Borboletas como metáfora
Articular ciência e arte, mesmo que num artigo científico, não pode se resumir a somente discutir o tema a partir de artigos e pesquisas científicas. Por isso, inicio este texto com um poema de Manoel de Barros, [1] que nos leva pensar sobre a vida, a ciência e a arte, temas que procurarei articular nas discussões.
Borboletas
Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
Provavelmente a intenção do poeta não tenha sido sensibilizar o leitor para a ciência, embora ela seja citada no poema. No entanto, uma vez apresentada uma obra artística, não se tem controle sobre ela e sobre a relação que as pessoas estabelecem com ela. Ou seja, o interlocutor interpreta qualquer obra e qualquer discurso a partir das referências que possui. A análise do discurso nos ajuda a compreender que o interlocutor mobiliza seu interdiscurso e sua memória discursiva no ato da recepção; assim, ele lê qualquer obra e qualquer discurso a partir das condições de produção e das filiações de sentido que já possui. [2]
Por isso, ao ler esse poema, mentalmente parafraseio Manoel de Barros, e sempre me pego pensando que foi a Ciência que me convidou a ela. E que o privilégio laboral de ser uma cientista me atraiu, acreditando que, por certo, eu teria uma visão diferente da humanidade e das coisas. Eu imaginava que o mundo visto da ciência seria um mundo aberto ao conhecimento. Daquele ponto de vista, eu vi muitas coisas. E é sobre essas coisas que vi, a partir do mundo da ciência e com a lente da arte, que escrevo esse texto.
Pratico teatro há mais de 20 anos, em diferentes funções e espaços, e desde 2019 atuo em grupos de teatro que produzem espetáculos teatrais para divulgar ciência. Em 2025 participei de uma mesa redonda que me deixou profundamente inspirada, o tema era divulgação científica e a metáfora da borboleta foi usada para nomear a conferência. O título da conferência foi “Para que haja Borboletas em nosso quintal é preciso divulgar o conhecimento”. [3] Neste texto proponho falar de ciência e arte, especialmente o teatro sobre ciência, utilizando para isso a metáfora das borboletas, tendo por objetivo apresentar o teatro científico como uma possibilidade de experiência estética com a ciência.
E o que isso tem a ver com o ensino de ciências? Tal experiência pode favorecer um encantamento e estabelecer novas formas de aproximar a ciência e seus temas das pessoas por meio de linguagens pictóricas e metafóricas (Figura 1), além de possibilitar a humanização da figura do cientista e da própria ciência.

Figura 1. Transformação. Cena do espetáculo A borboleta da colina, 2021.
(Créditos: Gabriel Oliveira. Reprodução)
Por exemplo, ao analisar a imagem da Figura 1, o que se vê? Do lado direito, uma mulher segura uma flor murcha numa das mãos e faz um gesto como quem explica ou questiona algo com a outra mão. No lado esquerdo, através de um tecido translúcido há uma silhueta de uma flor bela sendo segurada por uma mão. Há um contraponto entre flor bela e flor murcha numa mesma cena, no entanto, a beleza da flor da sombra não pode ser vista diretamente, mas a forma revela indícios de que ela está viçosa, suas folhas estão túrgidas. A iluminação também revela algo: a luz de frente ilumina o questionamento ou a explicação; a luz de trás (luz de contra, como se diz no teatro) aquilo que não se vê diretamente, mas que pode ser questionado. Essa imagem pode falar sobre ciência, especialmente ao mostrar diferentes expressões de um mesmo objeto (flor viçosa e flor murcha), e ao posicionar a figura da explicação ou do questionamento a frente de algo que acontece, mas ainda não é uma imagem nítida. Ainda, a fotografia em preto e branco ajuda a não fixar a atenção nas cores, permitindo explorar as figuras que a imagem quer mostrar.
“O teatro científico combina rigor conceitual e recursos artísticos para sensibilizar o espectador, provocando reflexões e experiências estéticas sobre a ciência e seus processos.”
Esse primeiro movimento de ancoragem na arte para falar de ciência pode ser relacionado com o episódio da deposição de ovos que uma borboleta faz em uma planta. Passado certo tempo os ovos eclodem e a lagarta passa então a se alimentar daquela própria planta para chegar a outra fase. Em algum momento da trajetória de artistas e cientistas, houve um despertar para a arte e/ou para a ciência: na escola, em atividades de ensino, ou em experiências familiares e sociais. É como se uma “sementinha” fosse plantada, uma curiosidade sobre um tema ou uma área é instigada, e ao longo do tempo ela vai crescendo até que já não cabe mais em si e há a necessidade de se transformar em algo maior.
Metamorfose: Teatro, Ciência e Experiência
O teatro científico também é conhecido como teatro de divulgação científica, ou teatro para divulgação da ciência, ou teatro de temática científica, ou simplesmente teatro-ciência. Trata-se de um conceito polissêmico, em que a comunidade de praticantes e pesquisadores não definiu uma terminologia única e diferentes autores tem defendido diferentes nomenclaturas. [4,5]
Neste texto adotamos o termo teatro científico para abarcar as produções que, embora por vezes categorizadas sob outras nomenclaturas na literatura, compartilham o propósito de apresentar a ciência ao público. Trata-se de uma vertente alinhada ao campo da divulgação científica que mobiliza a linguagem teatral para mediar o conhecimento ao público, [6] unindo a estética, a técnica e a sensibilidade do teatro à história, aos conceitos e à vivência do fazer científico. Desse modo, o teatro científico combina rigor conceitual e recursos artísticos para sensibilizar o espectador, provocando reflexões e experiências estéticas sobre a ciência e seus processos.
A aproximação entre teatro e divulgação científica vem sendo difundida tanto no contexto nacional, como internacional. No Brasil, eventos como o festival Ciência em Cena [7] e espaços em museus de ciência [8] são exemplos de promoção do teatro científico. Em Portugal, o Theatre About Science [9] é um exemplo desse tipo de ação. O teatro científico hoje no Brasil é desenvolvido por grupos, normalmente vinculados a espaços institucionais como escolas, universidades e espaços de divulgação científica, ou a grupos teatrais autônomos, a exemplo do Arte e Ciência no Palco [10] e a Companhia Delas de Teatro. [11,12]
O teatro científico, considerando espaços formais ou não formais de ensino, é uma linguagem potente na produção de uma experiência estética. Para compreender essa experiência estética trago dois nomes que são referências no campo da educação para ampliar nossa compreensão: a perspectiva de Dewey, [13] que a entende como um evento integral que mobiliza o sujeito em sua totalidade, e a perspectiva de Larrosa Bondía, [14] que se refere a aquilo que “nos passa” e nos transforma.
A experiência estética é uma experiência integral, que tem começo, meio e fim, carregada de emoção e significado. No teatro científico, o espectador não recebe apenas uma informação passiva; ele vive uma experiência estética que ressignifica o conteúdo científico, pois os diferentes elementos do teatro corroboram para essa experiência: o texto, a visualidade, a sonoridade, a presença. O teatro científico proporciona uma experiência estética deweyana, onde o conceito científico ganha vida e corpo, gerando um engajamento que outras formas de apresentação expositivas não conseguem alcançar.
“A divulgação científica é ‘esforço cultural pedagógico’ e uma ferramenta de cidadania, essencial para combater a desinformação e promover a alfabetização científica em espaços de educação não formal.”
Analogamente ao ciclo de vida de uma borboleta, nesta miscelânea de conceitos sobre ciência, teatro e experiência, é que uma lagarta se transforma em borboleta. É a fase da pupa ou crisálida, quando a lagarta já não pode mais crescer e precisa se transformar em algo novo. Para isso, ela se fecha num casulo, parecendo inativa quando vista por fora. No entanto, por dentro, está ocorrendo uma transformação radical em seu corpo que se reorganiza para dar origem à borboleta: a energia acumulada ao longo das semanas em que a lagarta se alimentou é liberada na forma de fluidos digestivos que “dissolvem” os tecidos, músculos e órgãos da borboleta, formando uma espécie de líquido nutritivo. Neste líquido, as células se reorganizam, a informação genética presente nelas vai ajudar a construir cada parte do corpo do inseto adulto.
Na divulgação científica feita no teatro, estão presentes esses vários campos do conhecimento: a ciência é acessada, a arte é acessada, ambas são transformadas e mantém a “energia” (a essência) que as compõe inicialmente, a experiência estética é propiciada ao público e aos próprios artistas. Todos (artistas e espectadores) se alimentam, em menor ou maior grau da arte e da ciência e vivem a experiência estética que o teatro científico pode proporcionar.
A borboleta da colina
Como a “experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca”, [15] vou apresentar a experiência que um espetáculo de teatro científico me proporcionou, na expectativa de que ao compartilhar experiência outras pessoas se disponham a ter e proporcionar essa experiência com a ciência por meio do teatro.
“A borboleta da colina”, espetáculo do Grupo Flogisto, um coletivo teatral autônomo do estado do Paraná que produz peças para falar de ciência, tem dramaturgia de Renan Sota Guimarães [i] e apresenta acontecimentos que envolvem a preparação de um jantar para convidados indesejados. No texto, enquanto o anfitrião está trabalhando em seus preparativos, ele conta sobre seu fascínio por borboletas, desde a infância, especialmente a borboleta azul que avistava na colina. O anfitrião está atrasado na preparação do jantar (Figura 2), pois no dia anterior sentiu uma forte dor no peito ao se levantar para sair comprar o jantar, conforme podemos ver no trecho do espetáculo:
Lá no banquinho da praça estava eu sentando, quando olhei para o relógio e percebi que a hora já tardava e eu ainda ali a admirar as flores, foi quando levantei repentinamente e senti uma dor terrível em meu peito, parecia que haviam enfiado uma faca no meu coração e girado com força tentando arrancá-lo de mim. A dor foi tão grande que caí de costas e bati a cabeça na quina do banco. Fiquei ali estirado no chão, tudo sumiu por um instante, até que abri os olhos e havia uma moça agachada próximo à minha cabeça. Você está bem? – Disse ela. Respondi – Não muito bem, mas vou melhorar. Respirei fundo, levantei com uma dor de cabeça tremenda, estabilizei e vim pra cá. Não lembro muito bem como cheguei aqui, mas o que importa é que estou aqui. Resumindo a história, não fui ao mercado, tive que ir hoje, e é por isso que estou com o jantar atrasado. [16]

Figura 2. Jantar atrasado. Cena do espetáculo A borboleta da colina, 2021.
(Créditos: Gabriel Oliveira. Reprodução)
No espetáculo, quatro atores representam esse homem que prepara o jantar e em vários momentos da dramaturgia fazem alusão a diferentes formas de transformação, como nos trechos a seguir, extraídos na íntegra da dramaturgia do espetáculo. [17]
“Vocês não acham transformação uma palavra tão bonita? Transformar… é mudar de forma de aspecto através de algo… Já ouviram falar em Lavoisier? Sim? Não? Um grande químico. Ele disse que a soma da massa dos reagentes é igual a soma da massa dos produtos. É um pouco complexo isso, mas vou traduzir. Na linguagem popular isso quer dizer que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Eu fiquei pensando, tudo, tudo mesmo? Se for assim, aquela amora que eu comi, já faz parte de mim. E se uma borboleta morre próxima de um pé de amora, as bactérias vão decompô-la, as amoras vão utilizar os nutrientes da decomposição e quando a gente comer as amoras, na verdade, estaremos comendo a borboleta… E tudo o que ela se alimentou… […] Em um processo de transformação onde ocorre a composição e decomposição de corpos isso é possível, podemos ser feitos da melhor coisa que já existiu como também da mais terrível, tudo por meio de transformações sucessivas.”
“Quando era pequeno morava numa casinha branca no alto da colina, […] lembro-me da luz do sol atravessando firmemente a neblina que se formava ali nas manhãs úmidas. […] Transformação…eu preferia mil vezes não saber que aquela fumaça dançante era um processo físico de transformação. Vapor em água.”
“Será um banquete regado a carne e flores, sim, flores. Flores comestíveis. Na verdade, eles comem de tudo, parecem uns porcos famintos. Quando disse que os convidados não eram nenhum pouco exigentes, é porque realmente não são. […] Vocês devem estar se perguntando, se ele não gosta dos convidados então por que diabos ele os chamou? Aí é que está. Eu não chamei. Eles avisaram que estão vindo e não tinha como eu dizer não, na verdade eu estou impossibilitado de negar algo pra eles.”
“Naquela mesma colina, os detalhes eram o que mais enchiam meus olhos de alegria, foi lá que percebi em um fino galho de um salgueiro chorão um casulo pendurado. A cada momento passado estava eu a observar o que acontecia com ele, e no entardecer de um dia primaveril uma borboleta grandiosa esticou suas asas com tons de azul.”
Nos trechos, processos de transformação química, física e biológica são ilustrados e relacionados à transformação da matéria, do tempo que influencia tais transformações e o que resulta delas.
O espetáculo convida o público a pensar sobre as transformações que acontecem no corpo humano, quando este entra em decomposição, após a morte. Os convidados indesejados que o anfitrião está esperando, na verdade são os vermes que roerão o seu cadáver após a morte (Figura 3).

Figura 3. Jantar servido. Cena do espetáculo A borboleta da colina, 2021.
(Créditos: Gabriel Oliveira. Reprodução)
Como estive diretamente envolvida no espetáculo, desde a sua criação até momentos de conversa com o público que o assistiu, percebo pelo texto, pela experiência no teatro e pelas imagens apresentadas até aqui, que termos e conceitos científicos, música, dança, iluminação, figurino e cenografia falam de ciência e envolvem o público numa experiência estética em que a ciência é abordada em linguagem explícita e também em linguagem metafórica. A transformação da matéria apresentada pela metáfora de ações humanas e fases da vida da borboleta, suscita discussões sobre brevidade da vida e a necessária compreensão de que a morte acomete a todos os seres vivos. Mas, também, discute que a matéria que compõe um corpo hoje carrega muitas partículas que já estiveram em outros corpos e objetos. E, portanto, quando alguém morre, os átomos daquele corpo formarão novas ligações químicas e farão parte de novas substâncias e novos seres. Assim, a transitoriedade da vida, tema pouco abordado no ensino de ciências, é apresentado de forma leve e poética.
Borboletas no quintal
Depois de ser ovo, lagarta, de se transformar em pupa e sofrer metamorfose, a borboleta chega à vida adulta e se alimenta (e por consequência, faz a polinização) e se reproduz. Nesses processos ela se comunica e realiza migrações com distâncias variadas, a depender da espécie. Metaforicamente, ouso dizer que borboletas são como ideias científicas: tem voo livre e transportam informação/material. A circulação de ideias científicas na sociedade é, também, um indicador de aceitação e reconhecimento da ciência como uma forma de conhecimento, tal como a presença de borboletas num espaço indicam um ambiente com boa qualidade, já que, devido à sua sensibilidade às mudanças climáticas, qualidade da vegetação e poluição, a presença ou ausência desses insetos reflete a saúde de um ecossistema.
“Apresentar o teatro científico como uma possibilidade de experiência estética com a ciência, e articulando-o à metáfora da borboleta, pode-se dizer que ambos envolvem movimento e adaptação.”
Aqui, gostaria de reforçar um aspecto a que esse texto se filia, a divulgação científica. A divulgação científica é “esforço cultural pedagógico” e uma ferramenta de cidadania, essencial para combater a desinformação e promover a alfabetização científica em espaços de educação não formal. Para desenvolvê-la é preciso levar em conta as fontes de conhecimento, os atores, veículos, linguagens e intenções do processo de divulgação. [18] Como defendo neste texto a promoção de uma experiência estética com o conhecimento científico e apresento o teatro como uma linguagem e forma de expressão viável para tal, a metáfora da borboleta auxilia nessa ideia de usar signos e linguagens distintas para comunicação, como é o caso das expressões artísticas. Deixo aqui para o leitor, alguns exemplos de perfis no Instagram de projetos e coletivos teatrais que usam o teatro para comunicar ciência em contextos de ensino diversos: @gtc.uepg, @grupoflogisto, @nucleoouroboros, @cienciaencenada, @projetocienica, @bandosiriema, @teatrocientifico_unila, @cia.neperfekta, @fanaticosdaquimica, @tubo_ensaio, @quitrupe.unifei, @quimica_em_acao. Certamente existem outros, e todos promovem a divulgação científica na perspectiva de inspirar pessoas a se interessar pela ciência.
Retomando o objetivo inicial, apresentar o teatro científico como uma possibilidade de experiência estética com a ciência, e articulando-o à metáfora da borboleta, pode-se dizer que ambos envolvem movimento e adaptação. Qualquer experiência deriva do acesso a ela e da disponibilidade de quem a vivencia. Assim, desejo a quem chegou até aqui, novas experiências com a ciência por meio do teatro, seja da posição de espectador, seja da posição de cientista, seja da posição de artista. Se necessário, esteja aberto à metamorfose, transformando curiosidade em conhecimento.
Capa. Teatro científico une ciência e arte no contexto da divulgação científica e do ensino de ciências.
(Crédito: Renato Mangolin/ Museu da Vida Fiocruz. Reprodução)
NOTAS
[i] Renan Sota Guimarães é licenciado em Química (UEPG), mestre em Ensino de Ciências e Educação Matemática (UEPG), doutor em Educação para a Ciência e a Matemática (UEM), ator, cenógrafo, diretor, iluminador e produtor cultural. Pode ser contatado pelo e-mail: renansota15@gmail.com