Aplicativos e plataformas digitais têm transformado a forma como estudantes acessam informações e interagem com o conhecimento, oferecendo recursos que tornam o aprendizado mais dinâmico, personalizado e interativo. Simulações, animações, jogos educativos e ferramentas para organização de dados ampliam as possibilidades de ensino, especialmente em áreas como as Ciências, nas quais muitos fenômenos são difíceis de visualizar apenas com textos e imagens estáticas.
Para Moacir Fernando Viegas, professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), essas tecnologias representam avanços importantes, mas precisam ser compreendidas como instrumentos pedagógicos, e não como substitutas da mediação docente. “Toda a tecnologia que vem para a educação traz novas possibilidades. Os aplicativos podem organizar a aprendizagem de modo bastante ágil e exigindo menos esforço para alcançar os objetivos da aprendizagem”, afirma.
Além de favorecer a visualização de fenômenos, as plataformas também podem aproximar os estudantes das práticas de investigação científica. Ferramentas digitais permitem registrar observações, organizar dados automaticamente, gerar tabelas e gráficos e reunir informações produzidas coletivamente por toda a turma. Recursos como feedback imediato e estratégias de gamificação também contribuem para manter o interesse dos estudantes durante as atividades. No entanto, segundo Moacir Viegas, essas vantagens têm limites importantes. “Os aplicativos são bons para mostrar o que é e como funciona a fotossíntese, mas não para ensinar como se conhece uma coisa. Ou seja, como o conhecimento é construído.” Para o pesquisador, compreender a ciência exige discutir hipóteses, controvérsias, erros, interpretações e os caminhos percorridos pelos cientistas até a construção de determinado conhecimento — aspectos que dificilmente são contemplados por aplicativos, que costumam apresentar percursos previamente programados.
Nesse cenário, o papel do professor torna-se ainda mais relevante. Embora os estudantes aprendam cada vez mais de forma autônoma em ambientes digitais, a aprendizagem continua sendo um processo essencialmente social, baseado no diálogo, na reflexão e na mediação humana. “O papel do professor continua sendo o de mediar a construção do conhecimento ensinando o estudante a pensar”, ressalta Moacir Viegas. Para ele, o maior risco das plataformas é induzir os estudantes a seguir sequências de comandos previamente definidas, criando a sensação de autonomia quando, na prática, eles apenas percorrem caminhos estabelecidos pela própria tecnologia. A mediação docente é justamente o que permite questionar resultados, explorar hipóteses alternativas, discutir a história da construção do conhecimento científico e estimular a criatividade e o pensamento crítico.
Outro desafio diz respeito às desigualdades de acesso às tecnologias. Diferenças entre escolas públicas e privadas, centros urbanos e periferias, bem como desigualdades de gênero, raça e formação docente, limitam o potencial transformador das plataformas digitais. Para Moacir Viegas, democratizar a educação digital não significa apenas fornecer computadores, internet ou aplicativos, mas criar condições para que estudantes e professores também aprendam a pesquisar, desenvolver e produzir tecnologias. “Não basta ter acesso às tecnologias. Os estudantes têm que aprender a fazer pesquisa e produzir tecnologia, porque senão vão ficar reféns de tecnologias existentes que não foram pensadas para eles.”
Ouça ao episódio completo:


