CB - Jandyra Planet do Amaral - capa site

A mulher que moldou vacinas no Brasil

Pioneira na ciência nacional, Jandyra Planet do Amaral percorreu todas as funções no Instituto Butantan, especializou-se em tecnologia de vacinas e deixou um legado decisivo para a saúde pública brasileira.

 

Jandyra Planet do Amaral nasceu em 1905, em São Paulo, em um Brasil onde mulheres eram raridade nas universidades e praticamente invisíveis na pesquisa científica. Ao longo de 45 anos de dedicação à ciência, ela se tornaria a primeira mulher a ocupar a diretoria-geral do Instituto Butantan, um dos centros mais importantes de pesquisa biomédica do país. Sua trajetória, marcada por pioneirismo e rigor científico, moldou a história da produção de vacinas no Brasil.

Formada em medicina em 1931 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Jandyra do Amaral ingressou no Butantan no mesmo ano como estagiária da subseção de Soroterapia Antibacteriana. Era o primeiro passo de uma carreira que escalaria, uma a uma, todas as funções possíveis dentro da instituição — de subassistente a pesquisadora, de chefe de seção a diretora de divisão — até alcançar a diretoria-geral, em 1968. Tornou-se, assim, a primeira mulher pesquisadora e administradora máxima do instituto. (Figura 1)


(Foto: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória. Reprodução)

 

Em uma época em que doenças infecciosas eram responsáveis por parte significativa da mortalidade no país, Jandyra Amaral  voltou seus esforços para problemas urgentes de saúde pública. Liderou estudos sobre tuberculose, difteria, poliomielite, tétano, raiva, coqueluche e varíola, trabalhando para ampliar a capacidade nacional de diagnóstico, prevenção e formulação de imunizantes. Seu interesse precoce pela microbiologia, sinalizado ainda na tese sobre a bactéria causadora da gonorreia, guiaria toda sua produção científica.

 

Pesquisadora incansável

A partir de 1945, à frente da Divisão de Bacteriologia, ela se dedicou com intensidade ao estudo e à produção da vacina BCG, utilizada na prevenção da tuberculose. Embora o Brasil já aplicasse o imunizante desde 1929, a baixa cobertura vacinal fazia com que a doença seguisse como uma das principais causas de morte. Só na cidade de São Paulo, estima-se que cerca de 10% dos óbitos no final da década de 1940 eram atribuídos à tuberculose.

 

“Sua trajetória, marcada por pioneirismo e rigor científico, moldou a história da produção de vacinas no Brasil.”

 

Sua atuação ganharia novo alcance em 1958, quando foi convidada para um estágio técnico de seis meses no Instituto Pasteur. Lá, acompanhou de perto todas as etapas da produção industrial da BCG, desenvolvida décadas antes por Léon Calmette e Alphonse Guérin. A experiência consolidou sua especialização na tecnologia de vacinas e permitiu que ela liderasse, no Brasil, a produção em larga escala do imunizante.

De volta ao Butantan, Jandyra Amaral coordenou o esforço que possibilitou a fabricação contínua da BCG entre 1949 e 1954, contribuindo para que milhões de doses fossem distribuídas em todo o país. Nos anos 1970, já como diretora-geral, supervisionou a implementação da BCG liofilizada — versão em pó que facilitava transporte e armazenamento — seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). O imunizante seria incorporado ao Programa Nacional de Imunizações em 1977 e é utilizado até hoje. (Figura 2)


(Foto: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória. Reprodução)

 

Sua gestão à frente do instituto foi marcada tanto pela modernização administrativa quanto pelo alinhamento entre pesquisa científica e políticas públicas. Jandyra do Amaral introduziu planos anuais de trabalho, reorganizou setores técnicos e estreitou a articulação com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, o que fortaleceu a atuação do Butantan em campanhas estratégicas. Essa parceria seria decisiva para o sucesso das ações de erradicação da varíola no país.

Além da BCG, sua carreira inclui contribuições importantes para vacinas contra difteria e outras doenças bacterianas. Ao longo das décadas, publicou 35 artigos científicos, coordenou grupos de pesquisa e ajudou a estruturar as bases para a formação de pós-graduação dentro do instituto. Sua produção científica e administrativa ajudou a moldar a cultura de vacinação que se tornaria marca da saúde pública brasileira.

 

Pioneirismo e legado

Em 1968, ao assumir a direção-geral, Jandyra quebrava mais uma barreira: era a primeira mulher a chefiar uma instituição científica estadual de grande porte em São Paulo. Em um ambiente majoritariamente masculino, sua liderança combinava rigor técnico, visão institucional e capacidade de negociação política — atributos essenciais para consolidar a posição do Butantan como referência em biotecnologia e produção de vacinas.

A aposentadoria compulsória veio em 1975, aos 70 anos. Jandyra Amaral deixava um instituto mais estruturado, laboratórios renovados e um legado científico fundamentado na continuidade e na responsabilidade pública. Seu trabalho seria reconhecido, décadas depois, como peça fundamental para que instituições brasileiras estivessem preparadas para desafios sanitários contemporâneos, como a pandemia de COVID-19.

 

“Em 1968, ao assumir a direção-geral, Jandyra quebrava mais uma barreira: era a primeira mulher a chefiar uma instituição científica estadual de grande porte em São Paulo.”

 

Jandyra Planet do Amaral viveu até 2011, alcançando 105 anos, e tornou-se símbolo de perseverança científica. Em uma época de obstáculos para mulheres na ciência, ela não só ocupou espaços inéditos, como redefiniu o papel do conhecimento biomédico em políticas de saúde.

Mais de um século após a criação da BCG, sua contribuição permanece evidente. Em um momento de queda na cobertura vacinal e retorno de doenças que poderiam ser prevenidas, o legado de Jandyra lembra que a ciência exige continuidade, investimento e compromisso social. Seu percurso no Butantan mostra que o pioneirismo feminino não apenas abriu portas, mas salvou vidas — e continua a salvar.

 

Capa. (Foto: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória. Reprodução)

 

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