DC - Saberes que sustentam a vida - capa

Saberes que sustentam a vida

O Dia Internacional dos Povos Indígenas de 2026 destaca o papel das parteiras indígenas e mostra por que seus conhecimentos são essenciais para a saúde, a biodiversidade e o futuro do planeta.

Quando uma parteira indígena acompanha o nascimento de uma criança, ela faz muito mais do que ajudar a trazer uma nova vida ao mundo. Em muitas comunidades, esse momento reúne conhecimentos sobre plantas medicinais, alimentação, cuidados com a mãe e o bebê, espiritualidade, território e organização social, transmitidos de geração em geração ao longo de séculos. Em 2026, as Nações Unidas escolheram justamente esse patrimônio de saberes como tema do Dia Internacional dos Povos Indígenas, lembrando que proteger esses conhecimentos é também proteger a diversidade biológica, cultural e científica da humanidade.

Celebrado anualmente em 9 de agosto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1994 para marcar a primeira reunião do Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas, realizada em Genebra em 1982. Neste ano, ele terá como tema “Honrando as Parteiras Indígenas: Salvaguardando a Vida e o Bem-Estar”, colocando em evidência mulheres que preservam conhecimentos ancestrais fundamentais para a saúde de seus povos.

 

Guardiões de culturas e da biodiversidade

Os povos indígenas representam uma pequena parcela da população mundial, mas desempenham um papel desproporcionalmente importante na conservação da diversidade biológica e cultural do planeta. Estima-se que existam entre 370 e 500 milhões de indígenas distribuídos em cerca de 90 países, pertencentes a aproximadamente 5 mil culturas diferentes e falando a maior parte das cerca de 7 mil línguas existentes no mundo.

Além de ocuparem ou utilizarem aproximadamente 22% das terras do planeta, esses povos vivem em algumas das regiões mais ricas em biodiversidade. Diversos estudos mostram que áreas indígenas frequentemente apresentam níveis de conservação ambiental semelhantes ou até superiores aos de muitas unidades de proteção formal, resultado de formas de manejo construídas ao longo de centenas ou milhares de anos de convivência com os ecossistemas locais.


Figura 1. Reprodução.

 

Essa relação vai muito além da exploração de recursos naturais. Para muitos povos indígenas, florestas, rios, montanhas e animais fazem parte de uma mesma rede de relações entre seres humanos e natureza. Essa visão integrada tem despertado crescente interesse da ciência, especialmente em áreas como ecologia, mudanças climáticas, conservação da biodiversidade e uso sustentável dos recursos naturais.

 

O conhecimento também é ciência

O tema escolhido pela ONU para 2026 chama atenção para um aspecto muitas vezes pouco conhecido: o papel das parteiras indígenas como guardiãs de sistemas complexos de conhecimento. Em diversas comunidades, elas acumulam saberes sobre gestação, parto, recuperação pós-parto, amamentação, uso de plantas medicinais, alimentação tradicional e cuidados com recém-nascidos, sempre articulados às práticas culturais e espirituais de cada povo.

 

“Proteger esses conhecimentos é também proteger a diversidade biológica, cultural e científica da humanidade.”

 

Longe de representar apenas tradições do passado, esses conhecimentos continuam sendo essenciais para a saúde de inúmeras comunidades, especialmente em regiões remotas onde o acesso aos serviços médicos é limitado. Organizações internacionais como a UNESCO defendem que os sistemas de conhecimento indígena sejam reconhecidos como patrimônio vivo e considerados parceiros importantes na construção de políticas públicas culturalmente adequadas.

Esse reconhecimento também dialoga com um movimento crescente dentro da própria ciência: a valorização de diferentes formas de produzir conhecimento. Em vez de tratar os saberes tradicionais como simples curiosidades culturais, pesquisadores de diversas áreas vêm mostrando que eles podem complementar pesquisas acadêmicas sobre biodiversidade, farmacologia, agricultura, manejo florestal e adaptação às mudanças climáticas.

 

Direitos ainda ameaçados

Apesar de sua enorme contribuição para a humanidade, os povos indígenas continuam entre os grupos mais vulneráveis do planeta. Muitos enfrentam perda de territórios, discriminação, pobreza, violência, degradação ambiental e dificuldades de acesso à educação e à saúde. Em diversas regiões, a destruição dos ambientes naturais ameaça não apenas espécies animais e vegetais, mas também línguas, práticas culturais e conhecimentos acumulados durante inúmeras gerações.


Figura 2. Edgar Kanaykó/ Greenpeace Brasil. Reprodução.

 

A preservação das línguas indígenas é uma das maiores preocupações atuais. A maior parte das cerca de 7 mil línguas existentes no mundo pertence justamente a povos indígenas, mas centenas delas correm risco de desaparecer nas próximas décadas. Cada idioma perdido representa também o desaparecimento de formas únicas de compreender a natureza, classificar espécies, transmitir histórias e registrar conhecimentos sobre o ambiente.

Por reconhecer essa urgência, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o período de 2022 a 2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas, coordenada pela UNESCO. A iniciativa busca fortalecer políticas de documentação, revitalização e valorização desses idiomas, considerados parte fundamental do patrimônio cultural da humanidade.

 

Um futuro construído em parceria

Nas últimas décadas, tornou-se cada vez mais evidente que muitos dos grandes desafios globais — como as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a segurança alimentar e a saúde ambiental — não poderão ser enfrentados apenas com soluções tecnológicas. A colaboração entre ciência e conhecimentos indígenas vem sendo apontada como um caminho promissor para compreender melhor os ecossistemas e desenvolver estratégias mais sustentáveis de convivência com a natureza.

 

“Em vez de tratar os saberes tradicionais como simples curiosidades culturais, pesquisadores de diversas áreas vêm mostrando que eles podem complementar pesquisas acadêmicas.”

 

Ao dedicar a edição de 2026 do Dia Internacional dos Povos Indígenas às parteiras tradicionais, as Nações Unidas ampliam essa discussão para além da conservação ambiental. O reconhecimento de seus conhecimentos reforça que cuidar da saúde, preservar culturas e proteger a biodiversidade fazem parte de um mesmo desafio: garantir a continuidade de modos de vida que ajudaram a sustentar populações humanas por séculos.

 

Capa. Rafael Vilela/ Greenpeace Brasil. Reprodução.
Blog Ciencia e Cultura

Blog Ciencia e Cultura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Palavras-chaves
CATEGORIAS

Relacionados