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Entrevista capa Sonia Maria

“Precisamos produzir ciência com as comunidades, e não apenas sobre elas.”

Confira entrevista com Sonia Maria Dias, Especialista Global em Resíduos da WIEGO

A gestão de resíduos sólidos costuma ser associada a desafios técnicos e ambientais, mas, para a socióloga Sonia Maria Dias, o tema também revela disputas por reconhecimento, inclusão e justiça social. Referência internacional em gestão inclusiva de resíduos, a pesquisadora defende que a economia circular só faz sentido quando incorpora as pessoas que historicamente sustentam a reciclagem, especialmente os catadores e as catadoras de materiais recicláveis. “Os aspectos sociais ainda aparecem de forma muito marginal, como um apêndice, e não como algo orgânico”, explica. Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista global em resíduos da WIEGO e coordenadora da Câmara Temática de Economia Circular do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, Sonia Dias  construiu uma trajetória marcada pelo diálogo entre ciência, políticas públicas e movimentos sociais. “A perspectiva de gênero veio para mim trabalhando com catadores e catadoras”, conta a pesquisadora”. Nesta entrevista à Ciência & Cultura, ela reflete sobre produção compartilhada do conhecimento, participação social, desigualdades de gênero e os desafios de construir políticas ambientais verdadeiramente inclusivas.

 

Ciência & CulturaA gestão de resíduos e a economia circular costumam ser tratadas como temas técnicos, mas seu trabalho mostra o quanto elas são profundamente políticas. Em que momento da sua trajetória ficou claro que produzir conhecimento nessa área exigiria disputar narrativas, poder e reconhecimento — e não apenas dados?

Sonia Maria Dias – Sou socióloga de formação e comecei minha trajetória profissional antes mesmo do mestrado e do doutorado. Meu primeiro trabalho foi em um programa de desenvolvimento comunitário do governo de Minas Gerais, que reunia equipes multidisciplinares para atuar em comunidades rurais e urbanas. No início, trabalhávamos com processos participativos para identificar as demandas das comunidades, em projetos que envolviam desde cisternas e equipamentos coletivos até melhorias de infraestrutura.

Depois fui transferida para Belo Horizonte e passei a integrar um projeto inovador de urbanização de vilas e favelas, que reunia engenheiros, arquitetos, cientistas sociais e pedagogos. Nossa função era ouvir a população, mapear suas necessidades e transformá-las em projetos capazes de captar recursos nacionais e internacionais.

Foi nesse processo que surgiu uma demanda que mudaria completamente minha trajetória: a implantação da coleta regular de lixo em comunidades que não tinham acesso ao serviço. Ao estudar esse tema, percebi que a gestão de resíduos não era apenas um sistema técnico, mas um sistema sociotécnico, que envolve infraestrutura, trabalho, cidadania e acesso a direitos.

Comecei então a olhar para as pessoas que estavam por trás desse sistema: primeiro os garis e, depois, os catadores de materiais recicláveis. Foi aí que compreendi que não era possível discutir resíduos sólidos sem considerar suas dimensões sociais, o trabalho formal e informal e as desigualdades no acesso aos serviços públicos.

Também vivi, desde cedo, os desafios de ser uma mulher da área das Ciências Sociais atuando em um campo tradicionalmente ocupado por engenheiros. Quando fui contratada pela Prefeitura de Belo Horizonte para continuar esse trabalho, enfrentei a resistência de quem acreditava que resíduos sólidos eram exclusivamente uma questão de engenharia e arquitetura.

Essa disputa acabou marcando toda a minha carreira. Sempre procurei mostrar que a gestão de resíduos também envolve relações de trabalho, inclusão social e participação cidadã. Se não olharmos para quem coleta os resíduos — sejam os trabalhadores da limpeza urbana ou os catadores — deixamos de compreender uma dimensão fundamental desse sistema.

Quando olho para trás, vejo que houve avanços importantes. Aquele trabalho pioneiro desenvolvido ainda na década de 1980 ajudou a ampliar o interesse pelo tema, tanto na formulação de políticas públicas quanto na pesquisa acadêmica. Hoje existe um número muito maior de profissionais e pesquisadores dedicados aos aspectos sociais da gestão de resíduos, algo que, naquela época, praticamente não existia.

 

“A gestão de resíduos não era um sistema técnico; era um sistema sociotécnico.”

 

Ciência & CulturaGrande parte da ciência que orienta políticas de resíduos nasce fora dos laboratórios, nos territórios e no cotidiano dos catadores. Que desafios — científicos e institucionais — surgem quando o conhecimento vem de sujeitos historicamente marginalizados, e como isso tensiona a forma tradicional de fazer ciência?

Sonia Maria Dias – Hoje sou muito associada ao tema da inclusão dos catadores, tanto no Brasil quanto internacionalmente, embora meu trabalho também tenha abordado outras dimensões sociais da gestão de resíduos. Essa perspectiva trouxe muitos aprendizados, mas também muitos desafios.

O primeiro deles diz respeito à forma como produzimos conhecimento. Apesar dos avanços em direção à interdisciplinaridade, a universidade ainda tem dificuldade em construir conhecimento de forma compartilhada. O saber continua sendo, em grande medida, transmitido e não coproduzido. Há resistência em dialogar com outras áreas e, principalmente, em reconhecer os conhecimentos produzidos pelos próprios sujeitos envolvidos na pesquisa.

Eu mesma vivi isso. Meu tema ficava em uma espécie de fronteira entre as Ciências Sociais e a Engenharia. Em vez de ser visto como uma oportunidade de diálogo entre áreas, muitas vezes parecia não pertencer a nenhuma delas.

Outro desafio está nas metodologias. Fala-se muito em pesquisa participativa, mas poucos pesquisadores são efetivamente preparados para trabalhar dessa forma. É preciso flexibilidade para adaptar os métodos às comunidades, sem abrir mão do rigor científico. Muitas vezes, a metodologia chega pronta ao campo, sem espaço para incorporar as experiências e os conhecimentos das pessoas que participam da pesquisa.

Há também uma questão ética importante. Para quem pesquisa, o resultado é um artigo, uma dissertação ou um livro. Para a comunidade, muitas vezes esse retorno simplesmente não existe. Precisamos pensar em formas de produzir conhecimento que também gerem benefícios concretos para os grupos com os quais trabalhamos, construindo conjuntamente as perguntas, os objetivos e os resultados da pesquisa.

Esse desafio também aparece na gestão pública. Muitos gestores nunca foram formados para trabalhar com processos participativos, facilitar diálogos ou construir diagnósticos junto às comunidades. Soma-se a isso o curto prazo das administrações públicas, que frequentemente priorizam ações imediatas em vez de políticas de Estado voltadas ao desenvolvimento social de longo prazo.

Quando lidamos com grupos historicamente marginalizados, como os catadores, ainda existe outro elemento fundamental: a confiança. São comunidades que carregam uma história de exclusão e, muitas vezes, de perseguição. Construir relações de cooperação exige tempo, escuta e presença nos territórios.

Por isso, os desafios são muitos, tanto na produção do conhecimento quanto na formulação das políticas públicas. Em ambos os casos, precisamos aprender a construir soluções com as comunidades, e não apenas para elas.

 

Ciência & CulturaSendo uma mulher atuando na intersecção entre ciência, políticas públicas e movimentos sociais, que tipos de resistências ou silenciamentos você enfrentou ao longo da carreira — e como eles se manifestam de maneira sutil ou estrutural?

Sonia Maria Dias – As resistências começaram muito cedo. Quando tentei fazer meu mestrado, meu tema praticamente não encontrava lugar dentro das próprias Ciências Sociais, porque tratava de uma área tradicionalmente vista como pertencente à Engenharia.

Mais tarde, quando morava na Inglaterra, fui aceita para fazer doutorado sobre resíduos sólidos na Universidade de Londres. Solicitei uma bolsa ao CNPq, mas o parecer foi de que resíduos sólidos não eram uma área para cientistas sociais, e sim para engenheiros. Esse episódio marcou profundamente minha trajetória.

Ao longo dos anos houve muitos avanços, mas essa dificuldade de reconhecer a dimensão social da gestão de resíduos permanece. A própria economia circular é um exemplo. Hoje o conceito ganhou enorme projeção internacional, mas durante muito tempo foi tratado quase exclusivamente sob a perspectiva técnica e econômica.

Lembro de uma conversa com a Fundação Ellen MacArthur, quando apresentei essa preocupação. Eu dizia que o famoso diagrama da “borboleta”, que representa a economia circular, era extremamente interessante, mas praticamente não dialogava com as pessoas que vivem da circularidade, como os catadores de materiais recicláveis. Faltava incorporar a dimensão social de forma estruturante.

Nos últimos anos esse debate avançou. Hoje coordeno a Câmara Temática de Economia Circular do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, que reúne universidades, organizações da sociedade civil e instituições como o Instituto Clima e Sociedade. Há muito mais espaço para discutir inclusão social do que havia quando comecei.

Mesmo assim, ainda percebo que, nos grandes documentos e nas políticas sobre economia circular, os aspectos sociais costumam aparecer de forma marginal, quase como um complemento. A inclusão das pessoas que fazem parte desse sistema continua sendo tratada como um apêndice, quando deveria ser um elemento orgânico da própria economia circular.

 

 

“O conhecimento ainda é passado, ele não é cogestado.”

 

Ciência & CulturaA economia circular ganhou visibilidade global, mas nem sempre incorpora as desigualdades de gênero, classe e raça presentes na gestão de resíduos. Que riscos existem quando esse conceito é esvaziado de sua dimensão social, e qual tem sido o papel das mulheres nesse debate?

Sonia Maria Dias – Quando falamos dos catadores, é importante entender que existem realidades bastante diferentes. Considerando toda a categoria, cerca de 70% são homens. Mas, quando olhamos apenas para as cooperativas e associações, o cenário se inverte: aproximadamente 58% dos integrantes são mulheres.

Apesar dessa presença expressiva, durante muito tempo elas ocuparam poucos espaços de liderança. As relações de gênero reproduziam padrões de discriminação bastante conhecidos: havia mais mulheres trabalhando, mas eram os homens que, em geral, assumiam a representação política e a condução das organizações.

Essa realidade mudou muito nas últimas décadas. Hoje existem lideranças femininas extremamente importantes, resultado de um longo processo de formação, fortalecimento institucional e debate sobre igualdade de gênero. As mulheres passaram a ocupar espaços de decisão, representar o movimento em fóruns nacionais e internacionais e participar das discussões sobre políticas públicas.

Ainda assim, esse processo está longe de estar concluído. As mudanças dentro das organizações caminham junto com as transformações da sociedade, e também sofrem os impactos dos retrocessos que observamos no debate público. O crescimento do machismo e de posturas autoritárias afeta igualmente os movimentos sociais e pode colocar em risco avanços conquistados ao longo de muitos anos.

Isso nos leva a outra reflexão importante. Não basta que um movimento social defenda direitos e inclusão se, internamente, continua reproduzindo relações marcadas pelo autoritarismo, pelo sexismo ou pela concentração de poder. A democracia também precisa ser construída dentro das próprias organizações.

Por isso, a perspectiva de gênero continua sendo uma das principais lentes do nosso trabalho. Seja em pesquisas sobre mudanças climáticas, economia circular ou condições de trabalho dos catadores, buscamos sempre compreender como gênero, raça e outras desigualdades influenciam os resultados e precisam ser considerados na formulação de políticas públicas.

 

Ciência & CulturaPara jovens mulheres interessadas em ciência, políticas públicas e justiça socioambiental, que conselhos você daria sobre como construir uma trajetória científica sem abrir mão do compromisso com o território, com a escuta e com a transformação social?

Sonia Maria Dias – Minha trajetória começou na gestão pública, muito antes de eu ingressar na pesquisa acadêmica. Tive a felicidade de contar com a mentoria de duas engenheiras que me acolheram em uma área predominantemente masculina e me ajudaram a compreender o universo da gestão de resíduos sólidos. Esse apoio foi fundamental para que eu pudesse construir meu caminho.

Hoje, olhando para trás, também me pergunto se algumas das resistências que enfrentei teriam sido diferentes se eu fosse um homem cientista social. Quando, por exemplo, tive uma bolsa negada porque meu tema era considerado “da Engenharia”, essa reflexão ainda não fazia parte da minha forma de enxergar o mundo. A perspectiva de gênero foi sendo construída ao longo da minha própria trajetória.

Curiosamente, ela surgiu no convívio com as catadoras de materiais recicláveis. Minha formação era em Ciências Sociais e educação popular; meu olhar estava voltado para as políticas públicas e para os processos participativos. Foi acompanhando o cotidiano dessas mulheres, ouvindo suas histórias e observando suas experiências que comecei a perceber as desigualdades de gênero presentes naquele universo.

Lembro de eventos em que eu fazia a tradução para convidados internacionais e observava mulheres catadoras ocupando o palco, enquanto alguns homens tentavam conduzir suas falas ou dizer o que elas deveriam falar. Aos poucos, essas mulheres passaram a compartilhar comigo situações que viviam no dia a dia, e foi dessa escuta que nasceu a compreensão de que havia ali uma agenda importante de pesquisa e de transformação social.

O projeto de gênero que desenvolvemos não surgiu de um desenho pronto. Antes de se tornar um projeto formal, foi construído durante mais de um ano de conversas, rodas de diálogo e aprendizagem conjunta. Eu estudava, levava ideias para discussão, ouvia as catadoras, voltava a refletir e retornava ao grupo. O projeto foi sendo desenhado coletivamente.

Essa talvez seja a principal lição da minha trajetória: o conhecimento não foi produzido apenas por mim, mas com essas mulheres. Aprendi tanto quanto ensinei. Foi um processo de construção compartilhada que reuniu universidade, organização internacional e movimento social.

Em determinado momento, também compreendi que era preciso dar um passo atrás para que elas ocupassem plenamente o protagonismo do projeto. Esse foi um processo difícil, mas profundamente coerente com a educação popular, que sempre orientou minha atuação. Facilitar não significa conduzir para sempre, mas criar condições para que as pessoas construam sua própria autonomia.

 

“Não basta um movimento social defender direitos se reproduz internamente dinâmicas de autoritarismo, sexismo e machismo.”

 

Blog Ciencia e Cultura

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