Em um país onde a ciência ainda reflete profundas desigualdades de gênero e raça, a trajetória de Sônia Guimarães desafia estatísticas, rompe barreiras históricas e redefine o significado de pioneirismo. Primeira mulher negra brasileira a obter um doutorado em Física e primeira professora negra do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), ela transformou obstáculos em oportunidades e se tornou uma das vozes mais importantes na defesa da inclusão e da diversidade nas ciências exatas.
Uma infância marcada pelo estudo e pela perseverança
Nascida em São Paulo, em 1957, Sônia Guimarães cresceu em uma família de origem humilde. Filha de um tapeceiro e de uma comerciante, estudou sempre em escolas públicas e desde cedo demonstrou facilidade para a matemática. O caminho até a universidade, porém, esteve longe de ser simples. Na adolescência, trabalhou para ajudar a pagar o cursinho preparatório para o vestibular, contando também com o apoio da mãe quando os recursos financeiros não eram suficientes.
Mesmo sendo uma aluna dedicada, enfrentou preconceitos que tentavam limitar suas ambições. Ela relembra que, ainda na escola, ouviu de uma professora que jamais conseguiria aprender Física. A resposta veio por meio de seu desempenho acadêmico. “No ensino fundamental, me disseram que eu nunca aprenderia física. Eu terminei aquele ano como a segunda turma do colégio inteiro na disciplina. Na universidade, a história foi parecida. Infelizmente, é um fato em todas as áreas que, pela cor da pele, você tem de ‘matar dois leões por dia’ — e juntando com o fato do gênero, são ‘quatro leões por dia’”.
A construção de uma carreira científica pioneira
Ao ingressar no curso de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Sônia Guimarães tornou-se a primeira pessoa de sua família a entrar no ensino superior. Em uma turma composta por cerca de 50 estudantes, apenas cinco eram mulheres. Inicialmente interessada em Engenharia, acabou se encantando pelo estudo dos materiais sólidos e decidiu permanecer na Física, área em que construiria uma carreira de destaque internacional.
“Até 1996, mulheres eram impedidas até mesmo de prestar vestibular para o ITA.”
Após concluir a graduação, realizou mestrado em Física Aplicada e aprofundou seus estudos em materiais eletrônicos. Sua formação acadêmica a levou para a Europa, onde passou por centros de pesquisa na Itália e posteriormente ingressou no doutorado em Materiais Eletrônicos na University of Manchester Institute of Science and Technology, na Inglaterra. Em 1989, tornou-se a primeira mulher negra brasileira a concluir um doutorado em Física.
Sua especialização concentra-se na área de semicondutores, materiais fundamentais para a eletrônica moderna. Presentes em smartphones, computadores, automóveis e sistemas de comunicação, os semicondutores são a base tecnológica da sociedade contemporânea. Ao longo da carreira, Sônia também participou do desenvolvimento de pesquisas envolvendo sensores infravermelhos e tecnologias aplicadas à indústria de alta precisão, incluindo projetos voltados para a área de defesa.

Figura 1. Divulgação.
A primeira professora negra do ITA
Em 1993, Sônia Guimarães alcançou outro marco histórico ao ingressar como docente do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das instituições de ensino mais prestigiadas do país. Sua chegada teve um significado ainda maior porque ocorreu em um contexto em que a presença feminina era extremamente reduzida. As mulheres só passaram a ser admitidas como alunas da instituição na década de 1990.
A própria pesquisadora costuma lembrar esse cenário para destacar as transformações ocorridas nas últimas décadas. “Até 1996, mulheres eram impedidas até mesmo de prestar vestibular para o ITA. Hoje, as melhores notas do vestibular são de mulheres”. Sua presença no corpo docente representou não apenas uma conquista individual, mas também um passo importante para ampliar a diversidade em um ambiente historicamente masculino e branco.
Apesar dos avanços, Sônia reconhece que os desafios permanecem. Em diferentes entrevistas, ela descreveu o ITA como uma instituição tradicional, marcada por décadas de exclusão de grupos historicamente marginalizados. Ainda assim, acredita que mudanças graduais vêm ocorrendo e que a ampliação da presença feminina e negra nos espaços científicos é um processo irreversível.
Ciência, racismo e representatividade
Ao longo da carreira, Sônia enfrentou episódios de discriminação racial e de gênero. Ainda durante a graduação, teve uma bolsa de iniciação científica negada por uma professora que acreditava que ela jamais utilizaria a Física profissionalmente. Situações semelhantes se repetiram em diferentes momentos de sua trajetória, reforçando barreiras que frequentemente afetam mulheres negras no ambiente acadêmico.
“Eu sei dos números que eu represento e quero que outras mulheres olhem para mim e vejam que é possível.”
Essas experiências ajudaram a moldar seu compromisso com a promoção da igualdade racial. Para a pesquisadora, o racismo estrutural continua sendo um dos principais obstáculos para a democratização da ciência brasileira. Por isso, ela defende ações afirmativas, ampliação do acesso ao ensino superior e fortalecimento de redes de apoio para estudantes negros.
Sua atuação extrapola os laboratórios e as salas de aula. Sônia Guimarães integra iniciativas voltadas à inclusão social e participa do Conselho Municipal para a Promoção da Igualdade Racial de São José dos Campos (SP). Também atua como mentora de estudantes e colabora com projetos que incentivam a presença de mulheres e pessoas negras nas carreiras científicas e tecnológicas.
Uma inspiração para as próximas gerações
Além da excelência acadêmica, Sônia Guimarães tornou-se uma referência para milhares de jovens que sonham seguir carreira na ciência. Em 2023, ao completar três décadas de atuação no ITA, recebeu a Medalha Santos Dumont de Honra ao Mérito. No mesmo ano, foi reconhecida entre as 100 pessoas mais inovadoras da América Latina, evidenciando o alcance de sua contribuição científica e social.

Figura 2. Divulgação.
Sua trajetória demonstra que a produção de conhecimento científico está diretamente ligada à diversidade de experiências e perspectivas. Ao ocupar espaços historicamente negados às mulheres negras, a pesquisadora abriu portas para novas gerações de pesquisadoras e pesquisadores. Como ela própria afirma: “Eu sei dos números que eu represento e quero que outras mulheres olhem para mim e vejam que é possível”.
Mais do que uma pioneira, Sônia Guimarães tornou-se símbolo de resistência, excelência e transformação. Sua história mostra que ampliar a diversidade na ciência não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma condição fundamental para que o conhecimento científico reflita a pluralidade da sociedade brasileira e seja capaz de enfrentar, de forma mais criativa e inclusiva, os desafios do futuro.


