Como jornais, revistas, cientistas e comunicadores moldaram, ao longo de dois séculos, a relação entre ciência, sociedade e democracia no país
A ciência nem sempre ocupou um lugar central no debate público brasileiro, mas sua presença no cotidiano da sociedade foi sendo construída ao longo do tempo, entre iniciativas institucionais, projetos editoriais, disputas de sentido e esforços individuais de mediação entre o conhecimento especializado e o público amplo. A divulgação científica no Brasil tem uma história longa, complexa e marcada por avanços descontínuos, que começa ainda antes da independência do país e ajuda a entender como o país passou a produzir, comunicar e atribuir valor ao conhecimento científico.
O marco inicial costuma ser associado à criação da Imprensa Régia, em 1810, quando passam a circular no Brasil textos voltados à educação científica, sobretudo manuais de engenharia e medicina, em geral traduzidos do francês. Desde então, ao longo de mais de 200 anos, a comunicação pública da ciência se desenvolveu de maneira desigual, frequentemente restrita às elites letradas e pouco integrada ao cotidiano da maior parte da população.
Desde seus primórdios, a ciência esteve presente na imprensa brasileira. Jornais como a Gazeta do Rio de Janeiro, O Patriota e o Correio Braziliense abriram espaço para temas científicos em um contexto marcado pelo Iluminismo e pela circulação internacional de ideias. Mesmo editado fora do país, o Correio Braziliense desempenhou papel central ao articular ciência, política, economia e educação, evidenciando que o conhecimento científico era visto como instrumento de modernização e construção nacional. (Figura 1)

Figura 1. O Patriota
(Imagem: Arquivo Público Digital APESP. Reprodução)
Ao longo do século XIX, com a expansão da imprensa e o fortalecimento da circulação de informações entre o Brasil e a Europa — especialmente após a instalação do cabo telegráfico submarino, em 1874 — a ciência passou a ocupar um espaço cada vez mais visível nos jornais e revistas. Publicações como a Revista Brazileira – Jornal de Sciencias, Letras e Artes, a Revista do Rio de Janeiro e Ciência para o Povo demonstram que havia interesse social por temas científicos, em especial nas áreas de saúde, ciências naturais, astronomia e comportamento.
Inovação
Esse período também foi marcado por iniciativas inovadoras de divulgação científica, como as Conferências Populares da Glória, que reuniam ciência, cultura e debate social, incluindo temas como o papel da mulher na sociedade. Museus como o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e o Museu Paraense Emílio Goeldi assumiram oficialmente, a partir do final do século XIX, a missão de promover o estudo, o desenvolvimento e a vulgarização da ciência, ampliando o contato do público com o conhecimento científico.
“A divulgação científica no Brasil começou antes mesmo da independência, mas sua história foi marcada por avanços descontínuos e profundas desigualdades de acesso ao conhecimento.”
No início do século XX, a criação da Sociedade Brasileira de Ciências — mais tarde Academia Brasileira de Ciências (ABC) — e o uso de novas mídias, como o rádio e o cinema educativo, ampliaram as possibilidades de comunicação da ciência. A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e o Instituto Nacional do Cinema Educativo são exemplos de como a ciência passou a dialogar com novas linguagens e públicos. A visita de cientistas internacionais, como Albert Einstein e Marie Curie, também despertou grande interesse popular e reforçou a percepção social da ciência como motor do progresso.
Nova fase
A partir dos anos 1940, a divulgação científica no Brasil entra em uma nova fase, marcada pela institucionalização da ciência e pelo fortalecimento do jornalismo científico. Nesse contexto, ganha destaque a atuação de José Reis, figura central na consolidação da divulgação científica como prática permanente, articulada à educação, à política científica e ao jornalismo. Sua atuação em jornais de grande circulação, aliada à criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da revista Ciência & Cultura, ajudou a estabelecer a ciência como pauta regular e socialmente relevante. (Figura 2)

Figura 2. Capas da revista Ciência & Cultura
(Imagem: Divulgação)
O pós-Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria criaram um ambiente internacional de valorização da ciência e da tecnologia, com impactos diretos no Brasil. Mesmo sob a ditadura militar, que perseguiu cientistas e comprometeu a liberdade acadêmica, houve investimentos significativos em universidades, pós-graduação e infraestrutura científica. Esse cenário contraditório contribuiu para a expansão da ciência institucionalizada e, ao mesmo tempo, impôs limites ao debate público e crítico sobre ciência e tecnologia.
A redemocratização, nos anos 1980, marca outro ponto de inflexão. Surgem revistas como Ciência Hoje, Ciência Hoje das Crianças, Superinteressante e, posteriormente, Pesquisa FAPESP, além de programas de televisão e suplementos jornalísticos dedicados à ciência. Ao mesmo tempo, consolidam-se associações profissionais, como a Associação Brasileira de Jornalismo Científico, e cresce a produção acadêmica sobre divulgação e jornalismo científico no país.
Apesar dessa ampliação, um desafio estrutural persiste: a dificuldade de alcançar amplos segmentos da população. A fragilidade do ensino de ciências na educação básica compromete o letramento científico e favorece a desinformação, tornando parte da sociedade mais vulnerável a discursos pseudocientíficos, teorias conspiratórias e campanhas anticientíficas. A pandemia evidenciou esse problema, ao mesmo tempo em que mostrou a importância estratégica da divulgação científica para a democracia e a tomada de decisões informadas.
“Na era das redes sociais e das fake news, fortalecer a divulgação científica é também fortalecer a democracia e a participação cidadã nas decisões sobre ciência e tecnologia.”
Hoje, com podcasts, redes sociais, plataformas digitais e arquivos históricos amplamente digitalizados, a divulgação científica vive um momento paradoxal. Nunca houve tantos meios e conteúdos disponíveis, mas o acesso qualificado à informação científica continua profundamente desigual. Iniciativas de comunicação pública da ciência, articuladas a políticas educacionais, culturais e científicas, tornam-se cada vez mais urgentes.
A digitalização de acervos jornalísticos e a ampliação dos estudos históricos têm revelado que a divulgação científica no Brasil foi mais contínua e diversa do que se supunha. Longe de uma trajetória marcada apenas por “ondas” esporádicas, emerge a imagem de um campo persistente, embora frequentemente estreito e tensionado por desigualdades sociais, políticas e educacionais. Compreender essa história é essencial para pensar o futuro da ciência no país — e o papel da comunicação científica na construção de uma sociedade mais crítica, informada e democrática.


