Introdução
Assim como a ciência, a criação artística é fruto de uma necessidade de compreensão do mundo e compreensão de si, as quais possibilitam ao ser humano compreender e modificar a relação entre si e o mundo. Por outro lado, razão e emoção, geralmente associadas respectivamente às ciências e às artes, têm sido difundidas como esferas apartadas do comportamento humano, por vezes até mesmo opostas.
Tal perspectiva também pode ser vista na educação escolar, em que os aspectos cognitivos são privilegiados em relação aos emocionais. Todavia, assume-se com base em Vigotski,[1] que o pensamento, alicerce do desenvolvimento psíquico e humano, está intrincado aos processos emocionais os quais ocorrem paralelamente aos cognitivos. O psicólogo bielorrusso postula que: “Começamos a compreender que o processo de pensamento surge de uma base instintiva e emocional (…). (…) em seu curso os pensamentos não estão subordinados às leis mecânicas da associação nem às leis lógicas da certeza, mas às leis psicológicas da emoção (p. 172)”. [1]
O ato do pensamento, nesse contexto, não é dissociado da emoção. Por conseguinte, o processo educativo não deveria prescindir da emoção, o que sugere um redirecionamento do olhar para tais questões. Ao propor mais poesia na ciência, esse trabalho busca explorar as aproximações entre essas duas produções humanas tendo como centralidade a reação psíquica humana (cognitiva e emocional), a qual se apresenta em íntima relação com processos imaginativos e lúdicos, havendo um terreno fértil na infância e juventude. Procura-se, sem intenção de esgotamento, o debate das seguintes questões: Quais fundamentos balizam a interrelação entre ciência e poesia? Quais possibilidades de inserção da poesia no ensino ou divulgação das ciências? Quais práticas são possíveis nesse processo?
Por que poesia e ciência? Aproximações possíveis e relações com a juventude
Em busca de discutir a pergunta “Quais fundamentos balizam a interrelação entre ciência e poesia?”, ou, “Por que poesia e ciência?”, nos pautamos em trabalhos anteriores [2,3] os quais se detiveram a análises de natureza teórica e empírica acerca de aproximações entre a poesia e ciência, estabelecendo cinco principais dimensões (não estáticas ou rígidas): i) racionalidade; ii) imaginação e criatividade; iii) linguagem e modos de representação (ou metaforização/nominalização); iv) estética e, v) condicionantes históricos de produção.
Ciência e poesia são ambas atividades de natureza social e intelectual; logo racional, resultado de condições histórico-sociais que exigem rigor, técnica, estudo, bem como validação pela crítica (ou pares) dos produtos originados. Como atividades intelectuais que operam sobre a realidade do mundo, são expressas e materializadas por meio de linguagens, exigindo um processo criativo de abstração (imaginação) da realidade para uma expressão consciente de representações sobre os fenômenos explorados, sejam eles de ordem natural ou social. Assim, conceitos e ideias são expressos e condensados por meio de símbolos, principalmente a palavra. Frequentemente, uma única palavra expressa complexas emoções ou conceitos que são (re)interpretações do mundo e resultam em um processo de (res)significação intelectual desse mundo mediante essas representações. Portanto, uma palavra ou outro símbolo qualquer evoca o pensamento para que a mente manipule não as coisas em sua realidade física, mas uma metáfora dessa realidade, sejam emoções, conceitos, ideias ou processos, cujas percepções não são imediatas.
“Ciência e poesia são ambas atividades de natureza social e intelectual.”
Ao ler a palavra “morte” em um poema, por exemplo, estabelecemos associações com uma ideia e/ou emoção ligada a esse fenômeno, sem que este tenha acontecido propriamente (ou acontecido naquele instante). Ao mesmo tempo que a contemplação e a criação emergem, não se trata tão somente de uma apreciação imediata e superficial, mas de estímulos que ecoam na mente e projetam reações psicológicas mais complexas, o que remete à dimensão estética, e seus três momentos centrais: estímulo, elaboração e resposta [1]. A estética é associada justamente com o resultado dessa vivência na condição de uma reação demandada aos sujeitos a partir de estímulos cognitivos e emocionais.
Essas aproximações são importantes ao se considerar a potencialidade das relações entre ciência e poesia no processo educativo (escolar ou não), como modo de extrapolar as formas de pensar, proporcionado o desenvolvimento intelectual e social dos jovens, bem como as habilidades de escrita, leitura e argumentação [4]. O escritor e professor Severino Antônio, em sua obra “A utopia da palavra” reflete: “O poema faz pensar. Faz viver. A poesia seduz a razão para a dança com os signos (p. 108)” [5]. O poema assim evoca o pensamento e vivências para uma ação intelectual.
Nesse processo a palavra é um movimento vívido e bidirecional, a partir do qual o pensamento não é apenas expresso, mas se realiza por meio da palavra em íntima associação com a imaginação. A mente humana cria e fantasia tendo a realidade experienciada como pano de fundo, o que traz a ludicidade para tais atividades.
A imaginação é uma função psicológica superior que se constrói socialmente, estando vitalmente associada à brincadeira e ao jogo [6]. Ao brincar ou jogar, a criança atribui significados a objetos, subordinando ações e objetos ao imaginário que transforma a realidade. Latas ou panelas são instrumentos de percussão. Riscos no chão são um campo de futebol. A criança passa a ser professor, médico, jogador, progenitor etc. Esse processo carrega em si uma liberdade própria, bem como comportamentos sociais fora dos originais da criança. O impulso que leva a criança a brincar tem raiz afetiva e emocional, na busca por sensações de prazer e alegria, mas que por vezes se tornam frustação, ansiedade e tristeza (quando um brinquedo se quebra ou se perde um jogo). Por isso mesmo, a atividade social do brincar torna-se tão fundamental no desenvolvimento dos jovens, pois se trata de um imaginário que tem o mundo real como suporte.
Particularmente entre crianças e jovens, em que imaginação e razão estão em processo de desenvolvimento, a aproximação de poesia e ciência possibilita uma aspiração para além do que está representado, desenvolvendo potenciais para extrapolar aquilo que é percebido e alcançar estímulos e reações psicológicas complexas. Em um período marcado pela transição de uma imaginação com caráter mais subjetivo para seu caráter mais objetivo na busca de identidade, pela intensificação das emoções e pela necessidade de pertencimento, as relações poético-científicas podem ocupar um importante espaço de expressão de sentimentos, inquietações e percepções de mundo. Olhar um poema com uma perspectiva científica é um jogo de palavras, imaginário, sentidos e significados.
Argumentamos, então, que é fundamental o estímulo aos jovens das conexões entre razão⇔emoção, subjetividade⇔objetividade, ciência⇔arte/poesia durante esse percurso de desenvolvimento da imaginação, que se dá da infância à passagem para a vida adulta. Esse estímulo pode se constituir em processos de elaboração da imaginação e da fantasia, as quais estabelecem um diálogo com as experiências vividas e a realidade, mediadas pela linguagem poética e científica.
Poesia e educação em ciências: um olhar sobre o que tem sido feito
Embora a relação da poesia com a ciência não possa ser considerada nova no campo da educação científica, o tema ainda carece de sistematicidade e de fundamentos teóricos que balizem as atividades educativas. Buscamos apresentar, então, algumas experiências reportadas na literatura de trabalhos que demonstram possibilidades educativas, assim como fundamentos teórico-metodológicos que possam subsidiar práticas e pesquisas com o propósito de debater a questão: Quais possibilidades de inserção da poesia no ensino ou divulgação das ciências?
Nessa perspectiva educativa, ao menos duas possibilidades emergem como centrais: i) a leitura de textos de natureza poética e; ii) a produção de textos de natureza poética. Tais possibilidades podem ter variações e particularidades quanto às ações pedagógicas.
Em termos da leitura de textos, podem ser enfocadas três dimensões complementares: científica, social e literária. [7] Na perspectiva científica, é possível analisar os processos, conceitos ou termos científicos presentes no poema, direcionando a interpretação para os fenômenos científicos nele abordados. Na perspectiva social, o poema pode suscitar reflexões acerca de temas discutidos socialmente sob diferentes perspectivas. Já na perspectiva literária, podem ser explorados elementos estruturais do texto, como a organização das estrofes, a composição dos versos e os recursos de linguagem utilizados.
“A mente humana cria e fantasia tendo a realidade experienciada como pano de fundo, o que traz a ludicidade para tais atividades.”
Nesse sentido, Araújo, Morais e Paiva [4] propuseram a leitura de um poema sobre raio atômico e energia de ionização e o conciliaram à partilha das interpretações pessoais, escrita de poemas autorais e representação por meio de desenho ou charges. Essa atividade possibilitou aos alunos maior engajamento, curiosidade e participação; várias formas de expressar suas ideias; e, uma aprendizagem significativa que incentivou o pensamento criativo.
Francisco Junior e Leite [8] empreenderam a leitura livre de um poema de temática científica com estudantes do início de graduação, buscando apreender as percepções científicas e emocionais dessa leitura. Os autores assinalam que o poema originou diversas reações de caráter cognitivo (estranheza, curiosidade, atenção, dúvida) e emocional (alegria, prazer). Também apontam para dificuldades de percepções científicas, indicando a importância de uma leitura mediada das questões científicas.
No campo da divulgação científica, experimentos interativos conjugados a um poema foram a base de uma exposição realizada [9]. Organizados em estações interativas, os experimentos foram empregados para investigar as possibilidades de leitura de um poema em que representações, como equações químicas, compunham os versos. Os resultados indicaram engajamento dos participantes, com mobilização de atenção, interações discursivas e reações emocionais como satisfação e alegria.
Dentro dessa perspectiva de leitura, Andrade e Francisco Junior [3] fundamentam uma proposta de análise linguística e estética como forma de pensar leituras científicas e poéticas que podem valorizar a integração científica, social e literária. Em termos linguísticos, sugerem a análise lexical. Resumidamente, o método consiste em analisar quais termos podem produzir sentidos sobre ciência em poemas, o que permitiria estabelecer correlações tanto com os temas, quanto produzir novas leituras a partir das metáforas. A leitura não se trata apenas de uma contemplação ou análise formal de aspectos científicos, trata-se de uma ação responsiva que permita ampliar as significações possíveis do poema a partir da análise de diferentes sentidos que as palavras assumem. Por exemplo, no verso “Roubar da cana a doçura do mel” da canção Cio da Terra, o termo “doçura” apresenta um sentido de propriedade organoléptica, que pode ser captada no paladar. Ao se propor uma análise das espécies químicas presentes no mel e na cana que produzem esse resultado, bem como o que acontece na moagem da cana, novas possibilidades se abrem. Roubar da cana a doçura do mel pode ser também compreendido como o processo de extração da sacarose.
Em que pese à escrita de poemas como possibilidade educativa, Lima; Ramos e Piassi [10] exploraram a criação poética com estudantes do Ensino Fundamental. A proposta versou sobre o tema micro e macrocosmo e envolveu uma sequência de atividades, incluindo a leitura de poemas. Os resultados indicaram poesias contemplando aspectos cognitivos, emocionais e responsivos frente aos assuntos abordados, as quais projetaram reflexões filosóficas sobre a realidade, a natureza e conhecimento humanos e seus valores. Os poemas também exibiram elementos estéticos característicos da poética.
Já Furlan e cols. [11] realizaram um projeto interdisciplinar envolvendo professores de química, ciências humanas e inglês. Os alunos foram orientados a escrever poemas e criar cartazes sobre tópicos de química usando ilustrações artísticas. Ao final, os poemas e cartazes foram expostos na universidade. Os estudantes demonstraram uma boa compreensão da química, expressando seu conhecimento de uma forma divertida e criativa que também despertou o interesse do público em geral.
Nos Estados Unidos, jovens de um clube escolar afro-americano de cinema científico (Digi-Stars) produziram vídeos declamando poemas para divulgar ciências, o que ampliou sua alfabetização multimodal (entre científica, tecnológica e literária) e sua identificação como cientistas criativos que usam as artes (poesia, música, dança e foto/vídeo) [12]. Em Gana, alunos visitaram uma costa poluída e fizeram sua representação por meio de poemas e desenhos, que foram divulgados na comunidade escolar e local, o que possibilitou o desenvolvimento de conhecimentos sobre as mudanças climáticas [13].
No geral, a integração poesia-ciência envolve observação, imaginação e emoção, que podem ampliar a sensibilidade, a cognição e a experiência dos estudantes, contextualizando conteúdos e desenvolvendo o pensamento investigativo e científico. Nota-se, também, a possibilidade interdisciplinar não apenas entre artes e ciências, mas entre diferentes profissionais e áreas do conhecimento.
Breves considerações e reflexões em torno de uma experiência prática
Calcados nos aspectos introduzidos até aqui, discorremos brevemente nesta última seção acerca de uma proposta teórico-metodológica que visa explorar os potenciais da interrelação poesia-ciência. A título ilustrativo, um breve relato de experiência empírica com jovens do primeiro ano do Ensino Médio (EM). De início, é salutar considerar que não há um caminho unidirecional ou correto para tecer poesia e ciência e vice-versa. Ao mesmo tempo, temos nas vivências estéticas (que implica em reações cognitivas e emocionais) e nas aproximações tecidas na primeira seção alguns motes para amalgamar debates poéticos da ciência e/ou debates científicos da poesia.
Com isso propomos três momentos que se fundamentam em: i) perceber; ii) priorizar e; iii) problematizar. [2] Esses se relacionam aos três momentos compreendidos pela vivência estética: estimulação, elaboração e resposta, podendo estar presentes tanto em atividades de leitura quanto de produção poética. Nessa experiência com estudantes do EM, partimos da leitura de um poema de Manoel de Barros (Quadro 1).
Queria transformar o vento.Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte físicado vento: uma costela, o olho…Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz.Quando se disse que o vento empurrava a canoa do índio para o barrancoImaginei um vento pintado de urucum a empurrar acanoa do índio para o barranco.Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.Estava quase a desistir quando eu me lembrei do meninomontado no cavalo do vento — que lera emShakespeare.Imagina as crinas soltas do vento a disparar pelosprados com o menino.Fotografei aquele vento de crinas soltas. |
Quadro 1. Poema “O Vento” de Manoel de Barros.
O “perceber” constitui-se como um momento de fruição livre, em que a produção de sentidos entre plano interior (psíquico) e exterior (social) é valorizado. Os estudantes foram convidados a ler o poema e criar imagens livres que representassem aquilo que pensaram com/sobre o poema. A Figura 1 ilustra duas criações de estudantes.


Figura 1. Exemplos de representações produzidas por estudantes a partir da leitura do poema.
(Imagem: Arquivo do autor. Reprodução)
Notam-se produções bem distintas e com elementos artísticos variados. A Figura 1A, por exemplo, é bastante introspectiva. O vento está representado pelos traços curvos com tonalidades de azul mais claro, bem como as folhas que parecem flutuar levadas pelo vento em direção à lua. A imagem de uma pessoa segurando aparentemente uma corda indica uma pretensão de ascender ao céu/lua. Trata-se de uma complexa representação que exibe incrível semelhança nas cores e composição com a obra-prima de Vincent Van Gogh “Noite Estrelada no Ródano” (1888). Já a Figura 1B reflete também essa relação exterior, mas a partir de uma dimensão prática e mais cotidiana. O efeito do vento nas roupas penduradas em um varal.
O poema pode assim se configurar neste material de elaboração estética, a partir do qual os indivíduos projetam suas memórias, experiências, sentimentos e novos pensamentos no objeto de arte vivenciado e na resposta ao estímulo (as representações neste caso). Após, os estudantes foram convidados a expor suas ideias para os colegas. A escolha deste relato tem relação com um fato significativo nesta socialização. Dois estudantes autistas, gêmeos, que nunca haviam se expressado para a turma, foram os primeiros a manifestar o interesse em expor suas ideias e representações acerca do poema. Este simples fato evidencia como a contextura poética apresenta potencialidades em termos do comportamento e das reações de ordem emocional, cognitiva e social. Nesse sentido, é que se busca valorizar as percepções como modo de sensibilizar e expandir o pensamento.
O momento do “perceber” abre o caminho para o “priorizar”, que consistiria basicamente na seleção de conteúdos ligados à ciência a partir daquilo que foi percebido. A intenção dessa atividade em específico foi o debate da constituição da matéria tendo o modelo particulado como foco. O vento é ar em movimento e este ar é formado por partículas que podem colidir com outros objetos (folhas, roupa, nosso rosto) exercendo uma força.
A proposta do “priorizar” é dialógica em sua essência, buscando valorizar a vivência propiciada no momento de fruição. A concepção de temas e conteúdos científicos assim não é limitada aos conceitos científicos propriamente ditos (matéria, partícula, massa, matéria, átomo), mas imbricada aos contextos histórico, sociais, políticos e culturais da produção do conhecimento científico e suas aplicações e implicações na sociedade. Qual a forma do vento? Quais os efeitos do vento?
“Olhar um poema com uma perspectiva científica é um jogo de palavras, imaginário, sentidos e significados.”
A etapa seguinte proposta é o momento de “problematização”, compreendido justamente pelo uso de artefatos culturais na mediação do processo educativo. A compreensão do significado dos modelos científicos a partir de artefatos didáticos (como modelos, animações, imagens) que possam mediatizar a apropriação desse saber, favorecendo outros olhares sobre o poema lido/produzido. O vento não é apenas algo sem forma, mas partículas com massa, que se movimentam e colidem umas com outras.
A integração entre química/ciências e poesia pode ampliar relações artísticas, culturais, sociais e linguísticas para o desenvolvimento do ser humano. A linguagem permite a internalização e expressão da cultura humana, ou seja, a transição do meio externo (social ou interpsíquico) para o interno (intrapsíquico) e vice-versa. Logo, essas atividades poético-científicas projetam a humanidade do meio social para o meio psicológico como modo de desenvolvimento. Todavia, ainda existe a necessidade de expandir tal discussão a partir de pesquisas, em especial a partir de fundamentos teórico-metodológicos que permitam o avanço na compreensão dos efeitos cognitivos, emocionais e sociais.