Intelectual negro brasileiro ampliou a geografia ao integrar espaço, economia e sociedade, oferecendo uma das críticas mais profundas à globalização contemporânea
Quando Milton Santos analisava uma cidade, ele não via apenas ruas, prédios e fluxos. Via relações de poder, desigualdades históricas, disputas simbólicas e, sobretudo, pessoas tentando viver em um mundo organizado para excluí-las. Essa forma de olhar — profundamente humana, crítica e política — transformou a geografia e projetou o intelectual baiano como um dos maiores pensadores do século XX, reconhecido mundialmente por ampliar os estudos geográficos para além dos mapas, integrando sociologia, economia, filosofia e ética.
Nascido em 1926, em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, filho de professores primários, Milton Almeida dos Santos construiu uma trajetória singular. Formado inicialmente em Direito pela Universidade Federal da Bahia, encontrou na geografia o campo capaz de reunir suas inquietações sobre injustiça social, desenvolvimento desigual e uso político do território. Doutorou-se na França, na Universidade de Strasbourg, e ao longo da vida lecionou em algumas das mais prestigiadas universidades do mundo, como a Sorbonne, Columbia, Toronto, Dar es Salaam e a Universidade de São Paulo, onde se tornou professor emérito.

(Foto: Site Milton Santos. Reprodução)
Seria, no entanto, um equívoco reduzir Milton Santos a uma carreira acadêmica brilhante. Negro em uma intelectualidade majoritariamente branca, enfrentou o racismo institucional de forma direta e cotidiana — como quando foi impedido de entrar na USP por um porteiro que não acreditava que um homem negro pudesse ser professor daquela universidade. Essa experiência, longe de ser episódica, atravessou sua vida e ajudou a moldar um pensamento atento às desigualdades estruturais, ainda que a questão racial não fosse o eixo central de sua obra.
A ditadura civil-militar instaurada em 1964 interrompeu brutalmente sua trajetória no Brasil. Preso por sua atuação política, Milton Santos foi forçado ao exílio e passou 13 anos fora do país, vivendo e ensinando em países como França, Canadá, Tanzânia e Venezuela. Paradoxalmente, foi esse deslocamento forçado que consolidou sua projeção internacional e aprofundou sua compreensão do funcionamento desigual do mundo, especialmente a partir das periferias globais.
Ao retornar ao Brasil, em 1977, Santos já era um intelectual maduro, com um pensamento sistematizado e radicalmente crítico. Sua contribuição mais duradoura talvez esteja na forma como redefiniu o conceito de espaço geográfico. Para ele, o espaço não é um simples palco onde a história acontece, mas um “conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações”. Em outras palavras, não se pode separar as infraestruturas, as tecnologias e os objetos materiais das práticas sociais, políticas e econômicas que os produzem e utilizam. O espaço é, ao mesmo tempo, produto e produtor da sociedade.
Espaço, espaços
Essa formulação, apresentada de maneira exemplar em “A Natureza do Espaço” (1996), rompeu com visões deterministas e positivistas da geografia, predominantes até então. Milton Santos defendia uma “geografia nova”, capaz de compreender o espaço como construção social e histórica, atravessada por conflitos, interesses e desigualdades. Não por acaso, sua obra dialoga intensamente com o pensamento marxista, ainda que sem dogmatismos.
“Para Milton Santos, o espaço geográfico não é cenário neutro, mas produto vivo das relações sociais, econômicas e políticas.”
Foi também observando as cidades dos países pobres que Santos elaborou uma de suas teorias mais influentes: a dos dois circuitos da economia urbana, apresentada em “O Espaço Dividido” (1979). Segundo ele, as cidades do chamado Terceiro Mundo são estruturadas por um circuito superior, moderno, capital-intensivo e conectado à economia global, e por um circuito inferior, formado por atividades informais, trabalho intensivo e baixa tecnologia, voltado à sobrevivência local. Esses dois circuitos coexistem, se interligam, mas não se equilibram: o circuito inferior é estruturalmente subordinado ao superior.
Essa análise ajudou a desmontar explicações simplistas sobre “atraso” urbano, mostrando que a informalidade não é resíduo do subdesenvolvimento, mas parte funcional de um sistema global desigual. A cidade, para Milton Santos, é simultaneamente lugar da globalização e da resistência — espaço onde se impõem as lógicas do capital, mas também onde emergem solidariedades, culturas populares e formas alternativas de existência.

(Foto: Site Milton Santos. Reprodução)
Essa ambivalência reaparece de forma contundente em sua crítica à globalização. Muito antes de o termo se popularizar, Santos já analisava seus efeitos e alertava para seus riscos. Em “Por uma Outra Globalização” (2000), talvez sua obra mais conhecida fora da geografia, ele propôs uma leitura em três camadas: a globalização como fábula (a narrativa otimista vendida pelo mercado), como perversidade (a realidade da exclusão, da concentração de riqueza e da precarização da vida) e como possibilidade.
Tiranias
É nesse último ponto que reside o caráter singularmente esperançoso de seu pensamento. Apesar de denunciar a “tirania do dinheiro” e a “tirania da informação”, Santos acreditava que a própria globalização criava as condições técnicas e comunicacionais para sua superação. As novas tecnologias, quando apropriadas pelos povos, poderiam fortalecer redes solidárias, culturas locais e lutas coletivas. Para ele, das periferias do mundo poderia emergir uma outra racionalidade, mais justa e mais humana.
“Ao estudar as cidades dos países pobres, o geógrafo revelou que a informalidade não é falha do sistema, mas parte estrutural dele.”
Essa confiança nas cidades como espaços de liberdade cultural e de invenção social contrasta com leituras apocalípticas do presente. Mesmo crítico feroz do capitalismo, Milton Santos nunca abriu mão da ideia de transformação. Acreditava que questionar consensos era uma tarefa intelectual e política fundamental — e fez disso sua marca.
Autor de mais de 40 livros, traduzidos em diversos idiomas, consultor de organismos internacionais como a OIT e a Unesco, vencedor do Prêmio Vautrin Lud em 1994 — o mais importante da geografia mundial —, Milton Santos deixou um legado que segue mobilizando pesquisadores, movimentos sociais e leitores muito além da academia. Seu pensamento permanece atual porque continua nos ajudando a entender por que o mundo funciona como funciona — e, sobretudo, como poderia funcionar de outro modo.


