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Mulheres, ciência e o desafio da equidade

No Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, o foco de 2026 se volta às soluções concretas para fechar a lacuna de gênero e fortalecer ecossistemas científicos mais diversos, justos e sustentáveis.

 

Celebrado em 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência foi instituído pela Organização das Nações Unidas em 2015 como um marco simbólico e político na luta pela igualdade de gênero nos sistemas científicos e educacionais. Mais do que uma data comemorativa, o dia convida governos, instituições, universidades e a sociedade a refletirem sobre quem produz ciência, em que condições e com quais oportunidades. Em 2026, essa reflexão ganha novos contornos ao deslocar o foco do diagnóstico das desigualdades para a valorização de práticas concretas capazes de transformar o ecossistema científico global.

O tema escolhido para 2026 — “From vision to impact: Redefining STEM by closing the gender gap (“Da visão ao impacto: Redefinindo STEM eliminando a disparidade de gênero”) — aponta justamente para essa virada. Após anos de relatórios, recomendações e campanhas de conscientização, a proposta agora é evidenciar soluções que já existem, iniciativas que funcionam e experiências que ampliam a participação de mulheres e meninas nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). A ideia é clara: fechar a lacuna de gênero não é apenas uma questão de justiça social, mas um fator decisivo para a qualidade, a relevância e o impacto da ciência produzida no mundo.

 

Embora as mulheres avancem no acesso à educação superior, sua presença diminui à medida que a carreira científica se torna mais competitiva e hierarquizada.”

 

Números

Os números globais, no entanto, mostram que o desafio permanece profundo. Dados da UNESCO indicam que as mulheres representam apenas cerca de um terço dos pesquisadores no mundo — 31,1% em 2022 — um avanço tímido em relação aos 29,4% registrados dez anos antes. Embora jovens mulheres sejam hoje maioria no acesso ao ensino superior em diversas regiões, elas correspondem a apenas 35% dos formados em áreas científicas. A desigualdade se acentua ao longo da carreira, especialmente nos cargos de liderança, nos espaços de decisão e no setor privado, onde os homens continuam amplamente dominantes.


Figura 1. Meninas na Ciência. EACH USP. Reprodução.

 

As diferenças regionais ajudam a entender a complexidade do problema. A paridade já foi alcançada na América Latina e no Caribe, assim como na Ásia Central, enquanto regiões como o Leste Asiático e o Pacífico ainda apresentam participação feminina muito baixa, apesar de concentrarem grandes contingentes de pesquisadores. Em contrapartida, a Europa Central e Oriental é a única região que registrou retrocesso na última década. Esses dados revelam que o avanço não é linear nem garantido e depende fortemente de políticas públicas, contextos institucionais e transformações culturais de longo prazo.

 

Brasil

No Brasil, o cenário apresenta avanços importantes, mas também contradições. O país se destaca internacionalmente pela elevada participação feminina na ciência: segundo o relatório Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil, lançado em 2024 pela Elsevier-Bori, o Brasil é o terceiro país do mundo com maior presença de mulheres na produção científica, atrás apenas da Argentina e de Portugal. Entre 2002 e 2022, a participação feminina cresceu 29%, e quase metade da produção científica nacional em 2022 contou com ao menos uma autora.

 

Ao tornar visíveis trajetórias femininas de excelência, prêmios e iniciativas institucionais ajudam a ampliar referências e a redesenhar o futuro da ciência.”

 

Ainda assim, a chamada “perda de mulheres ao longo da trajetória acadêmica” segue sendo um problema estrutural. Quanto mais se avança na carreira científica, menores são as proporções de mulheres em posições de liderança, coordenação de projetos, chefia de laboratórios e tomada de decisão. Barreiras como sobrecarga de trabalho doméstico, desigualdade no acesso a financiamento, vieses institucionais e dificuldades de conciliação entre maternidade e carreira continuam limitando o pleno exercício da atividade científica por muitas pesquisadoras.

 

Iniciativas

Nesse contexto, iniciativas institucionais ganham papel central. Promover a equidade de gênero na ciência é condição essencial para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente o ODS 5, que visa alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Universidades, agências de fomento, sociedades científicas e centros de pesquisa têm responsabilidade direta na criação de ambientes mais inclusivos, diversos e sensíveis às desigualdades históricas que atravessam a produção do conhecimento.

É nesse esforço de visibilização e reconhecimento que se insere o Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, promovido anualmente pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em sua 7ª edição, dedicada à categoria “Mulheres Cientistas”, o prêmio homenageou trajetórias de excelência em três grandes áreas do conhecimento. As vencedoras foram Anna Mae Tavares Bastos Barbosa, nas Humanidades; Iris Concepcion Linares de Torriani, em Exatas e Ciências da Terra; e Luisa Lina Villa, em Ciências Biológicas e da Saúde, além das menções honrosas concedidas a Maria Arminda do Nascimento Arruda, Marilia Oliveira Fonseca Goulart e Nísia Trindade Lima.


Figura 2. Prêmio Carolina Bori. Marcos Santos/ USP Imagens. Reprodução.

 

Mais do que premiar trajetórias individuais, iniciativas como o Prêmio Carolina Bori cumprem uma função estratégica: tornar visível o trabalho das cientistas, ampliar referências para meninas e jovens pesquisadoras e afirmar que a ciência se constrói a partir da diversidade de olhares, experiências e vozes. Ao celebrar o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência em 2026, a mensagem que se fortalece é clara — não basta imaginar um mundo com mais mulheres na ciência; é preciso reconhecer, apoiar e ampliar as condições para que elas sigam transformando o presente e desenhando futuros mais sustentáveis e justos.

 

Capa. Freepik. Reprodução.

 

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