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O Modernismo além de São Paulo

Para além de São Paulo, o modernismo se espalhou por todas as regiões do Brasil, revolucionando a arte, a cultura e a sociedade do país

O Modernismo no Brasil costuma ter data de nascimento: os três dias de fevereiro de 1922 da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. O dia 13 foi dedicado à pintura e à escultura; o dia 15 à literatura e o dia 17 à música. Não resta dúvida que foi um evento da elite paulistana. Afinal, entre os patrocinadores citam-se Paulo Prado, membro da oligarquia cafeeira paulista; René Thiollier, sobrinho da proprietária do Vale do Anhangabaú, criador da Revista da Academia Paulista de Letras e em cujo nome está no recibo de aluguel do Teatro Municipal; Alfredo Pujol, deputado em São Paulo por sete legislaturas; o empresário Antônio da Silva Prado Júnior; e Graça Aranha, que emprestou seu nome para conferir prestígio ao evento. Entre os palestrantes, nomes como Menotti del Picchia, Plínio Salgado e Cândido Motta Filho estiveram ao lado de Mário de Andrade e Oswald de Andrade no dia 15 de fevereiro, estes considerados os grandes precursores do modernismo brasileiro.

Mas em 1922 já existiam intelectuais e escritores, como o paraense Bruno de Menezes, o sergipano Silvio Romero, o baiano Sosígenes Costa, o fluminense Euclides da Cunha e o gaúcho Augusto Meyer, e artistas plásticos, como os irmãos pernambucanos Joaquim e Vicente do Rego Monteiro, que se afastaram de influências europeias por meio de abordagens que valorizavam a cultura nacional. Outros, como a pintora mineira Zina Aita, que participou da exposição que se instalou no Foyer do Teatro Municipal com oito obras, é raramente mencionada. Foi um evento da elite paulistana.

Ou seja, há quem afirme que o Modernismo no Brasil não teve início em 1922; São Paulo não é sua terra natal; e Mário de Andrade e Oswald de Andrade não são propriamente seus fundadores. Tão importantes quanto eles em matéria de poesia modernista são Manuel Bandeira, pernambucano radicado no Rio, e Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro. O primeiro com seu livro modernista “Libertinagem” e o segundo com “Alguma Poesia”, livros de 1930 em que reuniam sua produção esparsa dos anos 20. Anelito Pereira de Oliveira, poeta e professor visitante de Literaturas Africanas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que a centralidade do modernismo tantas vezes atribuída a São Paulo é “decorrente da cultura urbana de uma elite branca, em que Mário de Andrade, um sujeito negro, disfarçou sua negritude do mesmo modo que Machado de Assis”.

“O Modernismo é um processo”

Quem afirma é Cid Seixas Fraga Filho, escritor e jornalista nascido em Maragogipe, Bahia, que acrescenta: “Nada veio do nada. Sempre que temos esse tipo de recorte, devemos no mínimo desconfiar”.

Figura 1. Capa de uma edição da Revista Verde, de Cataguases (MG)
(Reprodução)

 

Nesse processo, muitos especialistas consideram que temos inclusive um pré-modernismo, noção cristalizada por Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, crítico literário, professor, escritor e líder católico brasileiro) que cunhou em 1939 esse termo para denominar o período entre 1916 e 1920. Anos depois, Tristão de Athayde reviu esta delimitação e considerou o Pré-modernismo como sendo o período entre 1875 e 1925. Posteriormente, o Alfredo Bosi, professor da Universidade de São Paulo (USP), adotou o termo em sua “História Concisa da Literatura Brasileira”. Atualmente, já não se fala em pré-modernismo versus modernismo e sim numa pluralidade de modernismos, dentre os quais se destaca o modernismo diretamente derivado da Semana de Arte Moderna.

Seja como for, a classificação de elementos da cultura como modernos está sempre provocando controvérsias. Cid Seixas, por exemplo, considera que Cruz e Souza, autor de “Missal” e de “Broquéis”, lançados em 1893, foi ultramoderno, ainda que seja considerado por muitos como pertencente ao simbolismo que, com o naturalismo e o realismo, constitui uma das fases do pré-modernismo. Doutor em Literatura pela USP e professor titular aposentado da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Seixas acrescenta: “A Semana foi mitificada, colocada num patamar de relevância estética, cultural, econômica e política em razão de um interesse da elite paulista de colocar São Paulo acima do Brasil”.

“Há quem afirme que o Modernismo no Brasil não teve início em 1922; São Paulo não é sua terra natal; e Mário de Andrade e Oswald de Andrade não são propriamente seus fundadores.”

 

Maria Teresa Boaventura, no texto “Semana de arte moderna: o que comemorar?”, publicado em 2013, aponta que a Semana foi apenas uma festa que consolidou e ampliou a atuação de um grupo formado por volta de 1917, depois do impacto da Exposição de Anita Malfatti, e agilizou o lançamento de obras, como o romance cinematográfico “Alma” de Oswald de Andrade, lançado em outubro, e “Pauliceia Desvairada”, de Mário de Andrade, e “O Homem e a Morte”, de Menotti del Picchia, lançados em novembro. E mais, a Semana contribuiu para deslocar o centro dos acontecimentos culturais da então capital do país para São Paulo.

O modernismo Brasil afora

Em debate sobre centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, promovido pelo jornal Folha de São Paulo em 07 de dezembro de 2021, o jornalista e escritor Ruy Castro criticou os discursos que valorizam o evento paulista em detrimento da efervescência cultural no Rio de Janeiro. Afinal, já em 1909 Lima Barreto lançava Recordações do Escrivão Isaías Caminha, romance sobre a trajetória de um jovem mulato do interior que sofre sérios preconceitos raciais no Rio, e em 1915 publicou em livro sua obra-prima O Triste Fim de Policarpo Quaresma, sobre os ideais e as frustrações de um funcionário público metódico e nacionalista fanático.

“Com toda a certeza, podemos afirmar que a busca por uma nova consciência cultural e artística brasileira já estava em curso antes de 1922 e em outras cidades, fora de São Paulo. O Rio de Janeiro teve um papel central nesse momento, e cidades como São Luís, Recife e outras também estavam buscando formas de discutir o país republicano e pós-escravagista”. Quem aponta é Giovanna Deltry, professora de Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que acrescenta: “no Rio de Janeiro, o jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo João do Rio (pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto) é considerado um pioneiro da crônica-reportagem iniciada em 1903. Organizadora do livro “Vida Vertiginosa”, de João do Rio, publicado originalmente em 1911, Giovanna Deltry cita também Gilka Machado, que lançou seu primeiro livro de poesias em 1915 e que se destacou pela produção poética de temática erótica, em uma época extremamente conservadora.

Figura 2. “Os Vândalos do Apocalipse e outras histórias: Arte e Literatura no Pará dos Anos 20”, de Aldrin de Moura Figueiredo.
(Reprodução)

 

Autor de livros como “Metrópole à Beira-mar e As Vozes da Metrópole”, que mostram o dinamismo e a modernidade da produção cultural da capital do Brasil nos anos 1920, Ruy Castro afirmou no debate promovido pela Folha que é necessário discutir a ideia de que o resto do Brasil vivia um atraso cultural monumental e que tenha sido necessário “que dois gênios, Mário e Oswald de Andrade, viessem nos salvar daquele abismo de soneto parnasiano e pronome bem-colocado, que é o que nós fazíamos, segundo eles, o tempo todo aqui”. E ironizou: “os modernistas de São Paulo fizeram a Semana não para atualizar o Brasil, mas para atualizar a si mesmos”.

A centralidade do Modernismo atribuída a São Paulo abafou por muitas décadas obras e iniciativas culturais importantes. Em Belém de 1921, um grupo de intelectuais que usufruíam do privilégio de receber notícias da vanguarda europeia antes dos portos do Sudeste criou os “Vândalos do Apocalipse” — posteriormente “Academia do Peixe Frito” — cujo expoente era o poeta Bruno de Menezes e que tinham na Casa da rua João Diogo, 26, talvez o mais importante endereço do primeiro Modernismo paraense.

Em Cataguases (MG), Humberto Mauro apresentou em 1926 “Na Primavera da Vida”, sua primeira produção cinematográfica, que buscava uma linguagem no cinema nacional desvinculada da tradição francesa. É também em Cataguases que surge em 1927 a Revista Verde, periódico mensal de arte e cultura do Movimento Verde, que contava com a participação do romancista e poeta Rosário Fusco e dos poetas Ascânio Lopes e Enrique de Resende, todos considerados modernistas. Rosário Fusco, por exemplo, é considerado o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, precursor do suprarrealismo literário. A Revista Verde foi editada entre 1927 e 1929, e contou com a colaboração de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil. A pintora mineira Zina Aita participou da exposição que se instalou no Foyer do Teatro Municipal com oito obras e é raramente lembrada.

Na Bahia, três grupos são considerados precursores do Modernismo em Salvador. Um deles é a Academia dos Rebeldes, criada provavelmente em 1927 e da qual faziam parte Jorge Amado, Pinheiro Viegas, Sosígenes Costa, Guilherme Dias Gomes, Walter da Silveira, entre outros. Outro é o da revista Arco & Flexa: mensário de cultura moderna, liderado por jovens cujas idades variavam entre 16 e 22 anos, lançada em novembro de 1928. E um terceiro, também liderado por jovens que se reuniam na “Baixinha”, localizada entre as ladeiras do Pelourinho, do Passo e do Carmo, e a faixa que liga o Taboão à Baixa dos Sapateiros, e que lançou em 1928 a Revista Samba, que teve apenas quatro números.

Um caso emblemático é o de Godofredo Filho, com “Samba Verde”, coletânea de 13 poemas escritos em 1925. Cid Seixas, em seu livro “A Literatura na Bahia: tradição e modernidade”, aponta que “depois de ter visto as primeiras provas, em 1928, Godofredo recolheu a edição do seu livro antes do lançamento, argumentando que este não mais representava a deriva, ou o caminho, da sua pesquisa estética”. Para Cid Seixas, trata-se de um exemplo de auto apagamento de escritores baianos no início do século, em contraposição aos escritores de Pernambuco na época.

Ou seja, vários autores, muitas cidades e vários ramos da cultura, como pintura, dança, literatura e música, foram eclipsados por São Paulo.

Os esquecidos da festa do Modernismo paulista eram negros e pobres

Para Anelito de Oliveira, “é necessário pensar a Semana de 22 no bojo de um processo histórico”, cujas raízes são a Abolição da Escravatura em 1888 e a Proclamação da República em 1889. A partir daí observa-se uma modernização do país, com início de desenvolvimento industrial e construção de estradas de ferro, mas com a economia ainda dependente da agricultura e com a população negra mantida à margem da sociedade brasileira.

Figura 3. Lino Guedes – Poeta moderno nascido em Socorro (SP) e que lançou seu primeiro livro, “Luiz Gama e sua individualidade literária”, em 1924.
(Reprodução)

 

Autor de “Três Festas: A Love Song As Monk”, livro lançado em 2004 e que discorre sobre o conflito entre o mundo exterior e o eu interior, Anelito de Oliveira destaca que não se pode avaliar o papel que é conferido a Mário de Andrade, Oswald de Andrade e tantos outros escritores no Modernismo brasileiro sem considerar a questão racial. Anelito se apoia no geógrafo Milton Santos para afirmar que fatos são relações: “levo em consideração as relações entre história, estética e ideologia”. E acrescenta: “eu vejo no sujeito Mário, na sua subjetividade, todo um conjunto de conflitos que só se explica pela sua negritude”.

Modernistas negras e negros estão por todo país. No Pará, o poeta e folclorista Bruno de Meneses, foi uma espécie de anunciador do modernismo em Belém, com sua poesia que evoca a raça negra, a cidade que o tempo levou, as tradições e o amor. Negros, como o escritor carioca Lima Barreto, o poeta mineiro Agenor Barbosa, o escritor carioca Lima Barreto, o poeta paulista Lino Guedes, os pintores cariocas João e Arthur Timótheo da Costa, e o poeta catarinense João da Cruz e Sousa ficaram esquecidos na narrativa que se faz em torno de um Modernismo Paulista.

“A centralidade do Modernismo atribuída a São Paulo abafou por muitas décadas obras e iniciativas culturais importantes.”

 

O poeta mineiro Agenor Barbosa é um exemplo desse esquecimento. Ele nasceu em Montes Claros e mudou-se para São Paulo em 1917, depois de morar quatro anos em Belo Horizonte. Em São Paulo conheceu Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia e integrou o grupo que planejou as atividades da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Embora esquecido, no Programa oficial Agenor Barbosa aparece no segundo dia como integrante do grupo que fez o recital de poesias após a palestra de abertura de Menotti Del Picchia. E mais: foi o único a receber aplausos naquela sessão. Talvez porque seus versos não fossem ainda tão modernistas.

Para Giovanna Deltry, entre a diversidade cultural e artística da época, “não há como compreender a modernidade do início do século sem estudar a importância da caricatura — veloz, ágil e popular — e a presença dos cronistas e colunistas nas revistas e jornais cariocas”. E ressalta “a importância dos jornais do período por onde passaram cronistas e caricaturistas, como Kalixto Cordeiro (K.Lixto) e Raul Pederneiras, que recriavam com precisão cenas de capoeiragem e bailes populares e festas, como o carnaval e a Festa da Penha”. A musicalidade negra do Rio de Janeiro carrega um elemento indelével de uma modernidade que, apesar do racismo da sociedade, não é capaz de apagá-la, aponta Giovanna Deltry que acrescenta: “numa perspectiva contemporânea, não é mais possível colocar os paulistas, ou nenhum outro grupo de intelectuais, como “descobridores” dos músicos negros”. Pixinguinha, Os Oito Batutas, João da Baiana, Hilário Jovino, Tia Ciata e Donga são alguns dos nomes que inauguraram uma presença musical negra no Rio de Janeiro e que, mais tarde, ganharam o mundo.

E mais, apesar de trajetórias diversas, Lima Barreto — considerado por Octávio Ianni um dos fundadores da literatura afro-brasileira — e João do Rio — um grande tradutor de Oscar Wilde que em 1902 foi recusado pelo Itamaraty por ser “gordo, amulatado e homossexual” — têm em comum a observação crítica da vida urbana. Giovanna Deltry complementa: “Sem aderirem por completo às expressões culturais populares, como acontece a partir de 1922, ambos são precursores por escreverem sobre o carnaval, a favela, os subúrbios, a modinha etc. Em suma, os aspectos que o Estado desejava apagar de uma vez por todas, devido às origens negras e pobres”.

 

Capa. Zina Aita, pintora nascida em Belo Horizonte, foi decisiva no modernismo brasileiro
(“Homens Trabalhando”, de Zina Aita. Reprodução)
Leonor Assad

Leonor Assad

Leonor Assad é engenheira agrônoma, doutora em Ciência do Solo, especialista em divulgação científica, professora titular aposentada da Universidade Federal de São Carlos, e apaixonada por trabalhar e escrever sobre Ciência.
Leonor Assad é engenheira agrônoma, doutora em Ciência do Solo, especialista em divulgação científica, professora titular aposentada da Universidade Federal de São Carlos, e apaixonada por trabalhar e escrever sobre Ciência.
1 comment
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