Para os bois Garantido e Caprichoso, de Parintins (AM), os QGs são o equivalente aos barracões das escolas de samba. Quem entra em um deles nas vésperas de suas apresentações principais, realizadas no “bumbódromo” da cidade a cada final de junho, logo se impressiona com a quantidade de gente jovem no comando das atividades frenéticas de confecção de fantasias e alegorias gigantescas.
Também chama a atenção a maneira como essa atividade autodenominada folclórica se mistura com novas tecnologias. Ali são desenvolvidos usos extremamente originais para inteligência artificial, impressoras 3D, hardwares e softwares livres, blockchain e tudo mais que surgir de experimental.
Já escutei a expressão “robótica cabocla” para designar o trabalho que acontece naquelas fábricas artísticas situadas em plena floresta amazônica, a cerca de vinte horas de barco da Zona Franca de Manaus. Tudo com soluções criativas para baratear custos, reciclar materiais e com invenções cênicas que nunca foram utilizadas na Broadway, em Las Vegas ou numa abertura de olimpíada.
Apropriação? Antropofagia cultural? Tem de tudo isso um pouco. Mas o que quero salientar mesmo é que essas experiências de tecnofolclore ganharam fama nacional — e os serviços da garotada que produz tudo aquilo são requisitados em muitas outras festividades, incluindo o carnaval carioca. O que acompanhamos em Parintins é o desenvolvimento de um mercado de trabalho inédito, de uma nova economia da festa, em que antes havia poucas oportunidades de “exportação cultural”.
Tudo isso é recente. Nos anos 1970, o boi-bumbá de Parintins seguia as lições de imigrantes nordestinos, sobretudo maranhenses, com poucas inovações locais. Havia grupos de dança com fantasias “indígenas”, mas eram cópias do que se via em filmes de Hollywood, tanto que integrantes eram chamados de “tontos”, em homenagem ao parceiro do Zorro.
“Devemos pensar e fortalecer nosso patrimônio cultural imaterial como algo que está sempre em constante mutação.”
Foi então que uma turma adolescente, da qual participava Ito (Aílton Carvalho Teixeira) e seu primo Amarildo, resolveu se inspirar na cultura visual dos povos originários que viviam bem próximos da cidade. A repercussão — do que parecia ser uma decisão quase individual — foi enorme e mudou a cultura de toda a Região Norte brasileira.
O festival folclórico de Parintins começou a atrair cada vez maior público, exigindo a construção do bumbódromo e cobertura dos principais meios de comunicação nacional. Foi uma redefinição do lugar da Amazônia no imaginário cultural brasileiro. E o sucesso se espalhou rápido por todos aqueles rios. Outras cidades foram criando suas próprias festas, que se tornaram também famosas, como no cirandódromo de Manacapuru ou no piabódromo de Barcelos.
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Conto todos esses detalhes para exemplificar a viabilidade de sugestões que pretendo defender no restante deste depoimento:
A primeira delas é que devemos pensar e fortalecer nosso patrimônio cultural imaterial como algo que está sempre em constante mutação. A grandiosidade e relevância das festividades do boi-bumbá de Parintins foram produtos de muitas mudanças. Começando pela imigração de trabalhadores nordestinos para a floresta amazônica durante o período de exportação da borracha, quando trouxeram também seus folguedos populares, incluindo vários tipos de celebrações do boi. Depois, músicas, danças e fantasias incorporaram elementos locais, com a atitude ousada de turmas juvenis de Parintins para se inspirar nas culturas dos povos originários dos arredores.
Essas novidades têm lugar onde e quando menos se espera. São imprevisíveis. Algumas dessas surpresas podem fazer sucesso, outras são esquecidas. Tudo depende de inúmeros fatores, inclusive de reações mais ou menos tradicionalistas, que querem ou não manter as festas como eram antes. Os poderes públicos de Parintins abraçaram as inovações e incentivaram seu crescimento inédito, inclusive construindo o estádio em forma de ferradura que ficou conhecido como bumbódromo. Se as reações interna e/ou externa tivessem sido um pouco diferentes, Garantido e Caprichoso poderiam continuar um fenômeno apenas circunscrito a um bairro daquela pequena cidade, sem a projeção nacional de hoje.
Isso tem acontecido em vários momentos importantes da nossa história festiva. Um caso eloquente foi o de imigrantes que vieram da Bahia, como Hilário Jovino Ferreira, trazendo para o Rio de Janeiro seus reisados. A mudança da data do cortejo pelas ruas, do dia de Reis para o carnaval, foi elemento fundamental para o nascimento das escolas de samba cariocas, com porta-bandeiras, mestres-salas, alas etc.
A lição parece clara: é impossível isolar cada festa, cada uma mantendo sua “autenticidade” pelo tempo afora, sem mudanças e misturas. As instituições públicas que cuidam de nosso patrimônio cultural devem, sim, fortalecer a totalidade da rede festiva, não estabelecendo de antemão a “verdade” de cada folguedo, mas sim preservando seus “links” e facilitando tanto o estudo das diversas tradições (por pessoas de dentro e de fora das diversas brincadeiras) quanto a circulação de informações interbrincadeiras.
Essa pode ser a conquista maior de iniciativas como a Rede Nacional de Mestras e Mestres das Culturas Tradicionais e Populares, política do Ministério da Cultura, ou do Inventário Nacional de Referências Culturais, ação de Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
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Percebi, de forma muito concreta e clara, a existência dessa rede festiva nacional quando, de maio de 1998, na festa do Divino de Macapá, a fevereiro de 1999, no carnaval dos arredores de Cuiabá, percorri todo o Brasil documentando manifestações tradicionais (implico um tanto com essa classificação, sei que também são modernas) e populares: marabaixo, siriri, cururu, oilarai, moçambique, dança do lelê, samba de parelha, tambor de taboca, fandango, marujada, bois de todos os batuques e muito mais, gerando uma série de televisão, exibida na MTV e apresentada por Gilberto Gil (vários episódios podem ser vistos a partir de uma busca no Youtube), um livro com fotografias e textos, e uma caixa de quatro CDs, sempre com o título Música do Brasil. (Figura 1)

Figura 1. Marabaixo
(Fonte: Iphan. Reprodução)
A oportunidade e privilégio de ter contato próximo com tantos folguedos, mais conhecidos como brincadeiras, em menos de um ano permitiram identificar mais os pontos de contato do que as diferenças entre elas.
Essas brincadeiras funcionam como uma teia cultural descentralizada, trocando sem parar versos, pedaços de melodias, instrumentos, passos de dança, ousadias rítmicas, umas com as outras, inclusive com a música pop das gravadoras. (Um paralelo talvez interessante: fiz minha dissertação de mestrado a partir de trabalho de campo nos bailes do funk carioca. Quando o Rio de Janeiro começou a produzir sua música local para baile funk, tudo apenas copiava o hip hop de Miami ou Nova York. Após dez anos, ritmos do candomblé se misturam com as batidas eletrônicas e hoje o resultado é reconhecido — em pistas de dança do mundo inteiro — como algo que nasceu no Rio).
A política pública não deve nunca ser intervencionista, impondo sua visão do que deve ser cada brincadeira. Seu objetivo, repito, precisa ser fortalecer a rede, documentar sua história, atribuir poder para a gente brincante decidir, por dinâmicas internas e não por imposições de fora, qual deve ser o futuro de seu folguedo, sua celebração, seu carnaval.
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Minha segunda sugestão é colaborar com as brincadeiras para aproveitar de verdade seu potencial econômico, entendendo que brincar é uma maneira séria de desenvolver o país, desenvolvimento alegre, sustentável (ou regenerativo — regeneração ritual de corpo e de alma), promotor de igualdade.
A riqueza cultural tem efeitos transformadores e muito concretos para suas comunidades. Cada festa pode ser pensada como ativo criador de empregos, renda e crescimento local, que pode virar fatia importante do PIB. Utopia aqui: o Brasil visto como território produtor de alegria, atraindo turismo do planeta inteiro.
É triste perceber que ainda não existe calendário unificado das grandes festas realizadas em praticamente todos os nossos municípios.
“Essas brincadeiras funcionam como uma teia cultural descentralizada.”
Não seria tarefa impossível. E certamente revelaria um Brasil festivo que muita gente aqui não tem consciência de que existe nessa proporção exuberante. Acredito que haveria grandes festas (e pequenas festas muito únicas e vibrantes) praticamente todos os dias do ano. Com grande variedade: festas religiosas, festas de culinária, festas para diferentes folguedos, às vezes acontecendo no mesmo dia, numa mesma cidade.
Da festa do carneiro ao vinho em Peabiru (PR) à coreografia complexa dos festejos do Boi-de-Reis potiguar, ao Círio de Nazaré paraense. Se alguém tiver energia suficiente, pode festejar sem parar, sem repetir nenhuma festa por anos seguidos. Como não perceber o potencial econômico de um calendário festivo tão diverso, que envolve trabalho (e brincadeira, e novas ideias artísticas) de parcela mais que considerável de nossa população? (Figura 2)

Figura 2. Círio de Nazaré
(Foto: Divulgação)
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Minha terceira sugestão é igualmente inspirada pela minha viagem com o projeto Música do Brasil. Muitas mestras e mestres com os quais tive contato nesse projeto já morreram (como Mestre Vieira, das guitarradas paraenses; Mestre José Francisco, do samba de aboio sergipano; Mestra Militana Salustiana, [que gostava de ser chamada de Maria José], dos romances “medievais” do Rio Grande do Norte, e tanta gente sábia mais), levando consigo, muitas vezes, conhecimentos artísticos que não ficaram registrados em sua totalidade.
Também morreu uma geração de folcloristas que me ajudou pelo caminho e não deixou seguidores (até porque outras disciplinas, como a antropologia ou a etnomusicologia, agora estudam aquilo que antes era conhecido como folclore). Muitas dessas pessoas registraram festas populares em várias mídias, algumas que já se tornaram obsoletas. É urgente mapear esse material e cuidar de sua preservação, digitalizando e tornando tudo disponível para novas pesquisas, e para os próprios grupos de brincantes relembrarem sua história. Seria uma bela e necessária iniciativa para ser coordenada pelo IPHAN.
“A riqueza cultural tem efeitos transformadores e muito concretos para suas comunidades.”
Esse acervo pode ser complementado com registros feitos por grupos e coletivos musicais, como o paulista A Barca e o paranaense Mundaréu, que viajaram pelo Brasil coletando informações festivas que já foram incorporadas em seus importantes trabalhos. Muitos dos discos e documentários audiovisuais assim produzidos também mostram a quebra de fronteiras entre a tradição e a vanguarda, como comprovam os cantos de Juçara Marçal e Sandra Ximenes, formadas também n’A Barca.
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Poderia, por horas e horas, continuar fazendo outras sugestões na mesma linha. Mas quero ficar apenas com essas três, que considero mais urgentes e complexas, trabalho para muitos anos a seguir, conectando passado, presente e futuro, preservação e inovação, diversão e atividade econômica, que não podem ser deixadas de lado em qualquer visão de Brasil soberano e alegre.


