Em muitas escolas, o ensino de Ciências ainda permanece associado à memorização de fórmulas, definições e conceitos abstratos. No entanto, especialistas em educação científica apontam que aprender ciência envolve muito mais do que reproduzir conteúdos: exige investigar, levantar hipóteses, testar possibilidades e interpretar evidências. Nesse contexto, a experimentação didática — presente em laboratórios, feiras de Ciências e projetos investigativos — continua sendo uma estratégia fundamental para o desenvolvimento do pensamento científico.
Para Ivana Camejo, professora do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a experimentação tem papel central porque aproxima os estudantes da ciência como prática investigativa, rompendo com a ideia de conhecimento como algo pronto e definitivo. Segundo a pesquisadora, atividades experimentais podem favorecer a autonomia dos estudantes ao estimularem a elaboração de hipóteses, a produção e análise de dados e a construção coletiva do conhecimento.
Maria Teresa Pedrosa, professora do Departamento de Ciência dos Alimentos e Nutrição da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, reforça essa visão ao destacar que experimentar faz parte da própria curiosidade humana. Para ela, a busca por respostas está na essência do processo científico e permite transformar conceitos teóricos em experiências concretas e acessíveis. “Com o tempo, essas experiências deixam de ser apenas execução de protocolos e passam a estimular questionamentos, hipóteses e novas ideias. É nesse momento que começa a se desenvolver o pensamento científico, quando o aluno deixa de apenas ‘fazer’ o experimento e passa a refletir sobre porque ele funciona, como poderia ser modificado e quais novas perguntas podem surgir a partir dos resultados obtidos”, destaca.
“Pensar cientificamente envolve questionar, levantar hipóteses, tomar decisões, lidar com incertezas, interpretar evidências e construir explicações.”
A pesquisadora afirma ainda que fenômenos simples do cotidiano podem desempenhar esse papel, e cita o exemplo da eletricidade estática gerada ao passar um pente plástico nos cabelos secos e aproximá-lo de pequenos pedaços de papel. Situações como essa ajudam a demonstrar conceitos científicos de maneira visual e despertam a curiosidade dos estudantes, além de incentivarem novas perguntas e observações.
Muito além de seguir procedimentos
Apesar da importância atribuída às atividades práticas, pesquisadores da área de ensino de Ciências alertam para um problema recorrente: a realização de experimentos nem sempre significa desenvolvimento do pensamento científico. Em muitos contextos escolares, estudantes ainda executam procedimentos previamente definidos sem compreender o raciocínio envolvido no processo. Nesses casos, o experimento pode se limitar à reprodução de etapas e à obtenção de um resultado esperado.
Para Ivana Camejo um “modelo” de experimentação baseado em reproduzir etapas elimina a problematização, a análise, a interpretação coletiva dos dados e os processos metacognitivos implicados na aprendizagem, etapas fundamentais para a formação dos estudantes. “Pensar cientificamente, por outro lado, envolve questionar, levantar hipóteses, tomar decisões, lidar com incertezas, interpretar evidências e construir explicações. Isso só se desenvolve quando a experimentação didática é orientada por abordagens construtivistas, investigativas e problematizadoras, nas quais o estudante participa ativamente da construção do conhecimento”, explica.
Maria Teresa Pedrosa complementa essa discussão ao explicar que existe uma diferença entre realizar uma atividade prática e desenvolver efetivamente o pensamento científico. Inicialmente, o estudante pode apenas seguir instruções organizadas pelo professor. “Com o tempo, porém, a experiência prática pode estimular questionamentos mais complexos: por que determinado resultado ocorreu? O que mudaria se outra variável fosse alterada? Que novas perguntas podem surgir a partir daquele experimento? É nesse movimento que ocorre a transição entre executar protocolos e construir conhecimento de forma mais autônoma e investigativa”, exemplifica.
Para a pesquisadora, o processo de elaborar um experimento original para uma feira de ciências, por exemplo, exige muito mais do que executar etapas prontas; é necessário planejar, observar resultados, corrigir falhas, interpretar evidências e lidar com imprevistos. Muitas vezes, esse processo leva meses e exige persistência, criatividade e capacidade de investigação, conclui.
O erro também ensina
Uma das contribuições mais relevantes das atividades experimentais está na possibilidade de transformar o erro em parte do processo de aprendizagem. Enquanto modelos tradicionais de avaliação frequentemente associam erros ao fracasso, práticas investigativas permitem que resultados inesperados sejam incorporados ao percurso de construção do conhecimento.
Ivana Camejo destaca que experiências planejadas a partir de abordagens investigativas criam oportunidades para que os estudantes formulem hipóteses, revisem interpretações e participem de processos reflexivos mais amplos.
“A experiência prática pode estimular questionamentos mais complexo.”
Maria Teresa Pedrosa observa que a própria história da ciência foi construída a partir de tentativas, falhas e reformulações. Segundo ela, muitos estudantes ainda associam erros à incapacidade de acertar, quando, na realidade, resultados inesperados frequentemente impulsionam descobertas importantes.
Situações como a falha de um experimento durante uma feira de Ciências, por exemplo, podem se transformar em oportunidades de aprendizagem. Nesses momentos, estudantes precisam interpretar o que ocorreu, levantar novas possibilidades e encontrar soluções para problemas imprevistos, competências próximas da própria prática científica.
Feiras de Ciências permanecem atuais
Mesmo em um contexto marcado pelo avanço das tecnologias digitais, as duas especialistas avaliam que as feiras de Ciências continuam desempenhando um papel importante na formação científica. Para Ivana, esses eventos devem ser vistos como espaços de comunicação e divulgação científica escolar capazes de envolver estudantes, professores e a comunidade em processos coletivos de aprendizagem.
Maria Teresa Pedrosa destaca ainda que as feiras representam muito mais do que a exposição de trabalhos finalizados. Por trás dos projetos apresentados, existe um processo que envolve planejamento, pesquisa, criatividade e dedicação. “Além de estimular a curiosidade e o protagonismo estudantil, esses espaços favorecem o desenvolvimento de habilidades como comunicação, argumentação e trabalho em equipe”, conclui. (Figura 1)

Figura 1. A experimentação transforma conceitos abstratos em experiências concretas, tornando o aprendizado de ciências mais significativo e duradouro.
(Foto: Unicamp de Portas Abertas – UPA. Divulgação)
Vale destacar ainda que as feiras também assumem relevância em um contexto em que conteúdos sobre experiências científicas circulam diariamente nas redes sociais. Muitos desses materiais apresentam fenômenos sem contextualização adequada ou informações incorretas. Nesse cenário, desenvolver pensamento crítico torna-se essencial para avaliar evidências e diferenciar conhecimento científico de conteúdos enganosos.
Democratização da cultura científica
As pesquisadoras destacam o papel das universidades, centros de pesquisa e programas de extensão: estes têm papel estratégico na aproximação entre ciência e educação básica. Segundo elas, além da produção de conhecimento, podem atuar na formação de professores, no desenvolvimento de materiais didáticos e na construção de experiências investigativas mais acessíveis.
Outro aspecto destacado pelas especialistas é o potencial do caráter lúdico presente nas atividades de experimentação. Jogos, experimentos, desafios e práticas de exploração despertam o interesse dos estudantes ao associarem a aprendizagem ao prazer da descoberta. Nesse contexto, o lúdico não é entendido apenas como entretenimento, mas como uma estratégia capaz de promover engajamento, criatividade e participação ativa. Ao explorar fenômenos, formular hipóteses e buscar explicações para situações do cotidiano, os alunos desenvolvem uma relação mais significativa com o conhecimento científico, transformando a sala de aula em um espaço de investigação e encantamento.
“Ao ampliar o acesso a experiências experimentais reais e de qualidade, essas iniciativas contribuem potencialmente e de forma diretamente para a democratização da cultura científica.”
Um bom exemplo é o do Laboratório de Tecnologia Educacional da Unicamp, do qual a professora Ivana Camejo participa, pesquisadores desenvolvem estruturas de experimentação remota que permitem a realização de atividades em áreas como Biologia e Química, mesmo em contextos com poucos recursos materiais. Este movimento se articula com a rede PERCEB, Portal de Experimentos Remotamente Controlados para a Educação Básica, por meio da qual amplia-se o acesso a diversos experimentos. “Entendemos que ao ampliar o acesso a experiências experimentais reais e de qualidade, essas iniciativas contribuem potencialmente e de forma diretamente para a democratização da cultura científica, ao permitir que mais estudantes tenham a oportunidade de vivenciar a ciência como prática, linguagem e forma de compreender o mundo”, pontua Ivana Camejo.
Maria Teresa Pedrosa também destaca a importância de ações como as feiras abertas ao público e programas de aproximação entre universidades e escolas. Segundo a pesquisadora, iniciativas desse tipo ajudam a tornar a ciência mais acessível e aproximam estudantes da realidade acadêmica. Ela defende ainda a criação de parcerias permanentes entre instituições de ensino superior e escolas da educação básica, possibilitando que estudantes de graduação e pós-graduação participem de atividades de mentoria em projetos investigativos. “O ideal seria que cada universidade, pública ou privada, estabelecesse parcerias permanentes com escolas de educação básica para o desenvolvimento conjunto de atividades científicas. Estudantes de graduação e pós-graduação poderiam atuar como mentores em projetos investigativos, aproximando crianças e adolescentes da vida universitária e estimulando sonhos e perspectivas profissionais. Essa convivência pode ser decisiva para muitos jovens, especialmente aqueles que serão os primeiros da família a ingressar no ensino superior”, detalha. (Figura 2)

Figura 2. Ao explorar fenômenos na prática, os alunos desenvolvem curiosidade, pensamento crítico e maior compreensão dos conteúdos científicos.
(Foto: Jardel Rodrigues/ SBPC. Reprodução)
Ao final, as duas especialistas convergem em uma ideia central: a experimentação não depende necessariamente de laboratórios sofisticados ou equipamentos complexos, são atividades simples, orientadas para estimular a curiosidade, a criatividade e o pensamento crítico. Mais do que reproduzir procedimentos, experimentar significa aprender a investigar, interpretar fenômenos e construir novos caminhos para compreender o mundo.
Capa. Observar, testar, errar e tentar novamente: a prática experimental aproxima os estudantes do modo como a ciência produz conhecimento.
(Foto: Unsplash. Reprodução)
REFERÊNCIAS
BEVILACQUA, Gabriela Dias; COUTINHO-SILVA, Robson. O ensino de Ciências na 5ª série através da experimentação. Ciências & Cognição, v. 10, p. 84-92, 2007.
BRASIL. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Feiras de Ciências e Mostras Científicas. Disponível em: https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/popularizacao-da-ciencia/feiras-e-mostras-de-ciencias. Acesso em: 18 maio 2026.
FERNANDES, Joel et al. Mostra científica e práticas experimentais no ensino básico como mediação do processo de ensino aprendizagem. Revista Científica da UniMais, 2023.
NOGUEIRA, Juliana Mendes; GEBARA, Maria José Fontana. Da internet à sala de aula: um estudo exploratório de laboratórios brasileiros de experimentação controlados remotamente para aprendizagem de física. Revista Internacional de Pesquisa em Didática das Ciências e Matemática, 2025.
PIRES, Cristiano Rodeski. Mostra de Ciências como uma forma de aprendizagem a partir da experimentação. Revista Insignare Scientia, v. 2, n. 3, p. 64-70, 2019.



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