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Ayda Ignez Arruda e a lógica do impossível

Pioneira da lógica paraconsistente, professora da Unicamp ajudou a redefinir os limites da matemática e abriu caminho para gerações de pesquisadoras em um campo historicamente masculino.

 

Quando se fala em lógica matemática, costuma-se imaginar um território árido, abstrato e distante da vida concreta. A trajetória de Ayda Ignez Arruda desmonta esse estereótipo. Matemática de projeção internacional, pesquisadora central na criação das lógicas paraconsistentes e uma das fundadoras da tradição brasileira em lógica matemática, Ayda Ignez Arruda construiu sua carreira entre provas formais, disputas intelectuais, viagens acadêmicas e enfrentamentos institucionais — tudo isso em um período em que mulheres eram exceção absoluta nesse campo.

Nascida em 27 de junho de 1936, em Lages, Santa Catarina, Ayda cresceu em um ambiente que valorizava a educação e, ainda jovem, deixou sua cidade natal para seguir estudos em Curitiba. Ali, na então Faculdade de Filosofia da Universidade Católica do Paraná, formou-se bacharel em Matemática em 1958 e licenciada em 1959. Foi nesse contexto que conheceu o professor Newton Carneiro Affonso da Costa, personagem central na história da lógica no Brasil e que se tornaria seu orientador, parceiro intelectual e colaborador ao longo de toda a vida acadêmica.

Desde cedo, Ayda Ignez Arruda se destacou pela dedicação e pela capacidade de transitar entre rigor técnico e reflexão conceitual. Ainda no início dos anos 1960, passou a integrar o grupo que ficaria conhecido como Escola de Curitiba, berço da pesquisa em lógica matemática no país. Em um ambiente marcado por seminários intensos, poucos participantes e debates sofisticados, Ayda Ignez Arruda foi rapidamente reconhecida como uma das mentes mais promissoras do grupo.

 

A lógica que aceita contradições

O principal legado científico de Ayda Ignez Arruda está ligado à lógica paraconsistente — um campo que desafia um dos pilares da lógica clássica: a ideia de que, diante de uma contradição, qualquer conclusão se torna válida. Em sistemas lógicos tradicionais, se uma teoria contém uma inconsistência, ela colapsa. A lógica paraconsistente propõe justamente o contrário: é possível lidar com contradições de maneira controlada, sem que o sistema inteiro se torne trivial.


(Foto: Acervo CLE Unicamp. Reprodução)

 

Essa ideia, que hoje encontra aplicações em áreas como inteligência artificial, ciência da computação, direito e filosofia, era profundamente inovadora nas décadas de 1960 e 1970. Ayda Ignez Arruda foi a primeira pesquisadora a formalizar matematicamente as ideias do lógico russo Nicolai A. Vasiliev, transformando intuições filosóficas em sistemas formais rigorosos. O resultado desse trabalho pioneiro foi decisivo para a consolidação das lógicas paraconsistentes como um campo legítimo de investigação científica.

Em 1966, Ayda Ignez Arruda defendeu sua tese de doutorado e livre-docência, intitulada Considerações sobre os Sistemas Formais NFn, sob orientação de Newton da Costa, na Universidade Federal do Paraná. O trabalho marcou sua inserção definitiva no cenário internacional da lógica matemática e consolidou sua posição como colaboradora central no desenvolvimento dos sistemas paraconsistentes.

 

Da Escola de Curitiba à Unicamp

Em 1968, um movimento decisivo mudou o rumo da lógica no Brasil — e da própria carreira de Ayda Ignez Arruda. Newton da Costa se transferiu para Campinas para integrar a recém-criada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), levando consigo o projeto de construir ali um novo polo de excelência em lógica e fundamentos da matemática. A pesquisadora foi convidada a integrar o corpo docente do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IMECC) como professora titular da área.

 

“Ayda Ignez Arruda foi a primeira pesquisadora a formalizar as ideias de Vasiliev, dando origem aos sistemas de lógica paraconsistente.”

 

Sua chegada à Unicamp marca o início do chamado Grupo de Lógica de Campinas, que rapidamente se tornou referência nacional e internacional. Ayda Ignez Arruda não apenas deu continuidade às pesquisas iniciadas em Curitiba, como ampliou o alcance da área por meio da organização de eventos, seminários e intercâmbios acadêmicos. Em 1975, por exemplo, organizou na Unicamp o Simpósio de Lógica Matemática que teve como principal conferencista Alfred Tarski, um dos maiores lógicos do século XX — um feito notável para a ciência brasileira da época.

O grupo ganhou novo impulso com a criação, em 1977, do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), do qual Ayda Ignez Arruda foi membro fundadora. O CLE se tornaria um espaço central para a articulação entre lógica, filosofia e história da ciência no Brasil, reunindo pesquisadores de diferentes áreas e consolidando uma tradição intelectual que perdura até hoje.

 

Ciência, instituições e liderança

Além da produção científica, Ayda Ignez Arruda exerceu papel fundamental na construção institucional da lógica no país. Foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Lógica (SBL), criada em 1979, tendo ocupado cargos de vice-presidência e presidência entre 1981 e 1983. Em um período em que mulheres raramente ocupavam posições de liderança científica, sua atuação ganhou destaque inclusive na imprensa.


(Foto: Acervo CLE Unicamp. Reprodução)

 

Na Unicamp, a pesquisadora também assumiu responsabilidades administrativas relevantes. Foi chefe do Departamento de Matemática e, em abril de 1980, tornou-se diretora do IMECC, cargo que ocupou até sua morte. Durante esse período, enfrentou momentos turbulentos, como a intervenção sofrida pela universidade em 1981, da qual foi afastada temporariamente e à qual retornou após decisão judicial.

Mesmo diante das demandas administrativas, manteve intensa atividade acadêmica. Foi professora visitante e conferencista em universidades da França, Polônia, Chile e outros países, participou de bancas de doutorado, orientou estudantes de pós-graduação e publicou trabalhos em periódicos internacionais de prestígio.

 

Uma mulher à frente de seu tempo

Pensar a trajetória de Ayda Ignez Arruda também exige reconhecer seu pioneirismo como mulher em um campo historicamente masculino. Em meio a um ambiente científico dominado por homens, a pesquisadora construiu autoridade intelectual, liderou grupos de pesquisa, ocupou cargos institucionais e deixou uma produção científica de impacto duradouro. Não por acaso, é frequentemente lembrada como uma das primeiras mulheres a atuar de forma decisiva na lógica matemática no Brasil.

 

“Em um campo dominado por homens, Ayda Ignez Arruda construiu autoridade intelectual, liderou instituições e deixou um legado duradouro para a matemática brasileira.”

 

Ayda Ignez Arruda faleceu precocemente em 13 de outubro de 1983, em Campinas, aos 47 anos, vítima de câncer. Sua morte interrompeu uma carreira em pleno vigor, mas não apagou seu legado. Em 1985, a Unicamp dedicou à sua memória o VII Simpósio Latino-Americano de Lógica Matemática. Em 1990, o CLE publicou um de seus últimos trabalhos, N. A. Vasiliev e a lógica paraconsistente. Seu arquivo pessoal, hoje preservado no Centro de Lógica, reúne centenas de documentos que testemunham sua importância científica e institucional.

A história da lógica paraconsistente no Brasil não pode ser contada sem Ayda Ignez Arruda. Sua contribuição foi técnica, conceitual, institucional e simbólica. Ao formalizar sistemas lógicos que aceitam contradições sem colapsar, ela ajudou a ampliar os horizontes da matemática. Ao ocupar espaços de liderança, abriu caminhos para outras mulheres na ciência. E ao formar grupos, instituições e redes, deixou uma herança que segue viva na pesquisa contemporânea.

 

Capa: CLE Unicamp. Reprodução
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