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Quando a música pensa o Brasil

A história da MPB como tecnologia cultural e instrumento de leitura do país

 

A história da Música Popular Brasileira é também a história de como o país aprendeu a se narrar por meio do som. Para Ivan Vilela, compositor, arranjador, violeiro, pesquisador e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA), a própria noção de MPB deve ser vista de forma ampla: não apenas como um rótulo surgido nos anos 1960, mas como continuidade de uma tradição oral que atravessa séculos. “Nós fomos construídos durante muito tempo por uma formação oral”, afirma. Ele compara os cantadores brasileiros a figuras como os griots africanos ou os aedos gregos, lembrando que, num país onde a escrita se espalhou tardiamente e o ensino formal demorou a se consolidar, a música funcionou como técnica de preservação da memória coletiva. Versos ritmados e metrificados não só emocionavam — também guardavam informações que, de outro modo, se perderiam.

Esse caráter histórico da música popular ganha força ao longo do século XX, especialmente durante a ditadura militar. A canção passa a operar como crônica social, enfrentando censura e inventando caminhos para dizer o indizível. Personagens, metáforas e ambiguidades se tornam estratégia estética e política — recurso usado por nomes como Chico Buarque para driblar vigilância e registrar as tensões do período. Para Vilela, no entanto, essa função nunca deixou de existir. “A música sempre foi a voz desse povo”, diz. E ele estende essa leitura ao presente: rap, funk e outras linguagens periféricas continuam produzindo relatos potentes de realidades marginalizadas. “Eles estão fazendo crônica também. Estão mantendo viva a mesma função social que a geração dos anos 60 exerceu.”

Mas se a música resiste, o cenário cultural que a envolve se transforma. Vilela aponta a concentração econômica do mercado musical, que espelha outras monoculturas brasileiras — das commodities ao controle das rádios por grupos alinhados a interesses específicos. Ao mesmo tempo, defende a importância de políticas públicas capazes de proteger a diversidade cultural e atenuar os efeitos de uma lógica exclusivamente mercadológica. “Nessa selvageria neoliberal, a salvaguarda das pessoas é o Estado”, afirma, incluindo a cultura ao lado da educação e da saúde como áreas que dependem de apoio institucional para sobreviver.

No encontro entre oralidade, tecnologia e novos ativismos, Vilela propõe pensar a MPB a partir da ideia de “epistemografia”: reconhecer que o conhecimento brasileiro não se expressa apenas pela escrita acadêmica, mas também por práticas sonoras, sensoriais e corporais. Da batida do funk às raízes do congo de ouro e do maculelê, ele enxerga continuidades profundas que ligam passado e presente. Por isso, vê a música popular como um patrimônio histórico singular — talvez o mais abrangente do país. “Talvez a música seja o maior patrimônio histórico da cultura brasileira, porque ela registrou muito mais acontecimentos do que foram registrados em livros sobre história. E normalmente a história está narrando a história dos vencedores, dos grandes, dos administradores, dos poderosos e nunca a história do povo. Isso a gente vai encontrar na música”.

Ouça ao episódio completo:

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