Introdução
Nas últimas décadas, as práticas de palhaçaria têm ampliado significativamente seu campo de atuação, ultrapassando os limites dos espaços tradicionais de entretenimento e inserindo-se em contextos como hospitais, ambientes educacionais e ações sociais.[1, 2] Nesse contexto, a linguagem da palhaçaria tem se mostrado um instrumento eficiente de mediação, sensibilização e integração social.
Diante do aumento do negacionismo, particularmente no contexto da pandemia de COVID-19,[3] França et al. (2021) [4] realizaram o primeiro experimento de articulação entre ciência e palhaçaria com o espetáculo “A Terra é plana, e agora?”, que visava desmistificar o terraplanismo (Figura 1). Essa iniciativa, que incluiu cinco apresentações, demonstrou ser uma estratégia de comunicação eficaz para superar barreiras técnicas e aproximar o conhecimento acadêmico do público. [4, 5]
Nesse panorama, a Palhaçaria Científica emerge como uma abordagem interdisciplinar que une o rigor conceitual a uma linguagem acessível, fomentando uma comunicação mais inclusiva, crítica e participativa. Com esse propósito, o projeto Palhaçaria Científica foi lançado em 2023 para integrar práticas artísticas à divulgação científica e à formação universitária. [6, 7] Desde então, o projeto consolidou-se como uma atividade significativa de extensão universitária e divulgação, marcando presença em eventos institucionais, festivais culturais e ações educativas, além de conquistar reconhecimento em veículos de comunicação acadêmicos e institucionais.

Figura 1. Cartaz de divulgação do Espetáculo “A terra é plana! E agora?”, apresentada na Casa dos Quatros em Brasília, nos dias 15 a 17 de novembro de 2019.
Oficina
Com o propósito inicial de recrutar novos membros para futuras atividades, em 2024 foi lançada a primeira Oficina de Palhaçaria Científica. Para sua realização, foi essencial convidar dois artistas externos ao ambiente acadêmico, Pedro Caroca (Seu Coco) e Julia Bertolini (Palhaça Catarina), para que, junto ao palhaço cientista Dr. Terremoto (Prof. George Sand França) [8], promovessem uma maior integração entre ciência e palhaçaria.
A oficina despertou grande interesse, resultando na seleção de 10 participantes, incluindo alunos de graduação e pós-graduação, servidores da USP, professores e atores. O objetivo central era capacitar os participantes a comunicar ciência de forma sensível, criativa e acessível, culminando em um Cabaré, com pequenas apresentações individuais. Desde então, três edições da oficina já foram realizadas, e as instigantes apresentações têm ocorrido no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. A Figura 2 ilustra momentos da oficina e do III Cabaré Científico.



Figura 2: Imagens da Oficina Palhaçaria Científica e III Cabaret Científico e da Oficina.
Em decorrência desse resultado, foi criado o Grupo πADA – Palhaçaria Científica, que congrega estudantes de graduação e pós-graduação, docentes, funcionários da Universidade de São Paulo e membros da comunidade externa. As oficinas desempenham um papel crucial na formação inicial dos palhaços científicos e na viabilização de apresentações em espaços acadêmicos inéditos para tais atividades. Os cabarés científicos, que marcam o encerramento das etapas de trabalho, contam com o engajamento total da instituição.
Os espetáculos
O projeto do grupo teatral πADA – Palhaçaria Científica teve início com o espetáculo “A viagem ao interior da Terra”, em novembro de 2023, criado para um evento do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, com a participação da doutoranda Janine Araújo do Carmo, gentilmente batizada de palhaça Magnetita. A peça, que serve como cartão de visita do grupo, narra a jornada de dois palhaços convidados a realizar uma viagem financiada ao interior da Terra, explicando de forma lúdica as camadas mais superficiais do planeta.
“A Palhaçaria Científica emerge como uma abordagem interdisciplinar que une o rigor conceitual a uma linguagem acessível, fomentando uma comunicação mais inclusiva, crítica e participativa.”
Em 2024, o projeto consolidou-se com diversas apresentações do espetáculo, incluindo uma performance no concerto Cosmogonia Sonoras da Orquestra Sinfônica da USP (OSUSP, IAG/USP), além de apresentações na 9ª Feira do Livro USP São Carlos, no 308º Encontro de Estudos da Palhaçaria (Centro de Memória do Circo), e no Observatório Abrahão de Morais, em Valinhos-SP. Inicialmente, o grupo contou com a colaboração do técnico Giovanni Moreira e do aluno de graduação Gustavo Gosling.
Com a consolidação do projeto, surgiram novos convites: uma performance para o Prêmio Mães Pesquisadoras, destacando a importância da figura paterna no cuidado do bebê [9], e a participação na série Concertos Didáticos da OSUSP. Para essa série, foi apresentado o espetáculo “A Terra Animada” durante uma semana, totalizando seis sessões.[10] A Figura 3 mostra imagens dos dois eventos. Esse trabalho contou com uma maior participação de palhaços cientistas, resultando em um marco para o grupo e na adaptação do segundo espetáculo para apresentações sem a presença da orquestra.


Figura 3. Registro dos consertos didáticos (acima) e da performance “Mães Pesquisadoras” (abaixo).
A divulgação científica por meio da palhaçaria científica tem o objetivo de despertar a curiosidade e instigar a busca pelo entendimento. Em A Viagem ao Interior da Terra, são abordados temas como rochas sedimentares, falhas geológicas, dinâmica da Terra e terremotos, sendo o espetáculo direcionado principalmente ao público do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio. Já A Terra Animada, que envolve temas como sistema solar, rotação, translação e meio ambiente, atende públicos de todas as idades.
As apresentações foram realizadas em diferentes contextos, incluindo escolas públicas, centros culturais, festivais e espaços institucionais, alcançando públicos diversificados. Destacam-se ações realizadas em regiões como no bairro distante da USP em Brasilândia e no entorno, em São Bernardo, bem como participações em eventos como o Parque Cientec da USP e festivais acadêmicos.
“A divulgação científica por meio da palhaçaria científica tem o objetivo de despertar a curiosidade e instigar a busca pelo entendimento.”
Dois momentos destacaram-se como particularmente marcantes durante o projeto. O primeiro ocorreu na Escola Municipal de Educação Infantil Zélia Gattai, onde a interação e a experiência com “A Terra Animada” foram tão significativas que as crianças expressaram o espetáculo por meio de desenhos. O segundo momento ocorreu na Escola Municipal de Educação Básica Luiz Gushiken e ilustra o despertar da curiosidade. Ao final da apresentação, era mencionado que, até o momento, não existe tecnologia capaz de permitir uma viagem ao interior da Terra. Logo após o espetáculo, uma criança de cinco anos declarou com convicção: “Eu vou fazer um carro para viagem ao interior da Terra”, respondendo ao ceticismo inicial (“vai nada”) com um enfático “vou sim”. Tais reações demonstram que o objetivo de despertar o interesse foi plenamente alcançado. A Figura 4 mostra imagens desses dois momentos.
A utilização de elementos teatrais e a interação direta com o público favorecem a construção de experiências significativas de aprendizagem, ampliando o interesse e a compreensão sobre temas científicos.


Figura 4. Palhaços científicos mostram os desenhos da Escola Municipal de Educação Infantil Zélia Gattai (acima) e apresentação da A Viagem ao Interior da Terra na Escola Municipal de Educação Básica Luiz Gushiken (abaixo).
Comentários finais
O projeto Palhaçaria Científica demonstrou um potencial significativo na integração entre arte e ciência como estratégia de comunicação e formação. A abordagem lúdica e instigante contribuiu para a democratização do conhecimento científico, tornando-o mais acessível e atrativo para diversos públicos. Até o momento, foram realizadas nove apresentações de “A viagem ao interior da Terra” e nove apresentações da “A Terra Animada”, além de uma performance, três oficinas e três cabarés científicos. Essa quantidade de eventos, aliada à busca pela qualidade e por uma troca mútua entre público e realizadores, confirma um caminho promissor para a divulgação científica.
Observa-se um impacto significativo na formação dos participantes, especialmente no desenvolvimento de habilidades comunicativas, bem como na construção de uma postura mais crítica e sensível em relação à prática científica.
“A abordagem lúdica e instigante contribuiu para a democratização do conhecimento científico, tornando-o mais acessível e atrativo para diversos públicos.”
Frente aos desafios atuais da divulgação científica, a palhaçaria científica emerge como uma iniciativa crucial para fortalecer a comunicação entre academia e público. Essa abordagem promove uma ciência mais acessível, inclusiva e socialmente engajada.
Agradecimentos
Rafael Santos de Barros, Pedro Caroca, Julia Bertolini, Gustavo Gosling, Luiz Martin Suarez Sotelo, Mônica Rodrigues Lopes, Ana Claudia Campos, Lucas Sampaio de Amori e Eduardo Tessarri Coutinho. Ao CNPq pela bolsa de produtividade de pesquisa PQ.