Às vezes, nos parece que a realidade do mundo existe para nos oprimir de alguma forma. No entanto, o mundo é pensado e estruturado por pessoas. Esse sentimento de opressão nos chega seja a partir de nossos compromissos, ou ainda a partir de nossas responsabilidades, sempre na perspectiva exagerada de que precisamos marcar o lugar de nossa existência na devolutiva de atender aos chamados. Quase sempre, o mundo nos exige uma seriedade que não estamos de fato prontos para encarar.
E o mesmo ocorre na escola, pois ela é o lugar que, tradicionalmente, preparamos os jovens para vivenciar a cultura do mundo em que estão imersos. Todos e todas nos lembramos que, nos nossos primeiros anos escolares, adoramos ir à escola, pois lá há brincadeiras, há músicas, há elementos lúdicos. Aprendemos brincando. Mexemos com massinha, com tintas para colorir desenhos, com água, com barro, com teatralidade, com poesia, cantamos para entrar na sala de aula, para sair dela, para lanchar e mais uma série de atividades que faz com que queiramos voltar no outro dia. Parecíamos mais felizes nos primeiros anos de escola.
“Torna-se necessário refletir sobre as possibilidades de ousar na busca de novos caminhos de construção de saberes.”
Entretanto, o tempo vai passando e a escola vai se tornando “séria”. Sem graça. E os jovens não querem mais voltar. A escola se torna uma obrigação. Um compromisso de vida, que não nos parece tão divertido assim. Os professores, no começo da segunda fase do ensino fundamental, começam a nos dizer que a partir daquele momento a brincadeira acabou, que agora é tudo mais sério. E isso vai se tornando uma espiral crescente até o final do ensino fundamental, atravessando todo o ensino médio que, agora, nos angustia com uma nova tarefa: a de que temos que escolher uma profissão, para tomar aquele lugar no mundo, conforme falamos anteriormente. Em sequência, adentramos ao ensino superior, onde definitivamente não se pode brincar, porque afinal de contas, agora somos adultos. E há uma máxima que infelizmente interiorizamos desde criança: que adultos não brincam.
Nesse mundo no qual vivemos, cercados de pressões e desafios por todos os lados, desde a menor até a mais longeva idade, torna-se necessário refletir sobre as possibilidades de ousar na busca de novos caminhos de construção de saberes. Nesse sentido, os caminhos do lúdico trazem diferentes olhares para os espaços da escola, pois ela não tem que ser chata. Tem que ser um lugar que queremos ir. Ela tem que ser convidativa.
“Os caminhos do lúdico trazem diferentes olhares para os espaços da escola, pois ela não tem que ser chata.”
Trazendo as relações entre a escola e seu papel na alfabetização científica dos jovens, tão necessária no contexto atual, podemos trazer a perspectiva do lúdico como caminho para a construção de um conhecimento científico que pode ser apreendido de maneira divertida. É possível planejar e desenvolver práticas pedagógicas de uma maneira mais prazerosa a partir de uma série de atividades lúdicas que evidenciem que aprender Ciência também pode ser divertido. É possível mostrar para as crianças e para os adolescentes que os aspectos que os divertem em sua vida cotidiana podem estar presentes na escola. Podem estar presentes no ensino de ciências.
Essa ludicidade, essa diversão, pode se manifestar de incontáveis maneiras. E no ensino de ciências isso não é diferente. Nos últimos 20 anos, é crescente a quantidade de práticas e propostas que se utilizam da ludicidade para despertar o interesse de crianças e adolescentes para a Ciência. O próprio uso de experimentos de laboratório em sala de aula pode ter características lúdicas. É inclusive por meio da experimentação que muitas crianças passam a se interessar por ciência. E é por falta desta ludicidade característica dos experimentos que os adolescentes se afastam dela.
“É pelo lúdico que o diálogo pode ser mais evidente e aberto, pois pode extravasar o melhor de nós”
Neste número, trouxemos algumas práticas lúdicas que estão sendo utilizadas para se ensinar ciências nos últimos anos. Trouxemos os jogos, na perspectiva mais conhecida, que é a de competição, muito mais utilizada que a perspectiva colaborativa, mas nem por isso prejudicial. O cinema, que todos de alguma forma amam, também pode se configurar como uma perspectiva lúdica para abordar elementos do mundo científico, pelo prazer em acompanhar uma história contada com emoção, efeitos especiais e trilha sonora agradável. O teatro científico, que movimenta o corpo, a mente, o prazer e o desafio e, com uma pitada de Ciência, pode se tornar atrativo e divertido. A música, que também envolve práticas lúdicas, acompanha os seres humanos em todos os momentos e estes, de fato nos parecem inseparáveis das trilhas sonoras das experiências vividas, ainda mais quando elas estão presentes naquele lugar que os adolescentes não largam, os celulares. E temos a poesia, a literatura, que nos moldam como pessoas humanas e nos trazem o relaxamento característico da ludicidade.
Com esse número especial, queremos que o leitor se divirta lendo, mas que compreenda que ser lúdico também pressupõe compromisso e atitude lúdicas. O compromisso lúdico tem relação direta com a conscientização dos pares do processo, ou seja, o professor e o estudante. Eles estão no mesmo lado do processo de ensino e aprendizagem e não em lados opostos. É pelo lúdico que o diálogo pode ser mais evidente e aberto, pois pode extravasar o melhor de nós. A vontade compartilhada aqui pode levar a uma melhor aprendizagem. Este é o cerne do compromisso lúdico.
Já a atitude lúdica tem relação com a vontade de se envolver e envolver o outro no mundo compartilhado, já que fazemos parte da mesma cultura, da mesma sociedade, da mesma escola. A voluntariedade de fazer e ensinar pelo lúdico caracteriza essa atitude para dinamizar a sala de aula, tentando fazer com que ela não se pareça com um ambiente no qual estamos obrigados a estar.
Enfim, essa é a proposta desse número especial. Que possamos entender que outras formas de aprender ciências são possíveis e um mundo mais lúdico também é. Sem as amarras de que o mundo foi feito para nos oprimir. E se na verdade ele foi feito para nos divertir?
Boa leitura.


