Resenha
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Transformando física em música

Com “Quanta”, Gilberto Gil usa a física quântica para dizer que Ciência se insemina na sociedade

 

Como fazer as pessoas olharem para aquilo que nem o olho nu vê? Para estudiosos da física quântica, este é um dos principais desafios: trazer à população os seus estudos e, consequentemente, difundir o entendimento daquilo que não está presente no dia a dia. Muitos se utilizam da divulgação científica como forma de aproximar o universo quântico da sociedade, principalmente com a expansão de elementos gráficos e tecnológicos. Mas há aproximadamente 30 anos, o cantor Gilberto Gil utilizou outra forma: fez da quântica poesia musical.

Lançado originalmente em abril de 1997, o álbum “Quanta” não se trata apenas de uma explicação da física quântica, mas sim uma homenagem à Ciência na forma de arte, como o próprio artista declama em suas faixas.


Figura 1. Divulgação

 

Este tributo já começa na primeira canção, que compartilha o mesmo título do álbum. Com Milton Nascimento, Gil inicia cantando: “Quanta do latim, plural de quantum / quando quase não há quantidade que se medir, quantidade que se expressar / fragmento infinitésimo, quase que apenas mental”. Trazendo uma calma melodia acompanhada de um violão e acordes sonoros pontuais, a música caminha o ouvinte a um universo mínimo, pequeno, mas pulsante.

Já na faixa seguinte, “Ciência e arte”, a homenagem perde os elementos de bossa nova e ganha os batuques dos sambas-enredo, como uma comemoração acalorada à produção acadêmica brasileira. “Tu és meu Brasil em toda parte / Quer na ciência ou na arte / portentoso e altaneiro”, diz a canção, que também comemora “grandes imortais”, como o romancista Pedro Américo e o físico César Lattes.

 

“Mas há aproximadamente 30 anos, o cantor Gilberto Gil utilizou outra forma: fez da quântica poesia musical.”

 

“Quanta”, de certa forma, atua como a própria Física, misturando elementos e gerando fórmulas novas. Traz astrologia e cita referências a religiões de matrizes africanas, como umbanda e candomblé, ao mesmo tempo em que possui uma faixa intitulada “Água benta”, com menções ao catolicismo. Ainda apresenta representações da integração entre conhecimentos tradicionais e acadêmicos, como a concepção da pílula de alho – que assina o título de uma música e é responsável por benefícios imunológicos.

O álbum também carrega alguns dos maiores sucessos da carreira de Gil e que, não ironicamente, permeiam universos de estudos. A primeira canção é a romântica “Estrela”, que emociona na primeira estrofe: “Há de surgir uma estrela no céu cada vez que ‘ocê sorrir”. Já a segunda música aproveita uma das principais inovações tecnológicas do século, a internet. No samba “Pela internet”, Gil pega as principais referências da navegação online dos anos 1990, como e-mail e fóruns: “Criar meu web site, fazer minha homepage. Com quantos gigabytes se faz uma jangada e um barco que veleje?”, pergunta.

Em uma entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo na época do lançamento de “Quanta”, Gil disse que o álbum foi criado para ser uma ponte entre o campo mágico e o campo da física – algo que conseguiu com maestria. “É uma leitura poética sobre a Ciência e sobre suas interfaces com a filosofia, religião e arte”, complementou.

Figura 2. Divulgação

 

Na conversa, o cantor também explicou que se tratou de um de seus álbuns mais difíceis. “Pelo tempo de produção de “Quanta” exemplifica isso: Gil entrou em estúdio em julho de 1995 e o lançamento do álbum só se deu cerca de dois anos depois.

Assim como a Ciência, em que tudo é feito com base em evidências, até a estrutura de “Quanta” possui referências. A divisão em dois discos foi pensada para ilustrar os conceitos opostos e complementares de Yin e Yang, extraídos da filosofia chinesa. Enquanto o primeiro disco é carregado de manifestos alegres e festivos, o segundo preza a calmaria. Mas ambos expandindo a mesma mensagem, o mesmo tributo ao fazer acadêmico.

É no começo do segundo disco, inclusive, que há outra menção à Ciência. Parceria escrita com o cantor Arnaldo Antunes, “A ciência em si”, reflete: “A ciência não se ensina, a ciência insemina”.

 

“‘Quanta’, de certa forma, atua como a própria física, misturando elementos e gerando fórmulas novas.”

 

Como um álbum de homenagens, a ciência divide palco com honrarias a grandes nomes da música brasileira. “De Ouro e Marfim” é dedicada a Tom Jobim; “Sala do Som” a Milton Nascimento; “Um Abraço no João” para João Gilberto; e “O Mar e o Lago” é um tributo a Mário Lago. Gil também afirmou que o álbum, de forma geral, é dedicado a Cássia Eller, Zeca Pagodinho e Chico Science.

Ouvir “Quanta” após cerca de 30 anos de seu lançamento é também entender contrapontos com a produção musical dos dias de hoje. Enquanto a indústria atual nos impacta com canções lançadas em formatos solos, como singles, cujas durações são reduzidas cada vez mais, Gil nos presenciou com um álbum extremamente estruturado, extenso e linear.

Apreciar “Quanta” na sua sequência de músicas é entender mensagens complementando, de um país de diferentes culturas, religiões e pensamentos. É entender que o conhecimento inspira e deve, sim, ocupar cada vez mais espaços – melódicos ou não.

 

Álbum: Quanta

Artista: Gilberto Gil

Lançamento: abril de 1997

Ouça o álbum no site oficial do artista

 

Capa: Divulgação

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Rafael Revadam

Rafael Revadam

Rafael Revadam é jornalista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), mestre em Divulgação Científica e Cultural e doutorando em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Rafael Revadam é jornalista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), mestre em Divulgação Científica e Cultural e doutorando em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
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