A personificação didática no ensino de ciências e química

Encontros entre o cosplay e a alfabetização científica no ensino de ciências

Resumo

Este relato de experiência analisa a “personificação didática”, metodologia de ensino que desenvolvi ao longo de minha trajetória docente, caracterizada pela utilização estratégica do cosplay e de elementos da cultura pop/geek como ferramentas pedagógicas no Ensino Fundamental, Médio e Superior. Fundamentada em minha dupla formação em Química e Teatro e em minha atuação de mais de duas décadas como cosplayer, a prática visa humanizar a figura do cientista e contextualizar conceitos abstratos de forma lúdica, visual e afetiva. Apresento aqui o desenho metodológico dessa abordagem e analiso exemplos práticos baseados nos animes Fullmetal Alchemist, Dr. Stone e Hataraku Saibou. Os resultados demonstram um incremento substancial no engajamento dos estudantes, na apropriação de conceitos científicos complexos e na quebra de barreiras de aprendizagem em diferentes níveis de ensino.

À guisa de apresentação

Ao longo dos meus 27 anos de carreira dedicados à educação básica e superior, tenho me deparado com um desafio persistente e estrutural no Ensino de Ciências e Química: o distanciamento epistêmico. Para grande parte dos estudantes, a Ciência ainda é percebida como uma linguagem hermética, rígida e dissociada da realidade quotidiana. Diante disso, minha prática pedagógica sempre buscou caminhos que unam o rigor de conteúdo à afetividade e ao encantamento.

Minha trajetória pessoal e profissional é marcada por uma dupla formação que define minha identidade: as Ciências Exatas e as Artes Cênicas. Paralelamente à docência, atuo ativamente na cultura cosplay sob o nome de Aikhaa Cosplayer desde 2004. Com o tempo, percebi que o figurino, a expressividade corporal e a construção de narrativas — pilares do cosplay — possuíam um potencial pedagógico subutilizado. Foi a partir dessa intersecção que criei o termo “Personificação Didática”.

 

“A expectativa pelas aulas com a personificação didática reduziu de maneira evidente os índices de absenteísmo e a dispersão em sala de aula.”

 

A Personificação Didática transcende o mero ato de “vestir uma fantasia” ou promover uma quebra na rotina escolar. Trata-se de uma transposição didática amparada na afetividade e na neuroeducação, na qual a estética e a narrativa da cultura pop (animes, séries de ficção científica e quadrinhos) atuam como ancoradouros cognitivos. Quando entro em sala de aula caracterizada, utilizo a bagagem cultural e o universo de interesse do estudante como a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) vygotskyana. Ao sintonizar a frequência comunicativa da sala com produções que eles já consomem voluntariamente no seu tempo livre, reduzo a ansiedade matemática e química, abrindo espaço para uma aprendizagem verdadeiramente significativa.

 

Contexto da prática

A metodologia da Personificação Didática foi lapidada e validada em diferentes cenários da minha atuação profissional no estado de Goiás, engajando desde turmas do Ensino Fundamental e do Ensino Médio até a graduação, no Ensino Superior. O desenho metodológico da prática estrutura-se em três etapas interdependentes:

Planejamento curricular e seleção da obra: O ponto de partida nunca é o figurino isolado, mas sim a matriz curricular em tela. Analiso o conteúdo programático e busco na cultura pop uma obra que possua aderência conceitual direta com o tema.

A performance epistêmica: No dia da intervenção, assumo a caracterização do personagem. Contudo, em nenhum momento, o rigor científico é deixado de lado. O personagem atua como um mediador de problemas, lançando questionamentos e conduzindo experimentos sob a ótica daquela narrativa.

Desdobramento maker e tecnológico: A aula performática estende-se para atividades práticas em que os alunos deixam de ser espectadores. Eles são estimulados a vivenciar o universo proposto por meio da cultura maker (construção de protótipos), da gamificação (utilizando ferramentas digitais como Kerbal Space Program ou Minecraft) e da criação autoral, como a produção de Histórias em Quadrinhos (HQs) científicas.

 

Exemplos práticos em sala de aula

Ensino Médio e Superior: O resgate da ciência com Fullmetal Alchemist e com Dr. Stone

No Ensino Médio e em turmas de formação superior, utilizei amplamente o universo dos animes Fullmetal Alchemist e Dr. Stone, caracterizando-me como os protagonistas de cada um, o alquimista Edward Elric e o cientista Senku Ishigami. A narrativa da obra Dr. Stone, que acompanha a reconstrução da civilização humana a partir do zero absoluto usando apenas a Ciência, é perfeita para contextualizar a História da Ciência, o método científico e a Química Tecnológica. Bem como a narrativa proposta em Fullmetal Alchemist, para uma introdução ao estudo da Química, partindo desde os alquimistas medievais, explorando a construção do processo de investigação científica, e alcançando as conquistas da ciência da atualidade.

Em uma aula de Química Orgânica e Inorgânica, usei a persona do Senku para simular o “Reino da Ciência” em sala de aula. Desafiei os estudantes a resolverem problemas empíricos simulando a escassez de recursos do anime: como produzir sabão a partir de gordura e cinzas (reação de saponificação), ou como a obtenção de carbonato de cálcio a partir de conchas marinhas reconstrói a base da indústria de materiais. Além de recriar algumas das produções da personagem, como a “Senku Cola”, estudando reações químicas. O impacto visual do cabelo estilizado do personagem e o uso de seus jargões característicos prenderam a atenção total dos alunos. O rigor conceitual da estequiometria e dos mecanismos de reação foi introduzido organicamente à medida que desvendávamos as fórmulas propostas no quadro, provando que a ciência pura é, de fato, a maior tecnologia de sobrevivência da humanidade. (Figuras 1 e 2)

Figura 1. Caracterização Fullmetal Alchemist
(Fonte: Acervo da professora/pesquisadora)

 

Figura 2. Caracterização como Senku Ishigami
Fonte: Acervo da professora/pesquisadora)

 

Ensino Fundamental: Compreendendo o corpo humano com Hataraku Saibou

Para os estudantes do Ensino Fundamental, o desafio consiste em tornar visível o que é microscópico e abstrato. Para esse segmento, encontrei no anime Hataraku Saibou (Cells at Work!) a metáfora ideal para falar de Ciências Naturais, Histologia e Imunologia. A obra antropomorfiza as células do corpo humano, transformando glóbulos vermelhos em entregadores e glóbulos brancos em guerreiros do sistema imune.

Em sala de aula, personifiquei-me para mediar essa jornada pelo interior do organismo. Para os alunos mais novos, ver a professora encarnando a dinâmica das células mudou completamente a atmosfera da aula. Discutimos a circulação sanguínea e o transporte de oxigênio sob a ótica de uma grande metrópole (o corpo) que precisa de logística eficiente. Quando introduzimos os patógenos (vírus e bactérias), os estudantes conseguiram compreender os conceitos de fagocitose, anticorpos e a resposta inflamatória porque visualizavam o conflito por meio da narrativa dramática estabelecida. O desdobramento prático envolveu uma atividade maker na qual as crianças criaram suas próprias células em 3D, com papel e lápis de cor/canetinhas. (Figuras 3 e 4)

Figura 3. Caracterização como Hataraku Saibou
(Fonte: Acervo da professora/pesquisadora)

Figura 4. Produção de estudantes na atividade maker
(Fonte: Acervo da professora/pesquisadora)

 

A personificação didática na afetividade e aprendizagem dos estudantes

A avaliação qualitativa e quantitativa dessa prática, monitorada através de diários de bordo, avaliações teóricas bimestrais, de percepção e desempenho acadêmico, revelou impactos profundos no ambiente escolar.

O primeiro impacto marcante diz respeito à desmistificação do cientista. Ao verem uma professora que transita entre a pesquisa científica, pois tenho mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG), e o universo dos animes, os estudantes desconstruíram o estereótipo do cientista como um sujeito isolado em um laboratório escuro. A Ciência ganhou cores, texturas e contornos acessíveis.

 

“A sala de aula pode e deve ser um espaço de encantamento.”

 

No aspecto do engajamento e comportamento, a expectativa pelas aulas com a personificação didática reduziu de maneira evidente os índices de absenteísmo e a dispersão em sala de aula. Os alunos demonstraram uma prontidão cognitiva muito maior para enfrentar conteúdos considerados difíceis.

Por fim, no que tange à retenção de longo prazo e apropriação conceitual, os resultados em avaliações formais e projetos científicos mostraram-se superiores. Os estudantes não apenas lembram as fórmulas, mas as vinculam à narrativa associada ao personagem. Em avaliações posteriores, muitos relataram associar os mecanismos químicos ou biológicos às cenas e dinâmicas propostas nas aulas performáticas, comprovando que a memória afetiva é um dos mais potentes catalisadores da aprendizagem.

A personificação didática, construída ao longo dos meus anos de dedicação à docência e à pesquisa, demonstra que a sala de aula pode e deve ser um espaço de encantamento. Ao unir a abordagem científica no cenário escolar à arte do cosplay, consigo estabelecer um canal genuíno de comunicação com as novas gerações.

 

“É uma filosofia de ensino que entende que, antes de acessar o intelecto do estudante, é preciso capturar sua imaginação.”

 

Essa abordagem valida a importância de uma formação docente transdisciplinar e sensível às mudanças culturais da sociedade. Seja inspirando futuros cientistas no Ensino Fundamental com a biologia celular, desafiando o Ensino Médio com a engenharia química dos animes, ou lecionando na universidade, a personificação didática provou ser mais do que uma estratégia metodológica: é uma filosofia de ensino que entende que, antes de acessar o intelecto do estudante, é preciso capturar sua imaginação.

 

Capa. Encontros entre o cosplay e a alfabetização científica promovem engajamento, contextualização conceitual e aproximação dos estudantes com a ciência
(foto: Magnific. Reprodução)
Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Thaiza Montine Gomes dos Santos Cruz é professora de Ciências no Colégio Marista de Goiânia e professora de Química e de Ciências no Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás - Unidade Ayrton Senna. Também é diretora de Educação e Formação do Instituto Geração de Marte, embaixadora da IAAC (International Astronomy and Astrophysics Competition) e fundadora e coordenadora do Projeto Trem Sideral (Clube de Ciência e Astronomia do Cerrado).

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