Florestas movem economias, protegem sociedades e ganham reforço da ciência no desafio global de preservação — mas o desmatamento ainda ameaça o futuro do planeta.
O Dia Internacional das Florestas de 2026, comemorado no dia 21 de março, leva ao centro do debate global um tema cada vez mais urgente: florestas e economias. A escolha não é casual. Em um mundo que busca alternativas aos combustíveis fósseis e tenta conter os efeitos extremos da crise climática, as florestas emergem como infraestrutura natural estratégica. As florestas são indispensáveis para economias saudáveis – hoje e para as futuras gerações.
A relevância econômica das florestas vai muito além da madeira utilizada pela indústria. Do fornecimento de água potável à regulação do clima, dos serviços turísticos à oferta de alimentos e medicamentos, estima-se que mais de US$ 44 trilhões da economia global dependam diretamente da natureza, segundo relatórios internacionais. Esse valor colossal evidencia o papel das florestas como motores invisíveis da produtividade agrícola, da estabilidade climática e da proteção contra desastres que custam bilhões de dólares anualmente.
Economia
Nos países em desenvolvimento, especialmente, esse papel é ainda mais evidente. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que cerca de 5,8 bilhões de pessoas utilizam produtos florestais não madeireiros, que incluem alimentos, resinas, plantas ornamentais e medicinais. Globalmente, esse mercado movimenta ao menos US$ 9,41 bilhões por ano e segue em expansão. Ao mesmo tempo, florestas plantadas se consolidam como força econômica crescente: no Brasil, representam mais de 80% do valor da produção florestal e somaram R$ 27,4 milhões em 2022, impulsionadas pela alta demanda por biomassa e madeira de eucalipto. (Figura 1)

Figura 1. Foto: Embrapa. Reprodução.
O impacto do setor florestal na economia brasileira é expressivo. Com 9,5 milhões de hectares plantados e produção superior a R$ 33 bilhões, a cadeia florestal aparece entre as 25 atividades que mais contribuem para o PIB nacional, segundo dados do Embrapa. Além de abastecer indústrias internas e movimentar exportações, o setor gera 150 mil empregos diretos e contribui para reduzir pressões sobre florestas nativas, graças ao manejo responsável e ao reflorestamento de áreas degradadas.
Sociedade
Mas as florestas também têm um papel insubstituível para a sociedade. Elas garantem a segurança hídrica, estabilizam o solo, evitam erosão e enchentes, além de fornecerem sombra, alimentos, energia e qualidade do ar. Em um mundo em que a crise climática amplia secas, ondas de calor e tempestades, a proteção dos ecossistemas florestais se torna sinônimo de proteção da própria vida humana. É nas florestas que se encontra mais da metade da biodiversidade do planeta, além da subsistência direta de 1,6 bilhão de pessoas.
“As florestas são indispensáveis para economias saudáveis – hoje e para as futuras gerações.”
Não por acaso, especialistas reforçam que a perda de florestas é cara, levando à erosão do solo, inundações, impactos climáticos dispendiosos e perda de produtividade que muitas vezes superam em muito os ganhos económicos a curto prazo. A conta do desmatamento chega rápido e atinge a agricultura, as cidades e os sistemas de saúde. A cada ano, aproximadamente 12 milhões de hectares são destruídos — número incompatível com qualquer cenário de sustentabilidade. A perda de cobertura vegetal responde por cerca de 25% das emissões globais de gases de efeito estufa. (Figura 2)

Figura 2. Foto: Julia de Freitas/ Agência Brasil. Reprodução.
No Brasil, o desafio da restauração florestal é monumental. O país tem mais de 21 milhões de hectares degradados que precisam ser recuperados para cumprir o Código Florestal. Do total, 12 milhões de hectares são compromisso assumido internacionalmente até 2030. Estimativas mostram que essa restauração demandaria entre R$ 42 e R$ 70 bilhões, mas o retorno econômico poderia chegar a R$ 31 bilhões, além de gerar até 2,5 milhões de empregos, segundo a organização The Nature Conservancy — uma oportunidade estratégica para enfrentar parte do déficit ocupacional do país.
Ciência
A ciência desempenha papel central nessa agenda. Novas tecnologias florestais permitem aprimorar o manejo de áreas nativas, ampliar a capacidade de captura de carbono e desenvolver produtos sustentáveis, como fibras vegetais, biocombustíveis e materiais biodegradáveis. O avanço da bioeconomia, que tem as florestas como pilar, aponta para substitutos renováveis ao aço, ao concreto e ao plástico — setores historicamente intensivos em carbono.
Pesquisas também revelam que será impossível limitar o aumento da temperatura global a 1,5 ºC sem a ajuda fundamental das florestas.” A restauração ecológica, combinada ao fim do desmatamento e ao manejo sustentável, poderia fornecer até 50% da mitigação climática necessária na próxima década. No entanto, especialistas alertam que ainda faltam financiamentos de escala e mecanismos robustos de redução de risco para atrair investimentos privados a projetos de restauração e sociobioeconomia.
“Será impossível limitar o aumento da temperatura global a 1,5 ºC sem a ajuda fundamental das florestas.”
Organismos internacionais defendem três blocos essenciais para proteger as florestas: conhecimento, condições políticas favoráveis e financiamento estável. Investir US$ 30 bilhões em prevenção ao desmatamento, por exemplo, pode gerar retorno de até US$ 2,5 trilhões em produtos e serviços preservados — uma receita clara de que conservar é mais eficiente do que reconstruir ecossistemas destruídos.
Sem uma mudança estrutural nas cadeias produtivas, porém, os avanços serão insuficientes. Hoje, cerca de 70% do desmatamento tropical está ligado à produção de commodities agrícolas como carne bovina, soja, óleo de palma e madeira. Dissociar produção e destruição ambiental é um dos maiores desafios globais — e também uma das maiores oportunidades para países megabiodiversos como o Brasil.
Ao celebrar o Dia Internacional das Florestas, o mundo é lembrado de que preservar árvores é também preservar economias, culturas e modos de vida. Conhecimento científico existe. Soluções econômicas estão na mesa. Falta, sobretudo, transformar florestas em prioridade política universal. Só assim será possível garantir que a prosperidade das próximas gerações brote das mesmas raízes que sustentam o planeta hoje.


