusão ainda persistem na cultura acadêmica. Enquanto comunidade científica, ainda temos muito a fazer para alcançar, de fato, uma comunidade mais equitativa e inclusiva.

 

C&CPensando nas novas gerações de pesquisadoras, especialmente aquelas interessadas em temas como clima, saúde, cidades e justiça social: que tipo de ciência você considera mais urgente hoje? E que conselho daria para mulheres que desejam atuar nesse campo interdisciplinar e politicamente sensível?

GG – Uma ciência com e para a sociedade, que integre considerações éticas, sociais e ambientais em todo o processo (das perguntas de partida à divulgação e implicações dos seus achados). Uma ciência mais diversa, plural, inclusiva, equitativa, comprometida com a persistência em alcançar resultados benéficos, inclusivos e alinhados aos valores societais. Uma ciência menos produtivista e mais reflexiva, que nos incentive a refletir sobre nossos papéis, pressupostos e responsabilidades dentro da sociedade. Uma ciência que reconheça, dê espaço e legitimidade a outros saberes, conhecimentos, narrativas e enquadramentos sobre o problema que investigamos para que junt@s possamos acelerar as transformações necessárias para um futuro mais adaptado e sustentável.

Não sei se seria um conselho, mas algo que aprendi — e continuo reelaborando com colegas e estudantes que oriento — é que somos todos produtores de conhecimento e que fazer ciência envolve curiosidade, brilho no olhar, persistência, solidariedade e muita disposição para dialogar, refletir, repensar, compartilhar e aprender junto. Nossas vivências, aspirações, frustrações, expectativas e sonhos são fundamentais no processo de elaboração, realização, análise e reflexão envolto à pesquisa realizada. Sou neta de uma avó que não sabia ler e escrever, não dominava o alfabeto e a linguagem escrita, e que viveu até os 94 anos compartilhando sua sabedoria e seu olhar sobre a realidade de quem viveu na roça, aprendeu a ler a natureza e soube se virar na vida da cidade, sempre atenta ao que se passava com suas sete filhas e seus tantos netos e bisnetos. Quanto mais eu faço ciência e aprendo, sinto que mais me reconecto à minha avó e mais valor eu dou às partilhas e ao processo.

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
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