Resenha
pássaro-jardineiro-flamejante macho divulgação netflix capa - Copia

A dança dos pássaros: ciência e sedução na natureza

Documentário apresenta espetáculo de amor entre diferentes espécies de aves, articulando ciência e arte

Atrair as fêmeas é um desafio para quase todos os machos na natureza. Isso porque a seleção sexual impõe aos indivíduos do sexo masculino uma forte pressão focada no sucesso reprodutivo e na perpetuação de genes. É por isso que muitas espécies de aves desenvolvem, por exemplo, plumagem colorida ou diferenciada. Estas características funcionam como indicadores de boa saúde e força-física, vantagens que as fêmeas desejam passar para os descendentes. No entanto, para algumas espécies de aves, a beleza ajuda, mas ainda não é tudo. Para encantar as fêmeas, alguns pássaros fazem exibições de acasalamento, ou melhor, eles dançam!

Um dos pilares da biologia evolutiva, que estuda a origem das espécies e as mudanças que elas sofrem ao longo do tempo, é o investimento parental assimétrico. As fêmeas investem muito mais energia na produção de gametas e no cuidado com a prole. Por terem um custo reprodutivo maior, elas tendem a ser o sexo que escolhe o parceiro e, quando fazem isso, elas selecionam criteriosamente aquelas com as melhores características, o que, no caso de alguns tipos de pássaros, inclui serem os melhores dançarinos.

 

“Desde o início, o documentário evidencia seu principal trunfo: a capacidade de traduzir processos evolutivos complexos em experiências sensoriais acessíveis.”

 

O documentário Dancing with the birds (2019) apresenta ao espectador um espetáculo raro: os elaborados rituais de cortejo de diferentes espécies de aves, especialmente aquelas encontradas na Nova Guiné, as chamadas aves-do-paraíso, e nas florestas tropicais das Américas. Produzido pela Netflix e dirigido por Huw Cordey, diretor e produtor britânico reconhecido pelos documentários de história natural, o filme articula ciência e estética de forma envolvente, transformando comportamento animal em narrativa dramática.

Localizada na Oceania, a Nova Guiné é a segunda maior ilha do mundo, famosa por abrigas as chamadas aves-do-paraíso. Em suas florestas tropicais densas vive a ave-do-paraíso-rei-da-Saxônia (Pteridophora alberti) que usa duas longas plumas presas à cabeça, que podem chegar a 50 centímetros, para cortejar a fêmea. O primeiro passo é cantar para chamar a atenção entre todos os sons da floresta. Quando ela se aproxima, ele busca um galho mais alto e literalmente rebola, ou se balança para a fêmea movimentando as longas penas o mais alto que consegue, em uma espécie de ritual de hipnose.

Desde o início, o documentário evidencia seu principal trunfo: a capacidade de traduzir processos evolutivos complexos em experiências sensoriais acessíveis. A seleção sexual, conceito central da Teoria da Evolução de Charles Darwin, é apresentada não de maneira didática, mas performática. As fêmeas escolhem seus parceiros com base em atributos que sinalizam saúde e vigor — plumagens exuberantes, habilidades motoras e estratégias de exibição —, e é nesse contexto que a dança emerge como linguagem biológica.

Outra espécie da Nova Guiné, o bico-de-foice-preto (Epimachus fastosus) precisa de poucos centímetros de diâmetro para performar uma das mais interessantes danças para a fêmea. No alto de um toco, ele estica as longas penas pretas e azuis de forma a cobrir toda a cabeça e criar um manto que balança suspenso no ar. (Figura 1)


Figura 1. Bico-de-foice-preto (Netflix. Reprodução)

 

A trilha sonora de David Mitcham desempenha papel fundamental nesse processo. Longe de ser mero acompanhamento, ela conduz a experiência do espectador, criando tensão, humor e expectativa. A música transforma o que poderia ser apenas registro científico em uma narrativa emocional, levando o público a torcer pelos machos em suas tentativas — nem sempre bem-sucedidas — de conquistar uma parceira.

Alguns rituais de acasalamento envolvem não apenas um, mas um grupo de machos que se unem em uma performance de atração das fêmeas. É neste exemplo que chegamos ao Brasil. Aqui, grupos galos-da-serra-do-pará (Rupicola rupícola) promovem um verdadeiro festival de saltos no solo da floresta para atrair as fêmeas. Encontrado no Pará, Roraima e no Amazonas, o galo-da-serra macho é uma das aves mais exuberantes da Amazônia. Exibe uma plumagem laranja-avermelhada e uma crista em forma de leque que cobre o bico. Quanto maior o número de pássaros, maior a chance de uma fêmea aparecer. Com esse visual, trata-se de uma estratégia compreensível. (Figura 2)


Figura  2. Galo-da-serra (Reprodução)

 

Finalmente, o elemento que mais contribui para o tom do documentário é a narração de Stephen Fry. Comediante, ator, escritor e apresentador britânico, Fry narra as desventuras dos pássaros dançarinos com humor e leveza. Ele estabelece uma relação direta com o espectador, comentando, ironizando e até demonstrando frustração diante de rejeições amorosas. Esse recurso aproxima o comportamento animal da experiência humana, sem comprometer o rigor científico.

 

“Vale tudo no jogo do amor”.

 

É o que acontece na descrição no ritual de acasalamento conduzido pelo pássaro-jardineiro-flamejante macho (Sericulus ardens), que exibe uma plumagem amarelo-vibrante que brilha em meio ao verde da floresta. Mas ele não se destaca só por isso. Comumente chamados de arquitetos do amor, ao longo de dias, ele constrói uma estrutura de gravetos para impressionar a fêmea. O esforço resulta em uma espécie de escultura parecida com um portal ou um trono, em torno da qual ele desfila balançando as asas e esticando o corpo sobre as patas para parecer maior e mais forte. Ao final da exibição, Fry vaticina: “Vale tudo no jogo do amor”.

 

Dancing with the Birds, 2019, documentário original Netflix
Direção: Huw Cordey
Trilha Sonora: David Mitcham
Narração original: Stephen Fry

 

Capa: Pássaro-jardineiro Flamejante (Netflix. Reprodução)
Patricia Mariuzzo

Patricia Mariuzzo

Patrícia Mariuzzo é divulgadora de ciência e coordenadora de comunicação do projeto HIDS Unicamp (Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável).
Patrícia Mariuzzo é divulgadora de ciência e coordenadora de comunicação do projeto HIDS Unicamp (Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável).
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