A inteligência artificial está sendo usada para restaurar documentos, traduzir línguas antigas, identificar artefatos e reconstruir monumentos. Histórias, sotaques, músicas, memórias e tradições ganham novos registros por meio de plataformas digitais. Mas até onde essa tecnologia pode ir e onde ela precisa parar?
Para Solange Rezende, professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC/USP), a IA é uma aliada capaz de ampliar o alcance da memória cultural. Já Cristina Meneguello, professora do Departamento de História da Unicamp (IFCH/Unicamp), observa o mesmo cenário com mais reserva: para ela, a tecnologia é apenas uma ferramenta, e o entusiasmo em torno dela pode esconder riscos sérios para aquilo que se pretende preservar.
Novas tecnologias
Solange Rezende explica que existem dois grupos distintos de patrimônio a serem preservados: material e imaterial (além do natural). “No caso do patrimônio material, temos a digitalização de documentos e objetos, fotografia de alta resolução, escaneamento 3D, fotogrametria, sensores, realidade virtual e aumentada e sistemas de informação geográfica. Já as tecnologias do patrimônio imaterial: gravação e processamento de áudio e vídeo, reconhecimento de fala, processamento de linguagem natural e mineração de textos em grandes bases de dados multimodais”, explica. Segundo ela, a mudança mais significativa dos últimos anos não está em uma tecnologia isolada, mas na integração entre elas: hoje é possível combinar texto, imagem, áudio, vídeo e informações de contexto em um só registro de memória cultural.

Figura 1. Ouro Preto (MG) é patrimônio material do Brasil
(Foto: pcmarques. Reprodução)
É nesse conjunto que a IA já opera de forma concreta. A pesquisadora cita o reconhecimento de caracteres e a visão computacional aplicados à recuperação e transcrição de documentos históricos, inclusive os degradados ou de caligrafia difícil. Modelos de linguagem auxiliam na tradução e análise de línguas antigas ou pouco documentadas; algoritmos de visão computacional ajudam a comparar e classificar artefatos; e há aplicações crescentes na reconstrução digital de objetos e monumentos, combinando imagens históricas com modelos tridimensionais.
“A IA permite criar ‘memórias digitais multimodais’, nas quais uma fotografia antiga pode ser relacionada automaticamente a documentos, depoimentos, mapas e músicas do mesmo período.”
Cristina Meneguello reconhece usos semelhantes. “A IA consegue comparar grandes volumes de dados para sugerir o formato faltante de um objeto quebrado, decifrar palavras de uma língua extinta, acelerar transcrições e apoiar a catalogação de acervos de museus”, destaca. Porém, ela faz um alerta: não é sempre que a IA terá as respostas; logo, ela irá simplesmente “inventar”, o que torna sua contribuição questionável em certos contextos. Por isso defende que é sempre necessário um especialista humano para dar a palavra final em qualquer reconstrução. Nisso as duas convergem: a IA amplia a capacidade de análise de historiadores, arqueólogos, linguistas e restauradores, mas não os substitui.
Plataformas para preservação
Uma música, um sotaque ou uma língua não se preservam apenas com texto escrito; é preciso registrar também a voz, a entonação e o contexto cultural em que aquela expressão existe. Solange Rezende considera esta uma das áreas mais promissoras de aplicação da IA: plataformas digitais permitem reunir áudios, vídeos, transcrições e traduções em bases pesquisáveis, transformando acervos dispersos em fontes de conhecimento acessíveis a pesquisadores e às próprias comunidades de origem.
O ICMC/USP mantém trabalhos nessa linha, coordenados pela professora Sandra Aluisio, voltados a tecnologias de reconhecimento e síntese de voz. Segundo Solange Rezende, se uma língua está ameaçada de desaparecer, registrar as falas de seus últimos falantes é fundamental que haja o reconhecimento automático de fala pode ajudar a transcrever e organizar esse material, enquanto modelos de IA auxiliam na construção de dicionários, corpora e sistemas de tradução. No futuro, a síntese de voz pode até permitir preservar digitalmente características específicas de pronúncia e expressão.
Mas ela mesma introduz um limite importante: não se pode confundir preservação digital com apropriação cultural. A pesquisadora explica que, como o conhecimento e os dados pertencem a pessoas e comunidades, é fundamental definir com clareza quem autoriza a coleta, quem pode utilizar os dados e para quais finalidades, explica.
“Preservar exige que alguém organize o material e crie metadados para que permaneça acessível no futuro.”
Cristina Meneguello, reforça ainda que tais plataformas tecnológicas ajudam a ampliar o acesso aos bens materiais e imateriais, tais como faziam as fotografias, filmes e gravações anteriormente. “Mas é importante ponderar que esse acesso nunca será universal: direitos de imagem e de privacidade das pessoas envolvidas não podem ser deixados de lado em nome da ampliação do alcance digital”, enfatiza.
A IA e a preservação cultural
Solange Rezende enxerga um potencial real de inovação: “a IA permite criar ‘memórias digitais multimodais’, nas quais uma fotografia antiga pode ser relacionada automaticamente a documentos, depoimentos, mapas e músicas do mesmo período, e até viabiliza interfaces conversacionais que permitem explorar um acervo cultural em linguagem natural”, defende. Ainda assim, ela traça uma distinção que considera essencial: a IA pode ajudar a registrar, organizar, relacionar e tornar acessível a memória, porém não deve ser usada para fabricar uma memória que não existiu.
Cristina Meneguello discorda da própria premissa. Para ela, a IA não cria novas formas de preservação, porque a escolha do que preservar, tombar ou divulgar é uma decisão humana, seja ela política, histórica ou estética, e é feita por pessoas reais, e não algo que caiba a um algoritmo.

Figura 2. Carimbó é patrimônio cultural imaterial brasileiro
(Fonte: Agência Senado. Reprodução)
Quanto aos riscos, Solange Rezende pontua quatro grandes desafios éticos: a autenticidade, isto é, a necessidade de deixar claro o que é documentação histórica e o que é reconstrução feita por algoritmo; o viés dos dados, já que registros que representam melhor certos grupos sociais podem levar a IA a reproduzir e até ampliar desigualdades; a propriedade e o controle dos dados, sobre quem tem o direito de armazenar e disponibilizar o registro de uma comunidade; e a privacidade e o consentimento, especialmente diante de tecnologias de reconhecimento facial, de voz e de IA generativa.
Cristina Meneguello vai além na desconfiança. Ela vê uma “grande ingenuidade” em supor que digitalizar e armazenar documentos basta para garantir sua preservação: as próprias tecnologias de armazenamento se tornam obsoletas rapidamente. “Hoje é praticamente impossível abrir um disquete ou um CD-ROM, e preservar exige que alguém organize o material e crie metadados para que permaneça acessível no futuro, inclusive respeitando prazos legais de guarda de documentos”, afirma.
O maior risco, para ela, é confiar demais na digitalização como solução para os problemas de espaço e armazenamento; uma confiança que pode colocar em risco justamente aquilo que se pretendia proteger. Sua avaliação sobre os próximos anos é de preocupação: que a tecnologia sirva de pretexto para o descarte de documentos originais, substituídos por sua imagem digital, quando, para um historiador, um documento não é uma imagem, mas um objeto com realidade física, um suporte que se transforma com o tempo, conclui.
Com isso, Solange Rezende conclui expondo um cenário futuro de expansão técnica bem-sucedida: mais integração multimodal (texto, áudio, imagem, vídeo, contexto num só sistema), interfaces conversacionais para explorar acervos, e línguas ameaçadas ganhando registros de voz cada vez mais completos. Pode-se dizer que é um futuro de mais acesso e mais conexão entre fragmentos de memória que hoje estão dispersos.
Por outro lado, Cristina Meneguello reconhece a capacidade técnica das IAs, mas reforça o uso social dela: documentos originais descartados após o processo de digitalização, perda da dimensão física do patrimônio, confiança cega em armazenamento que se torna obsoleto, como, por exemplo, os as fitas cassetes, os DVDs e os disquetes.
Próximos passos
No início desta reportagem, lembramos que a fotografia, ao surgir no século 19, também foi usada para registrar edifícios e obras de arte antes de restaurá-los, uma tecnologia nova posta a serviço de uma tarefa antiga. A Inteligência Artificial repete essa história, mas em outra escala: é mais rápida, mais abrangente e, por isso mesmo, mais arriscada quando usada sem critério. Assim como a fotografia não decidia sozinha o que merecia ser fotografado, a IA não decide sozinha o que merece ser preservado. Logo, entre o entusiasmo com o potencial de democratizar o acesso à memória cultural e a desconfiança sobre os riscos de sua fragilidade digital, resta um consenso: a Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosa, mas a responsabilidade sobre a memória coletiva (o que guardar, como guardar e para quem guardar) continua sendo humana.


