Novo episódio do Ciência & Cultura Cast explora como sons, emoções e conhecimento científico se entrelaçam — da física às humanidades, passando pelos desafios da era da inteligência artificial.
Entre equações, vibrações e emoções, a música revela-se um território híbrido onde ciência e arte se encontram de maneira profunda. Esse é o ponto de partida do novo episódio do Ciência & Cultura Cast, que discute como a música pode tanto explicar fenômenos científicos quanto ser iluminada por eles — sem perder, contudo, sua dimensão sensível e simbólica. O programa explora o que os sons revelam sobre a forma como os seres humanos conhecem, sentem e imaginam o mundo, especialmente em um contexto marcado pelo avanço das tecnologias digitais e da inteligência artificial.
A relação entre ciência e arte, embora cada vez mais reconhecida, costuma ser discutida principalmente em relação às artes visuais, como cinema, pintura, escultura ou fotografia. A música, entretanto, também oferece um campo fértil de diálogo entre diferentes áreas do conhecimento. “Eu acho estimulante demais, porque a música é uma linguagem que está presente na totalidade dos povos e na experiência humana pela condução de conteúdos através da emoção”, afirma Luiz Piquera, músico, compositor, arranjador e regente dos grupos Coro e Osso, Musiarte – Colégio Progresso Araraquara e Sorema Canto Livre. “Vamos ter desdobramentos disso nas mais importantes áreas do pensamento, do estudo e da própria ciência, seja da física, da antropologia, da história, da estética como todo, etc. Então, é um campo muito rico”, continua.
Do ponto de vista científico, o som envolve uma complexa cadeia de fenômenos naturais. Na física, ele é descrito como uma vibração que se propaga em forma de onda por meios elásticos, como o ar. No corpo humano, sua transformação em impulsos nervosos que chegam ao cérebro pertence ao campo da biologia. Já a organização das notas em escalas, harmonias ou dissonâncias envolve princípios matemáticos e físicos, além de refletir tradições culturais. O som também é essencial para comunicação, orientação e sobrevivência de diversas espécies animais — tema investigado pela zoologia — e está presente nas línguas, nos sotaques e nas entonações que estruturam a comunicação humana.
Essa relação, segundo especialistas, funciona como uma via de mão dupla entre criação artística e investigação científica. “O conhecimento científico permite ao artista explorar coisas que ele não poderia, que não exploraria, como por exemplo, questões de timbre, ressonância, harmônicos. Então de certa maneira é uma via de mão dupla. Tanto a música se beneficia da ciência, como a ciência também se beneficia da música”, explica Marcos Pimenta, professor emérito do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanomateriais de Carbono.
Para além dos aspectos técnicos, a música também carrega significados sociais e culturais profundos. Festas populares como o carnaval, ritos religiosos, tradições regionais e práticas terapêuticas mostram como diferentes sociedades atribuem sentidos diversos aos sons. Ao mesmo tempo, pesquisas investigam como a música afeta o cérebro, provoca emoções e estimula formas de expressão como o canto e a dança — movimento corporal que responde ao ritmo sonoro. Nesse contexto, arte e ciência também compartilham um papel crítico na sociedade. “Arte e ciência são sempre os primeiros alvos de fascistas. Todos os governos fascistas ou proto-fascistas, o primeiro ataque à cientista e à classe artística é exatamente porque é quem pensa, é quem põe o dedo na ferida, é quem demonstra e escancara desigualdades”, afirma Aldo Zarbin, professor do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Ouça ao episódio completo:
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