DC - Dia Mundial de Combate a Desertificação e a Seca - capa site

Quando a terra perde a vida

O avanço da desertificação ameaça ecossistemas, economias e milhões de pessoas em todo o planeta

O chão racha lentamente. Primeiro desaparecem algumas plantas. Depois, a água se torna escassa, os rios perdem força, os animais migram e as colheitas deixam de crescer. Em muitos lugares do mundo, a desertificação não chega como uma catástrofe repentina, mas como um processo silencioso que transforma paisagens férteis em territórios degradados e vulneráveis. É justamente para alertar sobre essa crise que a Organização das Nações Unidas celebra, em 17 de junho, o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca.

Criada oficialmente pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1994, a data chama atenção para um problema ambiental que já afeta diretamente cerca de 250 milhões de pessoas em diferentes regiões do planeta. Mais do que uma questão ecológica, a desertificação representa uma ameaça à segurança alimentar, ao abastecimento de água, à estabilidade social e à sobrevivência de milhões de comunidades rurais.

 

Uma crise que vai além dos desertos

Ao contrário do que muitos imaginam, desertificação não significa simplesmente a expansão natural dos desertos já existentes. O fenômeno corresponde à degradação do solo em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, causada principalmente pelas atividades humanas e pelas variações climáticas extremas, como secas prolongadas e enchentes.

Figura 1. © Gabriel Lindoso / Greenpeace. Reprodução

 

Entre os principais fatores responsáveis estão o desmatamento, o sobrepastoreio, o cultivo excessivo da terra, práticas inadequadas de irrigação e o uso intensivo dos recursos naturais. Quando o solo perde sua cobertura vegetal, ele se torna mais vulnerável à erosão causada pelo vento e pela água. O problema é agravado pelo fato de que a camada fértil do solo, destruída em poucos anos, leva séculos para se formar novamente.

As consequências ultrapassam a perda da produtividade agrícola. A desertificação reduz a qualidade da água, favorece a salinização do solo, aumenta o assoreamento de rios e reservatórios e contribui para enchentes e eventos climáticos extremos. Além disso, áreas degradadas tornam-se menos capazes de armazenar carbono, intensificando os impactos das mudanças climáticas.

 

Ecossistemas esquecidos, mas essenciais

Em 2026, o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca coloca no centro das discussões globais um ecossistema frequentemente negligenciado: as pastagens naturais, conhecidas internacionalmente como rangelands. O tema da campanha deste ano é “Rangelands: Recognize. Respect. Restore.” — “Pastagens: reconhecer, respeitar e restaurar”.

Essas áreas cobrem mais da metade da superfície terrestre e desempenham um papel fundamental na segurança alimentar, na conservação da biodiversidade, na regulação dos ciclos da água e na resiliência climática. Aproximadamente dois bilhões de pessoas dependem diretamente desses ecossistemas, incluindo povos indígenas e comunidades pastoris que preservam conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de gerações.

 

“A desertificação não chega como uma catástrofe repentina, mas como um processo silencioso que transforma paisagens férteis em territórios degradados e vulneráveis.”

 

Apesar de sua importância ecológica e econômica, até metade das pastagens do planeta já está degradada ou em risco. A perda desses ambientes ameaça não apenas a produção de alimentos e a disponibilidade de água, mas também modos de vida tradicionais profundamente conectados ao território.

 

Pobreza, migração e conflitos

A desertificação também possui profundas consequências sociais. Em regiões vulneráveis, a degradação do solo reduz as oportunidades de subsistência e aprofunda ciclos históricos de pobreza. Muitas famílias passam a explorar excessivamente os recursos naturais em busca de alimento, energia e renda, acelerando ainda mais o processo de degradação ambiental.

Esse ciclo cria um fenômeno perverso: a desertificação é, ao mesmo tempo, causa e consequência da pobreza. Quando a terra deixa de produzir, populações inteiras são forçadas a migrar para cidades ou outras regiões mais férteis. Segundo estimativas da ONU, cerca de 135 milhões de pessoas podem ser deslocadas devido à desertificação.

Na África Subsaariana, por exemplo, milhões de pessoas já enfrentam insegurança alimentar relacionada às secas extremas e à degradação do solo. Nas próximas décadas, parte dessas populações poderá migrar em direção ao norte da África e à Europa. O problema, entretanto, não se limita ao continente africano.

 

Um problema global

Embora a África seja uma das regiões mais afetadas, a desertificação ocorre em praticamente todos os continentes. Mais de 30% das terras dos Estados Unidos apresentam algum grau de degradação relacionado ao fenômeno. Na América Latina e no Caribe, cerca de um quarto do território corresponde a áreas áridas ou secas vulneráveis à desertificação.

Na Espanha, aproximadamente um quinto do território está sob risco de transformação em áreas desérticas. Já na China, desde a década de 1950, o avanço das dunas e a expansão de áreas degradadas comprometeram centenas de milhares de hectares de terras agrícolas e pastagens.


Figura 2. CFBio. Reprodução.

 

Globalmente, estima-se que cerca de 70% das áreas secas utilizadas para agricultura já estejam degradadas, segundo dados da ONU. O avanço desse processo evidencia como as mudanças climáticas, o uso intensivo da terra e modelos insustentáveis de produção estão alterando profundamente os ecossistemas terrestres.

 

Restaurar a terra é restaurar o futuro

Apesar da gravidade do cenário, especialistas afirmam que ainda existem caminhos viáveis para reverter parte dos danos. Entre as principais estratégias estão a recuperação da vegetação nativa, o manejo sustentável de pastagens, o reflorestamento, a proteção de recursos hídricos e o desenvolvimento de sistemas agrícolas mais resilientes ao clima.

 

“A desertificação é, ao mesmo tempo, causa e consequência da pobreza.”

 

Técnicas como agroflorestas, cinturões verdes contra erosão, reflorestamento e uso de espécies adaptadas à aridez ajudam a restaurar áreas degradadas e reduzir os impactos das secas. Sistemas de alerta precoce e políticas de gestão sustentável da água também são considerados fundamentais diante do aumento dos eventos climáticos extremos.

Além das soluções tecnológicas e ambientais, organismos internacionais destacam a importância de incluir comunidades locais e povos indígenas nos processos de conservação e recuperação dos territórios. Em muitos casos, esses grupos preservam conhecimentos tradicionais capazes de garantir o uso sustentável da terra ao longo do tempo.

 

Uma escolha cotidiana

A ONU e a UNESCO alertam que combater a desertificação exige mudanças estruturais, mas também decisões cotidianas. O que consumimos, como produzimos alimentos, quais recursos utilizamos e até a forma como nos deslocamos influenciam diretamente a pressão exercida sobre os solos e os recursos naturais.

Restaurar terras degradadas significa proteger a biodiversidade, garantir água para as futuras gerações, reduzir emissões de carbono e fortalecer a segurança alimentar global. Mais do que preservar paisagens, trata-se de preservar condições básicas para a vida humana.

Em um planeta cada vez mais marcado por eventos climáticos extremos, secas severas e insegurança hídrica, o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca funciona como um alerta urgente: recuperar o equilíbrio da terra talvez seja uma das tarefas mais decisivas deste século.

 

Capa. Senado Federal. Reprodução.
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