Da geração espontânea ao “maior erro” de Einstein, histórias que mostram que o conhecimento avança tropeçando
A ciência costuma ser associada a certezas, verdades sólidas e respostas definitivas. Mas essa imagem está longe da realidade. O conhecimento científico avança, na maior parte do tempo, por tentativas, hipóteses provisórias, erros persistentes e revisões dolorosas. Teorias hoje consideradas absurdas já foram consensos absolutos, defendidos por grandes nomes, instituições religiosas e academias científicas. Olhar para esses equívocos históricos não é um exercício de escárnio, mas uma forma de entender como a ciência funciona de fato: errando, corrigindo-se e, aos poucos, se aproximando de descrições mais precisas da realidade.
Ao longo da história, ideias equivocadas moldaram práticas médicas, explicações sobre a vida, modelos do Universo e até missões espaciais milionárias. Em comum, esses erros revelam os limites técnicos de cada época, a força das crenças culturais e a dificuldade humana de abandonar teorias confortáveis. Também mostram que questionar o consenso nunca foi simples — e quase sempre teve um custo pessoal alto para quem ousou fazê-lo.
Geração espontânea: quando a vida parecia surgir da matéria inanimada
Essa teoria provavelmente é familiar para quem passou pelas aulas de Biologia no ensino fundamental. Muito antes da existência de microscópios, da teoria celular ou do conceito de microrganismos, a geração espontânea surgiu como uma explicação plausível para um problema básico: de onde vêm os seres vivos?
Durante séculos — na verdade, milênios — acreditou-se que a vida poderia surgir diretamente da matéria sem vida. Larvas “apareciam” em carnes em decomposição, ratos “nasciam” do lixo acumulado e insetos brotavam do nada. A ideia parecia tão evidente aos sentidos que dispensava maiores explicações. Na Europa cristã, a Bíblia era frequentemente usada como argumento: se Deus criou o homem a partir do pó, por que não criaria larvas ou insetos da matéria orgânica?
“O conhecimento científico avança, na maior parte do tempo, por tentativas, hipóteses provisórias, erros persistentes e revisões dolorosas.”
Mas essa noção é ainda mais antiga. Na Grécia Antiga, Aristóteles já defendia que alguns animais poderiam surgir espontaneamente, sem necessidade de reprodução. Antes dele, o filósofo pré-socrático Anaximandro imaginava que os primeiros seres humanos teriam se desenvolvido dentro de animais semelhantes a peixes, sendo libertados apenas quando capazes de sobreviver sozinhos. Segundo o escritor romano Censorino, Anaximandro acreditava que “da água aquecida e da terra emergiam peixes, dentro dos quais os homens se desenvolveram até a puberdade”.
Pode soar estranho hoje, mas até o século XIX a geração espontânea era amplamente aceita. Alguns estudiosos chegaram a publicar verdadeiros “livros de receitas” para criar animais, como a famosa instrução de colocar manjericão entre dois tijolos para gerar escorpiões.
A desmontagem dessa ideia foi lenta e experimental. Em 1668, o italiano Francesco Redi realizou um teste simples e elegante: colocou pedaços de carne em frascos abertos, fechados e cobertos com gaze. Larvas só surgiram onde as moscas tinham acesso direto à carne. Ainda assim, o próprio Redi hesitou em abandonar totalmente a teoria.
O golpe final veio quase dois séculos depois, em 1859, com o experimento de Louis Pasteur. Usando frascos de “pescoço de cisne”, ele demonstrou que microrganismos não surgiam espontaneamente, mas vinham do ambiente — inclusive do ar. Ao quebrar o gargalo e permitir a entrada direta do ar, o caldo estéril rapidamente se enchia de vida microscópica. A geração espontânea, enfim, caía por terra.
Miasmas: quando doenças eram culpa do “ar ruim”
Antes da descoberta dos microrganismos patogênicos, doenças eram associadas a odores, vapores e emanações invisíveis. A teoria dos miasmas — do grego míasma, poluição — afirmava que enfermidades como cólera, peste negra e clamídia eram causadas pela inalação de ar contaminado por matéria orgânica em decomposição.
A ideia atravessou séculos e continentes, sendo aceita tanto na Europa quanto na China. No início do século XIX, alguns médicos chegaram a sugerir que o miasma poderia causar até obesidade, dependendo do tipo de ar inalado. Em um mundo sem saneamento básico, a associação entre mau cheiro e doença parecia lógica.
A teoria só começou a ruir no final do século XIX, com o avanço da microbiologia e o surgimento da teoria germinal das doenças, que demonstrou que microrganismos específicos causam doenças específicas. Ainda assim, o legado dos miasmas não foi totalmente negativo: a obsessão em eliminar odores levou cidades a investir em limpeza urbana, coleta de lixo e drenagem — medidas que, de fato, reduziram doenças, ainda que pelos motivos errados.
Geocentrismo: quando o Universo girava ao nosso redor
Durante séculos, o modelo geocêntrico dominou a astronomia ocidental. A Terra era considerada imóvel no centro do Universo, com o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas girando ao seu redor. A ideia fazia sentido à observação direta: basta olhar para o céu para ter a impressão de que tudo se move enquanto nós permanecemos parados.
Astrônomos gregos como Ptolomeu elaboraram modelos cada vez mais complexos para explicar inconsistências, como a órbita retrógrada de Marte. Surgiram os famosos epiciclos — verdadeiras “gambiarras matemáticas” que mantinham a teoria de pé, mesmo diante de evidências contrárias.
Embora alguns pensadores antigos, como Filolau, já cogitassem modelos não geocêntricos, o peso filosófico e religioso da centralidade da Terra era enorme. O geocentrismo não era apenas uma teoria astronômica, mas uma afirmação simbólica sobre a importância da humanidade no Cosmos.
A virada veio no século XVI, com Nicolau Copérnico e sua obra “De revolutionibus orbium coelestium”. Galileu Galilei, usando o telescópio, reforçou o modelo heliocêntrico, mas pagou caro: foi condenado pela Igreja Católica por defender uma ideia considerada herética. O erro científico persistiu por séculos, sustentado mais por crença e poder do que por evidência.

Figura 1. Nicolau Copérnico
(Divulgação)
Sangue, bile e personalidade: A teoria dos quatro humores e a medicina do desequilíbrio
Criada por Hipócrates há cerca de 2.500 anos, a teoria dos quatro humores dominou a medicina ocidental até a era moderna. Segundo ela, o corpo humano era regido pelo equilíbrio entre sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. Doenças físicas e até traços de personalidade seriam resultado de desequilíbrios nesses fluidos.
Durante séculos, tratamentos como sangrias, dietas extremas e purgações foram aplicados com base nessa lógica. A teoria atrasou diagnósticos e tratamentos mais eficazes, mas também representou um avanço ao tentar explicar doenças de forma natural, afastando explicações exclusivamente sobrenaturais.
Quando Marte ficou perto demais: O erro de unidade que custou US$ 125 milhões
Nem todos os erros científicos pertencem ao passado distante. Em 1999, a NASA perdeu a sonda Mars Climate Orbiter, projetada para ser o primeiro satélite meteorológico de Marte. O motivo foi surpreendentemente banal: uma falha na conversão de unidades.
Enquanto a NASA utilizava o sistema métrico, uma empresa contratada forneceu dados em unidades do sistema anglo-saxão. O erro não foi detectado a tempo, e a sonda se aproximou demais do planeta, sendo destruída ao entrar na atmosfera marciana. A investigação oficial apontou falhas de comunicação, verificação e integração entre equipes — um lembrete de que ciência e tecnologia também dependem de processos humanos.
O “maior erro” de Einstein: A constante cosmológica e um Universo em expansão
Em 1917, Albert Einstein introduziu a constante cosmológica em suas equações para manter um Universo estático, como se acreditava na época. Anos depois, observações de Edwin Hubble mostraram que as galáxias estavam se afastando umas das outras: o Universo estava em expansão.
“Os erros científicos não são apenas falhas: são motores do progresso.”
Einstein teria chamado a constante cosmológica de “o maior erro da minha vida”. Curiosamente, décadas depois, o conceito ressurgiu associado à energia escura, mostrando que até erros podem ganhar novos significados à luz de dados posteriores.
Mãos limpas salvam vidas: Semmelweis e a ideia rejeitada da higiene
Hoje parece óbvio, mas no século XIX a ideia de que médicos deveriam lavar as mãos antes de atender pacientes foi recebida com escárnio. Ignaz Semmelweis observou que a simples higienização reduzia drasticamente a mortalidade em maternidades. Ainda assim, foi ridicularizado por colegas e rejeitado pela academia médica de Viena.
As evidências eram claras, mas a implicação era incômoda: médicos estavam causando a morte de pacientes. Somente anos depois, com a teoria germinal das doenças, suas ideias foram reconhecidas. Semmelweis morreu sem ver seu trabalho plenamente aceito.

Figura 2. Ignaz Semmelweis
(Divulgação)
Errar é ciência: O valor dos equívocos no avanço do conhecimento
Os erros científicos não são apenas falhas: são motores do progresso. Eles revelam limites, forçam revisões e abrem caminhos inesperados. Como resumiu o filósofo da ciência Douglas Allchin, “errar é ciência”. Aprender com os erros significa abandonar ideias queridas, enfrentar resistências e aceitar que o conhecimento é sempre provisório.
Talvez algumas teorias atuais pareçam ingênuas no futuro. Talvez cientistas hoje ridicularizados sejam celebrados amanhã. A história mostra que a ciência avança não apesar dos erros, mas por causa deles.


