Quando um edifício histórico desaparece, uma pintura se deteriora ou documentos são destruídos por um incêndio, não se perde apenas um objeto: desaparecem também informações sobre uma época, uma sociedade e suas formas de criar e viver. É nesse ponto que tecnologias como inteligência artificial (IA), escaneamento tridimensional, fotogrametria, LiDAR e análise de grandes volumes de dados começam a assumir um papel estratégico. Ao transformar partes do patrimônio em informação digital, essas ferramentas ajudam a construir uma espécie de memória que pode ser consultada, analisada e compartilhada mesmo quando o original já não existe.
Toda cidade carrega em si uma história. Monumentos, edifícios, objetos, documentos, rituais, festas e saberes formam uma herança coletiva que contribui para a identidade de seus habitantes. O patrimônio pode ser material, como construções, obras de arte e objetos, ou imaterial e simbólico, como práticas culturais, mitos e conhecimentos transmitidos entre gerações. Preservá-lo, portanto, significa também registrar e transmitir conhecimentos que ajudam a explicar quem somos e de onde viemos.
A importância dessa preservação vai além da memória. O patrimônio cultural também pode contribuir para a educação, a pesquisa, o turismo e o desenvolvimento econômico das cidades. A conservação de edifícios e acervos históricos pode atrair visitantes, estimular atividades culturais e criar oportunidades de trabalho. Mas essa herança está permanentemente sujeita a ameaças: incêndios, enchentes, deslizamentos, vandalismo, falta de manutenção e intervenções que descaracterizam construções históricas.
No Brasil, alguns episódios recentes evidenciam a dimensão dessas perdas. O incêndio ocorrido na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, destruiu parte de um acervo relacionado à história do cinema brasileiro. Em 2018, o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, provocou uma das maiores perdas da história recente da ciência e da cultura brasileira. Já em 2024, as fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul afetaram acervos de pelo menos 50 museus. Em situações como essas, a existência de registros digitais anteriores pode fazer uma diferença decisiva.

Figura 1. Incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018 (Foto: Marcelo Sayão/ Agência Brasil. Reprodução)
Do patrimônio físico ao patrimônio digital
Uma das tecnologias mais promissoras é a digitalização tridimensional. Por meio de equipamentos como o Laser Scanner Terrestre (TLS), é possível realizar uma varredura detalhada de uma construção ou objeto e obter milhões de pontos que representam sua geometria. O resultado é chamado de nuvem de pontos: uma representação digital capaz de registrar dimensões, formas, superfícies e detalhes construtivos com elevada precisão.
A fotogrametria amplia essas possibilidades ao utilizar imagens para produzir modelos tridimensionais e produtos cartográficos. Em áreas extensas ou de difícil acesso, drones equipados com sensores podem realizar levantamentos aéreos, enquanto tecnologias como o LiDAR permitem mapear superfícies e estruturas com grande quantidade de informações espaciais. A combinação dessas técnicas possibilita documentar monumentos, sítios arqueológicos e construções sem a necessidade de procedimentos invasivos.
O grande diferencial é que esse modelo digital não precisa ser apenas uma imagem tridimensional. Uma nuvem de pontos pode funcionar como uma verdadeira base de dados espacial do patrimônio. A partir dela, profissionais podem realizar medições, comparar diferentes períodos, identificar alterações geométricas, acompanhar processos de deterioração e produzir diagnósticos que orientem intervenções de conservação e restauração.
Essa documentação ganha ainda mais importância diante de situações de emergência. Se uma edificação for parcialmente destruída por um incêndio, enchente ou deslizamento, por exemplo, um levantamento tridimensional realizado anteriormente permite comparar o estado original com a situação posterior. O registro não recupera aquilo que foi perdido, mas pode preservar informações fundamentais para avaliar os danos e orientar projetos de recuperação ou reconstrução.
Por isso, não existe uma única tecnologia capaz de atender a todos os projetos de preservação. Um monumento pode exigir um levantamento terrestre extremamente detalhado, enquanto um sítio arqueológico de grandes dimensões pode se beneficiar da combinação entre LiDAR e fotogrametria aérea. Estruturas que possuem ambientes internos e externos também podem exigir diferentes equipamentos e métodos de captura. Antes de qualquer levantamento, é necessário considerar as características do patrimônio, as condições de acesso, o grau de precisão desejado e a finalidade dos dados.
Inteligência artificial para organizar o passado
Se o escaneamento 3D ajuda a preservar a dimensão física dos objetos, a inteligência artificial pode contribuir para organizar e interpretar grandes volumes de informações. Uma pesquisa conduzida junto à Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec) da Unicamp desenvolveu um método para catalogar digitalmente, de maneira automatizada e precisa, objetos presentes em museus brasileiros. O trabalho utilizou algoritmos de IA para extrair informações de imagens e descrever características dos itens. A metodologia pode melhorar a catalogação digital e contribuir tanto para a preservação quanto para a acessibilidade do patrimônio cultural. A pesquisa também resultou em uma base de dados com imagens de peças do patrimônio cultural brasileiro, destinada ao treinamento de modelos de visão computacional baseados em técnicas de Deep Learning.

Figura 2. Escaneamento e modelagem do Museu Imperial de Petrópolis ( Fotos: Autodesk. Reprodução)
A inteligência artificial, nesse contexto, não substitui o trabalho de historiadores, museólogos, arquivistas, restauradores ou outros especialistas. Seu potencial está em auxiliar tarefas repetitivas e lidar com grandes quantidades de dados, permitindo que os profissionais tenham ferramentas para localizar, classificar e relacionar informações com maior rapidez. Textos antigos, imagens, documentos digitalizados e catálogos podem, por exemplo, ser analisados por sistemas computacionais em busca de padrões que seriam difíceis de identificar manualmente.
Dados que ajudam a conservar
Outra frente tecnológica está relacionada ao monitoramento contínuo das condições dos acervos. Sensores podem acompanhar temperatura, luminosidade, radiação ultravioleta, condensação, qualidade do ar e riscos de incêndio em museus e edifícios históricos. Conectados em rede, esses dispositivos podem gerar dados continuamente e utilizar recursos da Internet das Coisas para armazenamento e análise.
“Essa documentação ganha ainda mais importância diante de situações de emergência.”
Essa abordagem muda a lógica da conservação: em vez de agir somente depois que um problema aparece, instituições podem monitorar as condições do patrimônio e identificar sinais de risco antecipadamente. Sistemas de informação e modelos como o Building Information Modeling (BIM) também podem reunir dados sobre uma edificação desde seu planejamento até sua manutenção e restauração, auxiliando na elaboração de mapas de danos e diagnósticos do estado de conservação.
Tecnologia também é acesso
A digitalização pode ainda transformar a relação entre patrimônio e sociedade. Coleções virtuais, museus digitais, aplicativos, QR Codes e experiências de realidade aumentada ou virtual permitem que pessoas conheçam obras e lugares mesmo quando o acesso físico é limitado. Aplicativos baseados em crowdsourcing podem, por sua vez, estimular a participação dos próprios cidadãos, que passam a contribuir com informações e alertas sobre as condições de monumentos e espaços culturais.
Essa dimensão participativa é especialmente importante porque preservar não significa apenas armazenar arquivos digitais. O objetivo final é manter vivos os significados associados ao patrimônio e permitir que novas gerações tenham acesso a eles. Tecnologias digitais podem aproximar pesquisadores, instituições, estudantes, comunidades e visitantes, transformando bases de dados e modelos tridimensionais em ferramentas de educação patrimonial e produção de conhecimento.
Uma memória para o futuro
Preservar digitalmente não significa congelar o patrimônio nem substituir o objeto físico por uma cópia virtual. Um modelo tridimensional não possui a mesma materialidade, história ou experiência sensorial de uma construção, uma escultura ou um documento original. Seu valor está em outro lugar: registrar informações que poderiam desaparecer e criar novas possibilidades para pesquisa, conservação, educação e acesso público. Nesse sentido, a tecnologia funciona como uma aliada da preservação — uma ferramenta para garantir que, mesmo diante das transformações inevitáveis do tempo, parte da memória possa continuar sendo consultada.
“O grande diferencial está justamente na possibilidade de combinar diferentes tecnologias de acordo com as características de cada projeto.”
O desafio, agora, é transformar esses recursos tecnológicos em políticas permanentes de preservação. Digitalizar acervos, produzir modelos tridimensionais, criar bancos de dados e aplicar inteligência artificial exige equipamentos, profissionais capacitados, infraestrutura, protocolos de segurança e investimentos de longo prazo. Também é necessário garantir que os arquivos continuem acessíveis e legíveis no futuro, evitando que a chamada memória digital se torne vítima da obsolescência tecnológica.
No fim, talvez a maior contribuição da tecnologia para o patrimônio seja justamente tornar visível aquilo que poderia ser esquecido. Cada nuvem de pontos, imagem catalogada, documento digitalizado ou conjunto de dados representa uma tentativa de registrar o presente para que ele possa ser compreendido no futuro. Quando ciência, engenharia, computação, museologia, história e participação social trabalham juntas, preservar a memória deixa de significar apenas proteger coisas antigas: passa a ser também construir conhecimento para as próximas gerações.


