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Herdeiros do fim do mundo

Dinah Silveira de Queiroz transformou invasões alienígenas, guerras e distopias em uma poderosa reflexão sobre gênero, colonialismo e humanidade

Há livros que envelhecem como documentos históricos; outros permanecem vivos porque continuam fazendo perguntas desconfortáveis ao presente. Publicado originalmente em 1960, “Eles Herdarão a Terra”, de Dinah Silveira de Queiroz, pertence claramente ao segundo grupo. Parte de uma coletânea de mesmo nome que reúne contos que transitam entre invasões extraterrestres, distopias, sátiras políticas e estranhamentos fantásticos, o conto prova que a ficção científica brasileira sempre foi mais ousada, política e sofisticada do que costuma aparecer nos cânones literários.

Mas reduzir o livro a uma reunião de histórias “sobre ETs” seria ignorar justamente aquilo que faz Dinah de Queiroz tão singular: sua capacidade de utilizar o insólito para falar de tensões profundamente humanas. Em suas narrativas, o espaço sideral nunca está tão distante assim da realidade brasileira. O conto que dá nome ao livro talvez seja o melhor exemplo disso. Em “Eles Herdarão a Terra”, Dinah de Queiroz apresenta uma invasão alienígena que foge completamente da lógica militar clássica da ficção científica. Não há raios destruindo cidades nem batalhas épicas contra naves interplanetárias. Os alienígenas da autora compreendem algo perturbador: a humanidade já está plenamente empenhada em sua própria destruição.

A genialidade da narrativa está justamente nessa inversão. Enquanto obras tradicionais do gênero imaginavam ameaças externas devastando a civilização humana, Dinah de Queiroz desloca o horror para dentro da própria sociedade terrestre. Guerras, violência, destruição ambiental, desigualdade e brutalidade masculina tornam-se mais eficientes do que qualquer tecnologia alienígena. Os invasores apenas observam — e aguardam.

Nesse sentido, o conto adquire hoje uma força quase profética. Em tempos marcados por guerras contínuas, crise climática, discursos extremistas e colapso ambiental, a pergunta proposta pela autora continua ecoando com desconfortável atualidade: quem herdará a Terra depois da exaustão humana? A ficção científica de Dinah de Queiroz não se limita ao futurismo; ela opera como alerta ecológico, político e civilizatório.

Mas talvez o aspecto mais radical do conto esteja em sua discussão sobre gênero. Dinah de Queiroz subverte um elemento recorrente das narrativas de invasão alienígena: o domínio territorial. Aqui, o verdadeiro território disputado não é apenas o planeta, mas também o corpo feminino. As mulheres surgem simultaneamente como símbolo de fertilidade, continuidade e resistência — desejadas pelos alienígenas e negligenciadas pelos próprios homens da Terra.

 

“Pra quê mobilizar esforços de guerra para exterminar o ser humano se já estamos fazendo isso muito bem sozinhos, obrigada?”

 

Essa disputa simbólica torna a leitura especialmente potente. O alienígena de Dinah de Queiroz acusa a incompetência masculina, a violência das guerras e a incapacidade dos homens de preservarem aquilo que possuem. Em determinado momento, a narrativa sugere que algumas mulheres prefeririam acompanhar os extraterrestres a permanecer ao lado dos homens terráqueos. O efeito é profundamente perturbador, especialmente considerando o contexto histórico da publicação.

 

Desbravando caminhos literários

Escrevendo no início dos anos 1960, Dinah de Queiroz antecipa debates que só ganhariam maior centralidade décadas depois: autonomia do corpo feminino, violência estrutural, relações de poder e colonialismo. Seu texto parece estabelecer uma ligação entre a exploração da Terra e a exploração da mulher, como se ambas fossem tratadas historicamente como territórios de conquista, domínio e exaustão.

 


Figura 1. Dinah Silveira de Queiroz. Divulgação

 

A ambiguidade também é uma das maiores forças da autora. Dinah não oferece respostas fáceis nem moralismos simplificadores. Não sabemos exatamente quais são as intenções definitivas dos alienígenas, tampouco compreendemos plenamente os desejos das personagens femininas. O silêncio, a dúvida e a sugestão tornam-se ferramentas narrativas fundamentais.

É justamente essa abertura interpretativa que mantém o conto vivo. Diferentes gerações podem reencontrar na narrativa novas camadas de sentido: uma crítica ao colonialismo, uma alegoria sobre a Guerra Fria, um comentário feminista, um alerta ambiental ou até uma reflexão filosófica sobre o fracasso humano. Dinah compreendia que a boa ficção científica não prevê o futuro; ela ilumina o presente.

Sua relevância histórica para a literatura brasileira também impressiona. Integrante da chamada Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira, Dinah ajudou a consolidar um gênero frequentemente tratado como menor pela crítica literária nacional. E fez isso ocupando um espaço ainda mais improvável: o de mulher escrevendo ficção científica em um meio amplamente masculino.

Embora hoje seu nome seja menos lembrado do que deveria, Dinah de Queiroz foi uma autora extremamente popular e influente. Seu romance “Floradas na Serra” esgotou rapidamente a primeira edição e ganhou adaptação cinematográfica. “A Muralha” tornou-se um clássico da televisão brasileira. Escreveu crônicas, romances históricos, literatura infantil, peças teatrais e textos radiofônicos, transitando entre formatos com rara naturalidade.

 

 “O campo de batalha é o corpo da mulher.”

 

Essa versatilidade talvez explique parcialmente por que sua produção permaneceu durante tanto tempo subestimada pela crítica acadêmica. Dinah escrevia para públicos amplos, dialogava com jornais, rádio e televisão, apostava em linguagem acessível e valorizava a comunicação direta com o leitor. Em um ambiente literário frequentemente marcado pelo elitismo, sua popularidade acabou sendo vista com desconfiança.

Ainda assim, sua trajetória é profundamente pioneira. Dinah esteve entre as principais vozes femininas que pressionaram pela entrada de mulheres na Academia Brasileira de Letras. Depois de candidaturas recusadas, tornou-se a segunda mulher a ingressar na instituição, logo após Rachel de Queiroz. Sua presença ali representava não apenas reconhecimento literário, mas também ruptura simbólica em um espaço historicamente masculino.

 

A ficção da realidade brasileira

Seu olhar para a ficção científica também estava diretamente conectado ao contexto histórico que viveu. Dinah testemunhou a Guerra Fria, a corrida espacial e as transformações tecnológicas do século XX. Enquanto o mundo acompanhava satélites, ameaças nucleares e especulações sobre vida extraterrestre, ela percebeu que o verdadeiro drama humano talvez não estivesse nas estrelas, mas na própria Terra.

 


Figura 2. Coletânea de Contos “Eles Herdarão a Terra”. Divulgação.

 

Por isso, sua ficção científica permanece tão contemporânea. Seus contos falam sobre perseguição política, intolerância, colonialismo, misoginia, destruição ambiental e desigualdade social sem jamais perder a dimensão fantástica. Há ironia, tensão, lirismo e desconforto convivendo simultaneamente em suas histórias.

Também impressiona a maneira como Dinah de Queiroz articula som, oralidade e ritmo em sua escrita. Acostumada ao rádio e às crônicas jornalísticas, desenvolveu uma prosa extremamente fluida, sonora e imagética. Seus textos parecem feitos para serem narrados em voz alta, carregando musicalidade mesmo nos momentos mais sombrios.

Reler “Eles Herdarão a Terra” hoje é também perceber como a literatura brasileira produziu, muito antes do reconhecimento recente do gênero, uma ficção científica sofisticada e profundamente crítica. Dinah de Queiroz compreendeu cedo que imaginar futuros era uma forma poderosa de discutir violências do presente.


Referências

Dinah Fantástica: Contos de Ficção Científica Reunidos ― Eles Herdarão a Terra e Comba Malina. Editora Instante. 2022.

 

Capa. Divulgação.

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Chris Bueno

Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
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