Podcast
Podcast 1 capa site

Carnaval, ritmo e ancestralidade

A percussão como fio condutor entre ancestralidade, resistência e organização coletiva no Carnaval brasileiro.

 

O Carnaval brasileiro, frequentemente visto apenas como espetáculo e celebração, revela-se muito mais complexo quando observamos suas camadas culturais e políticas. A festa transformou-se no Brasil em um território de disputa simbólica onde a memória afrodescendente se materializa em movimento, som e corpo. Nas ruas e avenidas, o ritmo organiza a multidão, funda identidades e cria laços de pertencimento que atravessam séculos. É por meio dos tambores, das batidas e cadências que práticas ancestrais seguem vivas, gerando conhecimento social e dando forma a modos de existir e resistir. E é esse o tema do novo episódio do Ciência & Cultura Cast.

Esse caráter de resistência aparece de maneira clara na potência da percussão. Os toques que ecoam no Carnaval — do samba-reggae à cadência das baterias — dialogam diretamente com tradições dos terreiros de candomblé e umbanda, evocando os orixás e afirmando a força das culturas Iorubá, Ewe e Fon. Escolas de samba, blocos afro e cordões tornam-se guardiões dessa herança, conectando atabaques, surdos, repiniques, agogôs e cuícas a práticas que atravessam oceanos e séculos. Como afirma Marilda Santana, professora titular do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal da Bahia e criadora, gestora e curadora do projeto Troféu Caymmi, “a manutenção desse batuque durante justamente o período do carnaval seja carioca, seja baiano, seja maranhense, seja pernambucano, é um ato de resistência. E é um ato de resistência que passa justamente essa tecnologia de como você acessar esse lugar, de como você construir esses instrumentos, esses objetos que representam a contravenção, além de um ato de resistência e de transformação cultural e de perpetuação dessa tradição”.

Blocos afro como Ilê Aiyê e Olodum, na Bahia, exemplificam essa permanência ao transformar suas batidas em veículos de afirmação identitária, educação política e reapropriação cultural. Desde o início do século XX, grupos como cordões, blocos de enredo e até maltas de capoeira enfrentaram repressões e preconceitos para manter vivo o batuque que hoje pulsa no coração do Carnaval. Esses coletivos consolidaram o Carnaval como um “continuum de cultura”, onde as lutas históricas da população negra se renovam e se tornam visíveis, desafiando apagamentos e fortalecendo a presença da cultura de terreiro nas celebrações populares.

A festa continua sendo um dos espaços mais significativos de expressão da cultura negra no Brasil, como reforça Marilda Santana ao lembrar que “se tirar a música do carnaval, se tirar o povo preto do carnaval, não sobra absolutamente nada. Não sobra nada, porque, historicamente, o carnaval é um dos poucos espaços onde a população negra podia expressar sua cultura”.

Ouça ao episódio completo:

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Blog Ciencia e Cultura

Blog Ciencia e Cultura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Palavras-chaves
CATEGORIAS

Relacionados