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Além da comunicação

Línguas transmitem olhares, memórias e história

Seres interplanetários chegam à Terra e apresentam à humanidade uma linguagem desconhecida. Com esse novo sistema de comunicação, revelam uma forma diferente de perceber o mundo, mostrando que cada idioma pode refletir uma maneira particular de organizar a realidade. Embora a premissa do filme “A Chegada”, lançado em 2016 e dirigido por Denis Villeneuve, traga uma atmosfera de mistério e ficção científica, não é necessário deixar os limites do nosso planeta para perceber um cenário semelhante. Entre as mais de 6 mil línguas faladas por mais de 8 bilhões de pessoas ao redor do globo, passado, presente e futuro convivem de formas diversas e mostram que a relação entre comunicação e percepção de mundo é muito mais íntima do que os dicionários podem registrar.

 

O que cabe em uma língua?

Diferentes sociedades desenvolveram sistemas próprios para interpretar e transmitir informações sobre o cotidiano. Nesse processo, os valores, conhecimentos e visões de cada povo influenciaram a escolha dos sons e símbolos usados para representar ideias. “Uma língua é um conjunto de palavras e regras que, quando observadas com mais atenção, revelam quem são as pessoas que fazem ou fizeram parte da sua constituição”, explica Raquel Freitag, linguista e professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Ela diz que os grupos imprimem seu modo de vida no idioma que utilizam: “deixam marcas de como pensam, vivem, do que têm medo e o que valorizam”, esclarece.

Eduardo Navarro, filólogo, lexicógrafo e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), defende que a língua é a mais alta expressão de uma cultura. “Atravessando os séculos, uma língua revela o passado de uma sociedade, as influências externas que esta recebeu, as formas de relacionamento dela com a natureza e dos seus componentes entre si”, diz. Nesse contexto, ele destaca que a diversidade de idiomas está diretamente relacionada com a identidade dos povos e à diversidade cultural. “Cada língua manifesta uma visão de mundo que somente se expressa nela”, aponta.

 

“Uma língua revela o passado de uma sociedade, as influências externas que esta recebeu, as formas de relacionamento dela com a natureza e dos seus componentes entre si.”

 

Quando um grupo de pessoas se apropria de um idioma e o incorpora como parte de sua cultura, cria uma relação de evolução mútua, em que transformações na própria sociedade podem ser refletidas na forma de se comunicar. “Se as pessoas mudam, a língua muda; se a sociedade muda, a língua muda”, diz Raquel Freitag. Ela acrescenta que isso pode sofrer efeitos, inclusive, de eventos críticos pontuais. “Por exemplo, a pandemia deixou marcas na nossa língua: palavras novas, como Covid e covidário, estruturas sintáticas, como ‘testar positivo’… Tudo isso faz parte da memória histórica da língua”, destaca.

 

O que se perde quando uma língua desaparece?

Embora mudanças façam parte da história natural das línguas e das sociedades, nem todas acontecem de forma espontânea. Fatores históricos, políticos e sociais podem causar alterações profundas ou mesmo interromper a transmissão de um idioma entre gerações, levando ao seu desaparecimento. “Um exemplo é o glotocídio no Brasil, em que o português substituiu as línguas dos povos originários”, lembra Raquel Freitag.

Eduardo Navarro explica que esse processo costuma acontecer em etapas. “Sabemos que uma língua está desaparecendo quando os mais jovens somente a compreendem, mas não a falam mais”, diz. “Segue-se a isso que tal língua sequer será compreendida pela geração posterior”, complementa.

De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), até o fim do século 21, cerca de metade das línguas faladas atualmente deixarão de ser usadas. Com elas, desaparecerão também as memórias e formas particulares de compreender o mundo que carregam. “O que se perde é a força e o vigor de uma cultura que teve aquela língua como suporte; é a experiência humana no planeta que se empobrece”, argumenta Eduardo Navarro. (Figura 1)

Figura 1. O Atlas da UNESCO destaca casos como a língua Akuntsu como criticamente ameaçada, com pouquíssimos falantes ativos.
(Foto: Adelino de Lucena Mendes/ Instituto Socioambiental. Reprodução)

 

Na prática, o desaparecimento de uma língua também pode apagar conhecimentos acumulados ao longo de gerações. Um estudo da Universidade de Zurique (UZH), por exemplo, analisou mais de 12 mil registros sobre o uso de plantas medicinais em idiomas de povos indígenas da América do Norte, da Amazônia e da Nova Guiné. Os pesquisadores constataram que mais de 75% desses conhecimentos são linguisticamente únicos, ou seja, estão registrados em apenas uma língua. Embora a maioria das espécies vegetais associadas a esses saberes não esteja ameaçada de extinção, as línguas que os preservam estão. Para os autores, o desaparecimento dessas línguas pode representar um risco ainda maior para a perda desse patrimônio do que a própria redução da biodiversidade.

 

Quem decide quais línguas sobrevivem?

Línguas não desaparecem porque são mais complexas, menos eficientes ou menos capazes de expressar ideias do que outras. “A sobrevivência de uma língua depende menos de fatores linguísticos e mais de decisões políticas, econômicas e tecnológicas: quem financia documentação, quem constrói bancos de dados e quem tem poder para dizer o que é ‘língua de verdade’ e o que é ‘erro'”, afirma Raquel Freitag. A posição é defendida por estudiosos do Departamento de Linguística da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que publicaram uma declaração afirmando que as noções de prestígio e estigmatização linguística estão enraizadas no contexto sócio-histórico e nas estruturas de poder em que as línguas são usadas e desenvolvidas.

 

“Se as pessoas mudam, a língua muda; se a sociedade muda, a língua muda.”

 

No Brasil, esse processo também pode ser observado na legislação. “A Constituição de 1988 reconhece o português como língua oficial, o que alimenta a ideia de que ‘aqui todos falam português'”, explica a pesquisadora. “Isso apaga a existência de mais de 250 outras línguas, mesmo que sejam legalmente reconhecidas”. Ela enfatiza que esse apagamento repercute em diversas áreas, deixando comunidades indígenas, quilombolas, de imigração e falantes de variedades não hegemônicas do português à margem de políticas públicas, materiais didáticos e, mais recentemente, das tecnologias de inteligência artificial (IA).

Quando o círculo se torna vicioso, a ameaça é ainda maior. “Modelos de inteligência artificial são treinados, principalmente, com dados abundantes de línguas e variedades de um idioma que já são dominantes e bem documentadas”, diz Raquel Freitag. “Assim, línguas com mais dados ficam mais presentes na IA e línguas com pouca documentação, como indígenas, de imigração e variedades populares, ficam ainda mais invisibilizadas”, alerta.

 

É possível preservar idiomas ameaçados?

Se usadas com o propósito de preservação, as tecnologias de IA também podem se tornar aliadas. Um exemplo é a Plataforma da Diversidade Linguística Brasileira, iniciativa de pesquisadores do Grupo de Trabalho de Sociolinguística da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL) e da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN). O projeto busca construir um repositório digital público e gratuito para documentar, catalogar e disponibilizar o patrimônio linguístico brasileiro, reunindo registros do português e de suas variedades, de línguas indígenas, de imigração e de sinais, muitas delas ameaçadas de desaparecer. “Sem dados estruturados, essas variedades do português simplesmente não existem para a IA”, afirma Raquel Freitag. “É essa lacuna que tentamos preencher com a plataforma”, declara.

As ferramentas atuais também ampliaram as possibilidades de documentação das línguas. “A tecnologia favorece a coleta de dados em áudio, vídeo e transcrições, acompanhados de informações como quem fala, onde, em que contexto e em quais condições a gravação foi realizada”, explica.

Depois da coleta, os registros passam por um processo de tratamento e anotação linguística. O conteúdo é transcrito e classificado em diferentes níveis de análise, como o fonético, o morfológico e o sintático, seguindo protocolos padronizados que permitem comparar dados produzidos em diferentes regiões e por diferentes grupos de pesquisa. “O Brasil já possui importantes acervos sociolinguísticos, alguns iniciados na década de 1960, como o Atlas Linguístico do Brasil”, destaca Raquel Freitag.

 

Línguas perdidas podem ser recuperadas

Quando há apoio político e mobilização das comunidades, o desaparecimento de uma língua pode ser interrompido e até revertido. “O exemplo mais importante disso no século 20 é a ressurreição do hebraico em Israel”, recorda Eduardo Navarro. Ele explica que o principal responsável por esse movimento foi Eliezer Ben Yehuda, linguista e ativista judeu que se mudou para a Terra Santa antes da criação do Estado de Israel e liderou os esforços para recuperar o hebraico como uma língua de uso cotidiano. Com a atuação de educadores, comunidades judaicas e, posteriormente, o apoio institucional do Estado israelense, o idioma voltou a ser transmitido como língua materna e hoje é falado por milhões de pessoas.

No Brasil, o pesquisador cita o caso do Tupi clássico, que deixou de ser transmitido como língua materna no século 18 e, recentemente, voltou a ser ensinado nas escolas da reserva Potiguara, na Paraíba. “Já conta com bons falantes e conhecedores, muito embora o processo de sua revitalização ainda esteja no começo e tenha avançado mais lentamente, uma vez que o apoio do Estado brasileiro não é tão intenso como ocorreu em Israel”, destaca o pesquisador. (Figura 2)

Figura 2. Potiguaras da Paraíba aprendem Tupi
(Foto: Trilhas dos Potiguaras/ PB. Reprodução)

 

Para ele, recuperar uma língua significa também recuperar parte da história e da identidade de seus povos. “No caso dos Potiguaras, voltar a falar sua língua ancestral significa um fortalecimento da identidade indígena desse povo, enfraquecida ao longo dos séculos pela miscigenação e aculturação ocorridas em um contato multissecular com a sociedade brasileira”, aponta.

 

Preservar idiomas é preservar o mundo sob diferentes olhares

No enredo de “A Chegada”, o maior desafio da humanidade era decifrar uma linguagem desconhecida que chegava à Terra. Fora da ficção, no entanto, talvez o desafio seja outro: impedir que milhares de anos de história desapareçam junto com as línguas que nasceram dentro dos limites do nosso planeta.

 

“Voltar a falar sua língua ancestral significa um fortalecimento da identidade indígena desse povo.”

 

Em um cenário em que a perda de idiomas ocorre de forma rápida e politicamente determinada, preservar a diversidade linguística significa também preservar diferentes formas de produzir conhecimento, transmitir memórias, interpretar a natureza e compreender a experiência humana.

 

Capa. Manter a diversidade linguística também implica preservar variadas maneiras de gerar conhecimento, compartilhar memórias, interpretar a natureza e entender a vivência humana.
(Foto: Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania/ Setasc. Reprodução).
Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
Bianca Bosso

Bianca Bosso

Bianca Bosso é especialista em Jornalismo Científico e bacharela em Ciências Biológicas (Unicamp). Atualmente, cursa especialização em Divulgação Científica em Saúde (ESIB). Iniciou sua trajetória na área em 2018 e é autora de textos publicados em diversos veículos, como as revistas Ciência & Cultura, ComCiência e Ciência Hoje, além de sites como Agência FAPESP, Bori, Jornal da Unicamp, Jornal da USP e Portal Campinas Inovadora.
Bianca Bosso é especialista em Jornalismo Científico e bacharela em Ciências Biológicas (Unicamp). Atualmente, cursa especialização em Divulgação Científica em Saúde (ESIB). Iniciou sua trajetória na área em 2018 e é autora de textos publicados em diversos veículos, como as revistas Ciência & Cultura, ComCiência e Ciência Hoje, além de sites como Agência FAPESP, Bori, Jornal da…
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