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Presença feminina na Semana de 22

Mulheres que marcaram o período e têm influência na arte e cultura brasileira, aos poucos, ganham destaque e reconhecimento

A cada comemoração da Semana de Arte Moderna de 1922, a visibilidade das mulheres que participaram direta ou indiretamente desse movimento aumenta. Além de um destaque ainda maior para as duas figuras mais conhecidas, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, é possível conhecer e obter mais detalhes da trajetória e trabalho artístico de outras mulheres que marcaram esse período.

“Para um contingente de mais de 20 homens na Semana de 22, também tivemos algumas mulheres. Nas artes plásticas: Anita Malfatti, Zina Aita e ainda não há comprovação de Regina Gomide Graz. Em relação às musicistas, as pianistas Guiomar Novaes e Lucília Villa-Lobos (primeira esposa de Villa-Lobos) e a violinista Paulina D’Ambrósio. Mas o principal nome foi Anita Malfatti, incentivada por Mario de Andrade e Oswald de Andrade, homens além de seu tempo, que viram a importância da ousada artista”, destaca Maria de Lourdes Eleutério, professora da Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

Anita Malfatti teve bastante destaque, com mais de 20 obras expostas, segundo Ana Paula Cavalcanti Simioni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro “Mulheres Modernistas” (Edusp). “No campo da música, a intérprete Guiomar Novaes foi importante para atrair o público, já que era um nome internacionalmente reconhecido. Zina Aita e Regina Graz ficaram mais nas sombras. No caso de Zina Aita, em função de sua mudança para a Itália em 1925, ela, de certo modo, deixa o circuito brasileiro, voltando a expor aqui esporadicamente”, comenta.

“Foi nessa zona ambígua que diversas mulheres podiam ler, escrever, pintar, esculpir, desenhar. Todavia, elas não podiam se profissionalizar demais, pois essa conduta podia ser vista como ameaçadora.”

 

Já o caso de Regina Graz é mais complexo. “Há memórias de que ela participou da Semana, com textos publicados na imprensa da época e desenho de Yan de Almeida Prado (citado no livro de Aracy Amaral). No entanto, em entrevista à Amaral, anos mais tarde, ela disse que não participou do evento, o que aponta o quanto ainda há de aspectos em aberto em nossa história da arte, em particular sobre as artistas mulheres em se tratando da Semana de 22”, diz Simioni.

Tarsila do Amaral

Não há como falar de mulheres no Modernismo sem citar Tarsila do Amaral, tida como uma das mais aclamadas do movimento, mesmo sem ter estado na Semana de 1922. “Sua trajetória, nos anos 20, ao lado de Oswald de Andrade, evidencia a reciprocidade de influências que torna a obra de ambos, arrojada e densa, haja vista a tela Abaporu e seu duplo Manifesto Antropófago”, explica Eleutério, que acrescenta que Tarsila exerceu grande magnetismo entre seus pares.

E, é claro, temos que citar também Pagu que aos 19 anos, integrava o círculo de sociabilidade mais radical de 22: a vertente antropofágica, em 1929. “Ela participa da revista de Antropofagia com desenhos e é presença constante na casa de Tarsila e Oswald. À sua união com Oswald, tornada pública em fins de 1929, acrescenta-se a adesão do casal ao comunismo e a publicação do impresso ‘O homem do povo’, em que Pagu era responsável pela sessão ‘A mulher do povo’. De militância muito radical, ao publicar o romance proletário ‘Parque Industrial’, em 1933, Pagu o faz sob pseudônimo Mara Lobo, uma exigência do Partido”, detalha Eleutério.

Ser artista no Brasil nos anos 20

Nessa época, as mulheres, assim como os não alfabetizados, não tinham direito ao voto. “O código civil obrigava as mulheres casadas ou solteiras a terem anuência de seus pais, maridos ou responsáveis legais para estudar ou trabalhar. Ao mesmo tempo, acreditava-se que elas deveriam ter acesso a algum tipo de educação para melhor educar seus filhos, o que fazia com que algumas profissões fossem vistas como positivas: professoras, enfermeiras e parteiras”, destaca Simioni.

 

Figura 1. Zina Aita é considerada a precursora do modernismo em Minas Gerais
(“Jardineiro [Mulato]”, de Zina Aita. Reprodução)

 

As artes também eram toleradas desde que não colocassem “em perigo” as vocações “naturais’ naturais” das mulheres: casamento e maternidade. Foi nessa zona ambígua que diversas mulheres podiam ler, escrever, pintar, esculpir, desenhar. Todavia, elas não podiam se profissionalizar demais, pois essa conduta podia ser vista como ameaçadora. “Logo, críticos na época enfatizaram os ‘casais de artistas’ para propagar a ideia de que era possível ser artista sem ameaçar o lar, o casamento e a maternidade”. Alguns exemplos: Georgina e Lucilio de Albuquerque; Haydea e Manoel Lopes Santiago, Yvone e Eliseu Visconti”, enumera Simioni.

Tarsila e Oswald se encaixam nessa ideia de parceria: “mas de um modo bastante simétrico e calcado numa ousadia formal e de estilo de vida, diferentemente dos outros. E Anita Malfatti é uma mulher artista no singular, sem parceiros, sustentando-se sozinha e de sua pintura. Algo que hoje podemos ver como bastante ousado”, completa a pesquisadora.

Mulheres no Modernismo e Feminismo no Brasil

A questão do movimento feminista é posterior ao modernismo dos anos 1920, ou seja, não era uma pauta dos modernistas, aponta Regina Teixeira de Barros, Doutora em Estética e História da Arte pela USP. “Acho que a importância da participação feminina no modernismo cresce à medida que o tempo passa. Assim, quando olhamos para a história do modernismo, a participação feminina se torna importante. Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Regina Gomide Graz, entre outras, são hoje uma inspiração para as lutas feministas”, enfatiza.

Simioni concorda que não exista uma ligação direta entre as artistas e o movimento feminista daquele período. Segundo a pesquisadora, à medida que mais mulheres galgavam reconhecimento nas letras, nas artes, na imprensa e na vida profissional, os argumentos utilizados para lhes negar a cidadania e os direitos plenos se enfraqueciam. “Não por acaso, monta-se uma rede de apoio, entre feministas, escritoras e artistas, que redunda numa exposição em 1944, organizada pela União Universitária Feminina, em que todas estavam reunidas. Mas, mais importante que o evento é o processo, o modo com que tantas ações foram se encadeando para permitir o voto às mulheres, entre outros direitos, ainda que pautados sempre  pelas assimetrias de classe, raça, etc.”, afirma.

Valor ao longo do tempo

Desde os anos de 1970, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral têm tido bastante visibilidade devido a uma série de questões, como interesse do Estado, mercado e do campo intelectual. “Vale frisar o papel dos estudos de Aracy Amaral, Annateresa Fabris e Marta Rosseti Batista, fundamentais sobre a Semana, Tarsila e Anita. Zina Aita vem sendo pontualmente estudada, sobretudo por sua atuação em Minas Gerais, mas ainda carecemos de uma pesquisa de fôlego. Em Pernambuco, temos pesquisa da Madalena Zaccara sobre artistas modernistas do estado”, aponta Simioni.

“À medida que mais mulheres galgavam reconhecimento nas letras, nas artes, na imprensa e na vida profissional, os argumentos utilizados para lhes negar a cidadania e os direitos plenos se enfraqueciam.”

 

A sociedade foi dando valor ao movimento ao longo de sua celebração, a cada 10 anos, com pesquisas acadêmicas, publicações e reedições das obras e das exposições que tomam o modernismo como um eixo central para pensar a cultura brasileira.

“Mas, a meu ver, falta muito ainda, principalmente porque não só as mulheres que participaram da Semana de 22 têm relevância. Há artistas que estão no entorno do movimento e precisam ser estudadas, como a cantora e compositora Elsie Houston e a cantora Vera Janacopolos, que muito difundiram nossa música no exterior. Tem ainda Eugênia Álvaro Moreyra, jornalista, atriz, diretora de teatro e tradutora, que teve papel relevante como feminista. Oswald de Andrade afirmou sobre Eugênia que o que se deve a ela será calculado um dia. Portanto, há muito por pesquisar”, conclui Eleutério.

 

Capa. Anita Malfatti provocou violenta reação à sua exposição, causando grande impacto para os padrões da arte da época
(“Chinesa”, 1921/22, de Anita Malfatti. Óleo sobre tela. Reprodução)

Leia mais:

Mulheres modernistas: Estratégias de Consagração na Arte Brasileira
Ana Paula Cavalcanti Siminoni, Editora Edusp

Patrícia Piacentini

Patrícia Piacentini

Patrícia Piacentini é jornalista, especializada em jornalismo científico e redatora de conteúdo web freelancer.
Patrícia Piacentini é jornalista, especializada em jornalismo científico e redatora de conteúdo web freelancer.
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