No sexto debate da série “Vozes da Ciência”, organizada pela SBPC, pesquisadores apontam caminhos de um Brasil soberano na saúde pública
Utilizar as bases de dados que o Sistema Único de Saúde (SUS) produz para aprofundar os diagnósticos das necessidades da população brasileira e, consequentemente, propor políticas públicas mais eficazes. Este foi o principal diagnóstico do sexto debate do ciclo “Vozes da Ciência – O Brasil que queremos”, realizado na última semana pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Com o tema “Saúde Pública, Saúde Global e Vigilância 360º”, o evento contou com a participação de Esper Kallas, diretor do Instituto Butantan; Rosana Onocko Campos, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva); Viviane Boaventura, médica, cientista e pesquisadora da Fiocruz Bahia e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Adele Benzaken, pesquisadora da AIDS Healthcare Foundation; e Arthur Chioro, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) e ex-ministro da Saúde (2014–2015). A mediação foi de Samuel Goldenberg, pesquisador da Fiocruz e diretor da SBPC.
“Os debates do ciclo ‘Vozes da Ciência’ subsidiarão um documento que a SBPC entregará aos candidatos no próximo pleito presidencial para que possamos construir o Brasil que queremos, com respeito à cidadania, fortalecimento da democracia e em defesa da nossa soberania. Esses três atributos representam o que consideramos o maior patrimônio do Brasil”, explicou Goldenberg.
Iniciando as falas, a pesquisadora Viviane Boaventura, da Fiocruz BA, abordou sobre vigilância baseada em grandes balas de dados, e a importância da integração, antecipação e evidências para a ação em saúde.
“O Brasil é um país assimétrico, com muitas desigualdades intrarregionais, e olhar para essa visão global, utilizando grandes bases de dados, permite, por exemplo, diminuir essas assimetrias. A gente sabe que os locais onde têm menores recursos são aqueles onde a vigilância tradicional é mais difícil de ser executada na prática. Portanto, olhar para as bases de dados da saúde pública ajuda a dar um diagnóstico situacional mais rápido e, por fim, uma ação.”
Boaventura destacou a dimensão do SUS como produtor de informações da situação da saúde brasileira, e apontou a necessidade de mais formação e profissionais que se debruçam sob a base de dados. “A gente precisa desenvolver estrategicamente soluções que são nossas para os nossos problemas e utilizando tecnologia e expertise local, para que eles tenham o melhor desempenho possível”, ponderou.
A especialista ressaltou que existe globalmente um grande apelo tecnológico, e que isso deve ser usado no Brasil. “Precisamos caminhar para uma maior governança ético-regulatória, garantindo que haja uma proteção desses dados, mas também mantendo uma agilidade operacional que é necessária para que esses projetos entreguem resultados. Existe, ainda, a questão de que a gente pode integrar esses dados com dados de vigilância e com inteligência artificial.”
Seguindo as falas, o presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), Arthur Chioro, abordou sobre a questão dos hospitais e, principalmente, o papel dos hospitais universitários federais.
Assim como Boaventura, Chioro iniciou ressaltando a importância do SUS. “Precisamos reafirmar o SUS como um projeto fundamental para a produção da cidadania e, acima de tudo, para a produção da soberania nacional. Também é preciso reafirmar a Saúde não como uma mercadoria, mas como um direito universal que precisa ser garantido pelo Estado.”
Chioro ressaltou a importância da política de dados da Saúde acompanhar a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), mas que ela traga também subsídios para quem trabalha na carreira médica. “Precisamos de políticas com foco na valorização dos profissionais e que promovam uma educação permanente, o que é decisivo para garantir a resiliência do SUS e, ao mesmo tempo, produzir ensino e pesquisa.”
Já Rosana Onocko Campos, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, abordou sobre o fortalecimento para as políticas de saúde coletiva, principalmente atreladas às políticas de saúde mental. “Há sempre uma tensão entre o campo da saúde pública, da saúde coletiva e o campo da saúde mental”, afirmou.
Campos ressaltou a importância do fortalecimento das políticas de saúde mental. “Nunca foi possível a gente pensar o ser humano fora da sociedade e da cultura, assim como também não há nenhuma saúde que não seja sempre também mental. Não existe essa separação. A saúde coletiva sempre se preocupou e sempre abordou essa questão da articulação entre a saúde mental, a saúde geral e variáveis sociais e demográficas.”
Para a pesquisadora Adele Benzaken, da AIDS Healthcare Foundation, outro recorte importante é o olhar para a região amazônica, que necessita de especificidades no campo da política pública. “A Vigilância 360º propõe um olhar integrando dados, serviços e saberes para antecipar riscos e proteger a saúde. Como fazer isso num território de difícil acesso e que corresponde a 60% do País?”, questionou.
Benzaken ressaltou o desafio de se fazer políticas nacionais que sejam flexíveis a demandas locais. “Temos uma população diversa. Só na Amazônia existem ribeirinhos, indígenas, quilombolas, extrativistas, garimpeiros, além de populações das grandes periferias urbanas, de Manaus e de Belém. Esta diversidade exige que a vigilância saia desse formato padronizado que existe atualmente.”
Encerrando as falas, o diretor do Instituto Butantan, Esper Kallas, destacou os avanços da instituição na produção e distribuição de vacinas nos últimos anos, com destaque a parcerias com o Governo Federal que, segundo ele, devem ser expandidas.
“Nós precisamos celebrar a capacidade que nós temos aqui no País de desenvolver produtos desde a sua ideia essencial até chegar à saúde pública, soluções pensadas para fazer com que a gente resolva os nossos problemas. A gente tem a audácia de querer continuar desenvolvendo produtos para necessidades brasileiras, como soluções para as doenças tropicais e subtropicais. Estamos fazendo muito isso no Butantan, para pavimentar as rotas de desenvolvimento internas e fazer com que o brasileiro encontre novos caminhos através do SUS.”
O sexto encontro do ciclo “Vozes da Ciência – O Brasil que queremos”, com o tema “Saúde Pública, Saúde Global e Vigilância 360º”, está disponível no canal da SBPC no YouTube.
Rafael Revadam – Jornal da Ciência


