Entrevistas
EN Aline Queiroz - capa

“O conhecimento é a ferramenta mais potente de transformação”

Confira entrevista com Aline Cavalcanti de Queiroz, professora da Universidade Federal de Alagoas

Produzir ciência de ponta fora dos grandes centros de pesquisa também significa ampliar perspectivas, valorizar a biodiversidade e enfrentar desigualdades históricas. É nesse contexto que atua Aline Cavalcanti de Queiroz, professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e membro afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Farmacêutica e pesquisadora, ela desenvolve estudos voltados à busca de novos candidatos a medicamentos, especialmente para o tratamento da leishmaniose e do glioblastoma, um tipo agressivo de câncer cerebral. “Uma descoberta científica que ‘finalmente funciona’ é apenas a ponta de um iceberg sustentado por uma rede imensa de cooperação, mentoria e, acima de tudo, pela escolha diária de não desistir diante das dificuldades”, pontua.

Com uma trajetória construída na universidade pública e marcada pela colaboração científica, Aline Queiroz também chama a atenção para os desafios de pesquisar doenças negligenciadas e ampliar a participação das mulheres na ciência: “Quando a ciência decide debruçar-se sobre as doenças negligenciadas, ela faz um movimento político e ético: o de colocar o rigor científico e o investimento público onde a necessidade humana é maior, e não onde o lucro é garantido”. Nesta entrevista à Ciência & Cultura, ela fala sobre os caminhos da pesquisa farmacológica, a importância de fortalecer a produção científica no Nordeste, os obstáculos enfrentados por quem faz ciência e o papel da educação na transformação de vidas.

 

Ciência & Cultura — Você trabalha na busca por novos medicamentos para doenças como leishmaniose e câncer. O que te atrai em problemas científicos tão complexos e que ainda estão longe de ter respostas definitivas?

Aline Cavalcanti de Queiroz — O que me move no trabalho com doenças tão complexas quanto a leishmaniose e o glioblastoma é a oportunidade de buscar respostas onde o conhecimento atual ainda encontra limites. Na ciência, lidamos diariamente com a incerteza, com a hipótese que não se confirma de primeira e com a necessidade de persistir.

Tanto a leishmaniose — uma parasitose grave que afeta milhões de pessoas e recebe pouca atenção da indústria farmacêutica — quanto o glioblastoma — um câncer cerebral extremamente agressivo e sem cura — exigem abordagens científicas rigorosas, que combinem biotecnologia, farmacologia e busca por produtos naturais e sintéticos mais eficazes e menos tóxicos. O fascínio não está apenas na complexidade do problema biológico, mas na certeza de que cada avanço in vitro, cada molécula testada no laboratório ou cada novo resultado nos aproxima de uma solução real para quem precisa. É a ciência a serviço da vida, mostrando que o conhecimento é a ferramenta mais potente de transformação.

 

“Produzir ciência de ponta no Nordeste descentraliza o saber, fixa talentos na região e mostra que a excelência não depende do local em que você está, mas da paixão, do investimento e da oportunidade.”

 

C&C — A leishmaniose afeta principalmente populações vulnerabilizadas e ainda recebe menos atenção do que outras doenças. O que a pesquisa sobre novos tratamentos pode revelar sobre as desigualdades que também existem na ciência e na saúde?

ACQ — A leishmaniose é um retrato evidente de como a negligência econômica e social se reflete na saúde pública. Presente em quase uma centena de países, inclusive no Brasil, ela atinge prioritariamente populações de menor renda, o que reduz o interesse comercial da grande indústria farmacêutica no desenvolvimento de novos fármacos. Costumo dizer que é uma doença extremamente negligenciada pela indústria farmacêutica. Existem pouquíssimos medicamentos usados contra a doença, e eles apresentam elevada toxicidade.

Quando a ciência decide debruçar-se sobre as doenças negligenciadas, ela faz um movimento político e ético: o de colocar o rigor científico e o investimento público onde a necessidade humana é maior, e não onde o lucro é garantido.

Essa assimetria também se reflete no fazer científico. Pesquisar doenças negligenciadas exige que sejamos altamente criativos e colaborativos, estabelecendo redes fortes de pesquisa. Pesquisar tratamentos para a leishmaniose revela que a equidade na saúde depende, antes de tudo, de equidade na ciência. O conhecimento produzido na academia não pode ficar restrito a muros ou artigos; ele precisa servir como farol para políticas públicas sustentáveis e para a garantia da saúde como um direito básico de todas as pessoas, independentemente de sua condição socioeconômica.

 

C&C — Fazer pesquisa de ponta em Alagoas ainda significa, de certa forma, desafiar a ideia de que os grandes centros de ciência estão concentrados no eixo Sul-Sudeste. O que muda quando o conhecimento é produzido a partir de outras realidades?

ACQ — Fazer pesquisa em Alagoas — e, especificamente, no interior do estado — é demonstrar diariamente a força, a riqueza e a excelência que existem fora dos eixos tradicionais de financiamento. Toda a minha formação, da graduação ao doutorado, foi construída na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e tenho um orgulho imenso dessa trajetória. Atuei por oito anos no Campus Arapiraca e hoje faço parte do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), vivenciando de perto a capacidade de trabalho extraordinária de pesquisadores e estudantes do interior alagoano.

Quando o conhecimento é produzido a partir de outras realidades, a ciência ganha pluralidade e um olhar regionalizado. Na Caatinga, por exemplo, encontramos uma biodiversidade fitoquímica única, que se torna fonte primária para a bioprospecção de novos medicamentos. Produzir ciência de ponta no Nordeste descentraliza o saber, fixa talentos na região e mostra que a excelência não depende do local em que você está, mas da paixão, do investimento e da oportunidade.

 

“A maternidade e a sobrecarga do trabalho de cuidado ainda penalizam a produtividade feminina em momentos decisivos da carreira.”

 

C&C — Você está construindo sua carreira em uma área que exige tempo, persistência e muita experimentação. O que ninguém vê por trás de uma descoberta ou de um resultado que finalmente funciona?

ACQ — Por trás de um artigo publicado em uma revista de alto impacto ou de uma patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), existem anos de trabalho silencioso, feito de rotinas exaustivas e muitos testes. Ninguém vê o cuidado na preparação minuciosa dos ensaios, os projetos submetidos a editais que nem sempre são aprovados nem a busca constante por recursos para manter os laboratórios funcionando.

Minha história com a pesquisa começou logo no primeiro ano da faculdade, e a química desafiadora sempre exigiu de mim muita resiliência. Há também um lado humano invisível: a conciliação da vida acadêmica com as rotinas pessoais, bem como o compromisso ético de formar e orientar novos alunos. Uma descoberta científica que “finalmente funciona” é apenas a ponta de um iceberg sustentado por uma rede imensa de cooperação, mentoria e, acima de tudo, pela escolha diária de não desistir diante das dificuldades.

 

C&C — Você faz parte de uma geração que entrou na ciência em um cenário diferente daquele vivido pelas pesquisadoras que vieram antes. O que ainda precisa mudar para que meninas e jovens mulheres consigam não apenas entrar na ciência, mas também construir uma carreira e permanecer nela?

ACQ — Avançamos muito graças ao caminho aberto por mulheres corajosas. Dou muito valor ao que foi conquistado por elas! Minha avó materna adorava estudar, mas infelizmente não pôde concluir o ensino fundamental, por questões de infraestrutura educacional na cidade onde morava, no interior de Pernambuco, e pelo simples fato de ser mulher, porque, naquela época, as mulheres eram educadas para casar. Porém, ela sabia da importância da educação e lutou para que todos os filhos estudassem, incluindo as mulheres.

Minha mãe também enfrentou preconceitos por ser mulher e querer fazer o ensino médio. Graças ao apoio de minha avó, ela concluiu não só o ensino médio, mas também se tornou a primeira bacharel em Direito de sua cidade natal. Eu não enfrentei essas dificuldades: essas duas mulheres incríveis abriram o caminho para que eu me tornasse a cientista que sou hoje. A história da minha família mostra, porém, que as mulheres sofreram um atraso histórico no acesso à educação em condições de igualdade com os homens. Herdei delas essa paixão pelo estudo e encontrei mentoras incríveis, como a professora Magna Suzana Alexandre Moreira (UFAL), que me guiou desde a iniciação científica e hoje é minha parceira de pesquisa.

Para que as jovens mulheres permaneçam na ciência e alcancem cargos de liderança, ainda precisamos superar barreiras estruturais severas. A maternidade e a sobrecarga do trabalho de cuidado ainda penalizam a produtividade feminina em momentos decisivos da carreira. Além disso, as áreas STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática — ainda têm predominância masculina nos espaços de tomada de decisão.

Tive a oportunidade de integrar uma parceria institucional da UFAL com a University of Wolverhampton, financiada pelo British Council, voltada justamente para políticas de equidade de gênero na ciência. Precisamos de instituições com políticas ativas de acolhimento, editais com critérios sensíveis à parentalidade, equidade no financiamento de projetos e incentivo contínuo às meninas desde a educação básica. Se eu pudesse deixar uma mensagem para todas as jovens que sonham com a pesquisa, seria simplesmente: estudem! O conhecimento é libertador, é o motor mais potente de transformação e ninguém pode tirá-lo de vocês.

 

“O conhecimento é libertador, é o motor mais potente de transformação e ninguém pode tirá-lo de vocês.”

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Picture of Chris Bueno

Chris Bueno

Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Chris Bueno é jornalista, escritora, divulgadora de ciências, editora-executiva da revista Ciência & Cultura, e mãe apaixonada por escrever (especialmente sobre ciência).
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Relacionados