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“A transformação das cidades exige mulheres que combinem rigor intelectual, capacidade técnica e compromisso político”

Confira entrevista com Izabele Colusso, coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNISINOS

 

Em um momento em que as cidades se tornaram palco central de crises ambientais, sociais e climáticas, discutir ciência, gênero e planejamento urbano é mais do que oportuno — é urgente. Nesta entrevista, conversamos com Izabele Colusso, arquiteta e urbanista, doutora em Planejamento Urbano e Regional e uma das vozes atentas às transformações contemporâneas do território urbano no Brasil. Coordenadora e docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unisinos e da especialização em CIDADES – Gestão Estratégica do Território Urbano, Izabele Colusso atua na fronteira entre produção acadêmica, formulação de políticas públicas e prática profissional, participando da elaboração de planos diretores, projetos de mobilidade, habitação e paisagem urbana. “Temas como cuidado, diversidade, uso cotidiano da cidade e dos espaços públicos, mobilidade ativa e habitação digna ainda são vistos como ‘menores’, quando na verdade são centrais para a qualidade urbana”, defende. A partir de sua trajetória, a entrevista propõe refletir sobre o papel das mulheres na ciência e no urbanismo, os desafios de pensar cidades mais justas e resilientes e como o conhecimento técnico-científico pode — e deve — dialogar com a vida cotidiana e os futuros possíveis das cidades. “O equilíbrio está em tratar o planejamento urbano como um campo técnico e político (juntos, indissociáveis), no sentido mais nobre do termo: um espaço de mediação entre conhecimento especializado, escuta social e escolhas éticas”, pontua a pesquisadora.

Confira a entrevista completa:

 

Ciência & Cultura – O planejamento urbano costuma ser visto como um campo técnico, mas suas decisões moldam profundamente a vida cotidiana. Como equilibrar rigor científico e sensibilidade social ao pensar cidades mais justas e habitáveis?

Izabele Colusso – O rigor científico é indispensável para compreender processos urbanos, e sendo a cidade um organismo vivo e um sistema complexo — que envolve dados, diagnósticos territoriais, leitura de dinâmicas econômicas, ambientais e sociais, se torna insuficiente quando não dialoga com a experiência cotidiana das pessoas que vivem a cidade. O equilíbrio está em tratar o planejamento urbano como um campo técnico e político (juntos, indissociáveis), no sentido mais nobre do termo: um espaço de mediação entre conhecimento especializado, escuta social e escolhas éticas. Planejar cidades mais justas, resilientes e sustentáveis exige traduzir evidências técnicas em decisões que reconheçam desigualdades históricas, conflitos territoriais e diferentes formas de morar e de perceber o território, incorporando a dimensão social como parte do próprio método científico.

 

“Mulheres em espaços de decisão no planejamento urbano frequentemente precisam comprovar sua competência técnica repetidas vezes.”

 

 

C&C – Ao transitar entre universidade, consultoria e produção de conteúdo digital, você atua em diferentes arenas de produção e circulação do conhecimento. Em qual delas o reconhecimento como cientista e especialista ainda é mais desafiador — e por quê?

IC – O reconhecimento é mais desafiador justamente nos espaços híbridos, onde o conhecimento acadêmico precisa dialogar com a prática profissional e com o debate público. A universidade ainda tende a valorizar trajetórias mais lineares, enquanto a atuação em consultoria, políticas públicas e produção de conteúdo muitas vezes é vista como “aplicada demais” ou distante da teoria. O interessante é que é justamente nesses espaços que o conhecimento científico é testado, tensionado e traduzido em impacto real. O desafio está menos na falta de rigor e mais na necessidade de ampliar os critérios de reconhecimento da ciência, incorporando sua capacidade de incidir na realidade. A produção de conteúdo digital tem como objetivo conciliar estes dois mundos, a teoria e a prática, e aproximar e dar mais alcance e visibilidade às discussões, conceitos e pautas sobre cidades.

 

C&C – Planos Diretores, mobilidade urbana e habitação social são áreas historicamente dominadas por homens e por lógicas tecnocráticas. Que obstáculos uma mulher enfrenta ao ocupar espaços de decisão nesse campo?

IC – Um dos principais obstáculos é a necessidade constante de legitimação e autoafirmação. Mulheres em espaços de decisão no planejamento urbano frequentemente precisam comprovar sua competência técnica repetidas vezes, enquanto homens são automaticamente reconhecidos como especialistas. Muitas vezes precisamos “endurecer” a postura diante de comentários que buscam desqualificar o nosso conhecimento. Além disso, há uma resistência estrutural a abordagens que questionem modelos consagrados, especialmente quando essas críticas vêm de mulheres. Temas como cuidado, diversidade, uso cotidiano da cidade e dos espaços públicos, mobilidade ativa e habitação digna ainda são vistos como “menores”, quando na verdade são centrais para a qualidade urbana. O desafio é ocupar esses espaços de atuação sem abrir mão de uma visão crítica e comprometida com justiça social.

 

 

“Mulheres urbanistas têm contribuído ao ampliar o campo de questões consideradas legítimas no planejamento.”

 

C&C – A gestão estratégica do território urbano exige lidar com conflitos, interesses econômicos e desigualdades. De que forma o olhar de mulheres urbanistas tem contribuído para tensionar modelos de cidade excludentes?

IC – Mulheres urbanistas têm contribuído para ampliar o campo de questões consideradas legítimas no planejamento. Ao trazer para o centro do debate temas como acesso aos serviços, segurança, mobilidade cotidiana, habitação e cuidado, elas tensionam modelos urbanos orientados exclusivamente pelo mercado ou pela eficiência técnica. Esse olhar não é essencialista, mas bastante situado: ocorre a partir de experiências concretas de vivenciar a cidade de forma desigual. A pauta aqui não é de igualdade ou de feminismo, mas sim de diversidade. Ao incorporar essas perspectivas, o planejamento urbano se torna mais atento às relações sociais, às escalas do cotidiano e às populações historicamente invisibilizadas, inclusive as mulheres.

 

C&C – Como coordenadora de cursos e programas de pós-graduação, você atua diretamente na formação de novas gerações. Que mudanças você percebe na presença e no protagonismo das mulheres na arquitetura e no urbanismo — e o que ainda precisa avançar?

IC – Há um avanço significativo na presença de mulheres nos cursos de arquitetura e urbanismo, inclusive na pós-graduação e na pesquisa. Hoje, vemos mais mulheres produzindo conhecimento crítico, liderando grupos de pesquisa e ocupando espaços acadêmicos relevantes. No curso de graduação em arquitetura e urbanismo, ocupam grande parte das cadeiras em salas de aula, ainda que após a graduação atuem mais com práticas aliadas ao design de interiores. No entanto, o protagonismo ainda diminui à medida que se avança para cargos de decisão institucional, coordenação de grandes projetos e formulação de políticas públicas. Ainda precisamos enfrentar desigualdades estruturais, como a sobrecarga de trabalho, a dificuldade de conciliar carreira e vida pessoal e a sub-representação em instâncias de poder. Estamos avançando, mas a que custo e velocidade?

 

 

“Ainda precisamos enfrentar desigualdades estruturais, como a sobrecarga de trabalho, a dificuldade de conciliar carreira e vida pessoal e a sub-representação em instâncias de poder.”

 

C&C – Para jovens mulheres interessadas em arquitetura, urbanismo e planejamento territorial, que caminhos você considera essenciais para produzir conhecimento crítico e, ao mesmo tempo, incidir concretamente na transformação das cidades?

IC – É muito importante construir uma formação sólida, crítica e interdisciplinar, que dialogue com ciências sociais, economia, meio ambiente e políticas públicas. O estudo e a busca de conhecimento são contínuos e são também um processo que dialoga com as experiências de vida e profissionais. Mas isso, sozinho, não basta. É preciso também ocupar espaços fora da academia: participar de conselhos, representações profissionais, atuar em projetos territoriais, dialogar com comunidades, produzir conteúdo e intervir no debate público. Se fazer ser vista e ouvida. Ter voz. A transformação das cidades exige mulheres que combinem rigor intelectual, capacidade técnica e compromisso político. Produzir conhecimento é essencial, mas fazê-lo circular e ganhar força na realidade concreta é o que realmente transforma o território.

Blog Ciencia e Cultura

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