Viver em ruinas, universalismo no chão

Danos à população civil e ao patrimônio em campo de batalha na Síria.

Resumo

Estudo sobre a violência contra a população de Tadmur cidade vizinha a Palmira, e os danos causados a este sítio arqueológico integrante do patrimônio mundial desde 1980, na guerra entre o estado sírio e o a organização Estado Islâmico. A partir de fontes jornalísticas e documentos institucionais, discute-se a dissociação entre a reparação dos monumentos e dos danos às comunidades locais, defendendo-se a criação de regime patrimonial participativo para situações de conflito armado e pós-conflito.

Preâmbulo

Permanência/impermanência do patrimônio cultural e da vida humana em territórios conflagrados é o tema central deste estudo.  A reconstituição dos acontecimentos que formam o seu núcleo temático tem início em 2013, quando se consolida a ofensiva da organização Estado Islâmico do Iraque e Síria (ISIS), em confronto com o exército comandado por Bashar al-Assad. O material empírico de referência foi produzido pelos autores entre 2016 e 2018, em publicações da imprensa internacional, de agências de notícias, de instituições do sistema ONU e da sociedade civil, depois reunidas na lista ao final deste artigo. Os critérios de inclusão, exclusão e relevância não foram fixados a priori: uma trama inicial de assuntos, instituições e indivíduos foi constituída e ampliada até o recorte deixar de produzir informação nova sobre o episódio. A complementação da cronologia após 2018 e revisão formal do texto foram obtidas com uso de ferramenta de linguagem (Claude/Anthropic), a partir de prompts adequados a estas finalidades. A consistência da reconstituição teoricamente fundamentada da narrativa, e a decisão sobre o que nela entra, permaneceram a cargo dos autores. A notícia da condenação à morte de Bashar al-Assad, seu irmão e primo, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal de Damasco, em agosto de 2026, foi incorporada na revisão final, a partir de cobertura jornalística atual, fora daquele levantamento.Em foco nestas páginas, ancoradas em uma perspectiva antropológica e nas teorias críticas sobre o patrimônio, o universalismo abstrato presente na produção discursiva sobre a proteção do patrimônio mundial e sobre o envolvimento de comunidades locais no salvamento de ruínas, em contraste com as práticas institucionais. Argumenta-se que a espetacularização midiática da guerra pelas forças em confronto aprofundou os sentidos contraditórios deste conjunto monumental no deserto sírio, ao aproximar, como duas faces da mesma moeda, a interpretação insurgente do monumento como palco de terror e, de outro, cenário de oportunísticas celebrações festivas da ditadura síria e do governo russo, seu aliado. O processo tornou flagrante a ineficácia das articulações políticas e das ações coercitivas das instituições intergovernamentais em jogo, assim como a desastrosa desarticulação entre as ações em defesa do patrimônio e omissão em face do trauma dos habitantes da área protegida, vivendo em situação de crise absoluta.

A reflexão sobre este período marcante da história do patrimônio cultural da humanidade se abre a questões e perspectivas de interpretação e de gestão mais amplas, úteis à compreensão dos valores que o patrimônio adquire em ambientes marcados pela violência e devastação. Conclui-se reafirmando a necessidade de consolidar um novo regime patrimonial para o enfrentamento de situações de conflito e pós-conflito em que se articule a reparação de danos ao patrimônio cultural aos sofridos pelas pessoas e comunidades, e no qual as comunidades locais sejam participantes ativos do planejamento e implementação de ações de reparação e, nesta condição, colaborem como parceiras das agências de preservação nas obras de recuperação de sítios patrimoniais e das áreas que habitam, em geral no seu entorno.

Para o desenvolvimento deste estudo, foi necessário construir um texto que exibisse e representasse os acontecimentos a serem narrados em seu tempo-espaço, como argumenta Bakhtin a respeito da importância figurativa dos cronotopos. A série temporal aqui publicada sedimenta esta narrativa na qual, acredito, “o tempo adquire um caráter pictórico sensorial” e os acontecimentos “se concretizam, ganham corpo, enchem-se de sangue”.[1] Ao executar o procedimento canônico de selecionar e sequenciar os fragmentos textuais, surpreendi-me a “montar”, sem o pretender, um documento análogo aos dossiês do projeto Das Passagen-Werk de Benjamin, publicados postumamente com o título Paris, capitale du XIX siècle. [2] O encadeamento desses fragmentos produziu o efeito benjaminiano de ruptura, dando lugar ao gesto duplamente violento e redentor de romper o contexto vivo em que ocorreram, “arrancá los do contínuo degradado da comunicação” e fixá-los como referência, ou talvez, como “forma sígnica”, que permita acessar sensorialmente o pensamento, como concebe Bakhtin. Estes “fragmentos de pensamento” transportam de improviso o pensamento à conhecidíssima Introdução em que Hannah Arendt discorre a respeito do sentido atribuído a citações pela reflexão benjaminiana. Neste escrito, a intérprete de Benjamin retoma palavras da Canção de Ariel (SHAKESPEARE, The Tempest, Ato 1, Cena 2) sobre o mergulhador de pérolas, aquele que das águas profundas faz emergir como “thought fragments” o que “suffer[ed] a sea-change and survive as something rich and strange”. [3] Assim nasce o rastreador que, nesta narrativa, se abriga sob as tamareiras sírias.

 

Tamareiras

As águas quentes do lago sombreado refletem grandes folhas balouçantes de antigas tamareiras. Ao redor, um areal de se perder de vista. Ao longe, ruínas monumentais, restos de imponente portal e grandes colunas enfileiradas à esquerda e à direita, a indicar acesso a um conjunto de edificações de beleza excepcional. É Palmira, a Cidade das Tamareiras, como se dizia na antiguidade, que se formou junto a um oásis no deserto sírio. A qualidade das edificações, seu porte e ornamentos revelam conhecimentos, habilidades, crenças e preferências estéticas de um povo de outrora. Um teatro faz referência a Roma clássica, sugerindo a idade do sítio, seu valor histórico e a escala da população que lá viveu. No monumento há sangue. Sangue recente. De fato, muito sangue e cartuchos de balas disparadas por armamentos atuais. De imediato, não se vê sinal de vida, quer dizer, de vida de hoje, além das tamareiras e pequenos animais rastejantes.

 

“O que se fará dessas ruinas no pós-guerra e das histórias que o edifício abrigava?”

 

Noutra direção, há ruínas de um assentamento mais recente, porém vazio. Restos de edificações precárias, algumas de maior porte, outras menores, velhas ou novas, lado a lado, e um traçado urbano comum em localidades pobres da atualidade. Isto é o que resta desta cidade próxima, praticamente destruída e desabitada. É Tadmur. Aqui também há sangue nas ruas ou tingindo plásticos, trapos e papéis esvoaçantes. Entre os escombros, destacam-se minaretes de mesquitas em ruínas e um grande edifício abandonado, onde rabiscos e desenhos no reboco de pequenas celas vazias indicam que lá também houve tortura e morte. As inscrições denunciam agentes do regime Assad, pai e filho, pela barbárie estampada no edifício. (Figura 1)

Lugares onde se viveu, hoje e ontem, foram tomados de assalto por invasores. Fuga e morte são temas a pairar sobre aquele “oásis no deserto sírio, ao nordeste de Damasco”, sobre “as ruínas monumentais de uma grande cidade que foi um dos centros culturais mais importantes do mundo antigo”, “no cruzamento de várias civilizações”,[4] e sobre a modesta Tadmur, hoje despovoada. Desolação, vento e areia.

Figura 1. Cena de rua em Tadmur.
(Imagem Google Earth. Sem informação de autor. 2017.)

 

Fragmentos

Com recursos de 2018 — telefones celulares, computadores, satélites —, o rastreador busca os antecedentes da desolação dominante e, sem muito esforço, figura a vida pulsante, desejos e aspirações recentemente exterminados, assim como os tesouros saqueados ou destruídos na cidade das tamareiras por invasores. Ele desce ao patamar de 2013 e, com os fragmentos recolhidos, pode-se montar esta narração.

 

Acontecimentos, 2013

Inscrito em 1980 na Lista do Patrimônio Mundial como ID 23bis, não obstante seu glorioso passado, em 2013 o Sítio de Palmira passa a integrar outra lista da UNESCO, menos honrosa e muito preocupante: a do Patrimônio em Perigo. Tal como Alepo, Bosra e Damasco, além de antigas aldeias da Síria Setentrional e duas Fortalezas, a dos Cavaleiros (Ḥoṣn al-Akrād) e a de Saladino (Qal’at Salah El Din), o sítio monumental se encontra na rota da destruição provocada por “guerra e muitas outras ameaças” [5] não especificadas pela organização multilateral. O noticiário disponível não informa sobre quem ou o que ameaça Palmira e demais sítios, não se refere à cidade de Tadmur, tampouco à população residente nessas localidades.

Relatório periódico do Governo Sírio sobre o estado de conservação de Palmira, com foco no tráfico ilícito de antiguidades, informa que os conflitos armados vinham causando há dois anos “milhares de mortes e o deslocamento da população”, além de “turbulências e destruição, inclusive do excepcional patrimônio arqueológico e histórico do país”. Segundo essa fonte: “esculturas de pedra foram roubadas de túmulos ainda não explorados; escavações ilegais e clandestinas aumentaram; monumentos foram danificados com remoção de muitas pedras de suas fundações; embora as entradas dos cemitérios escavados tivessem sido protegidas contra assaltantes, tumbas inexploradas foram exumadas e saqueadas e pedras de fundação foram completamente removidas por maquinário pesado, para serem utilizadas como barreiras nas estradas”.[5]

 

Acontecimentos, 2014

A Diretoria Geral de Antiguidades e Museus da Síria (DGAM) informa ao Comitê do Patrimônio Mundial que o sítio fora ocupado militarmente pelas forças de Assad e usado para movimentação de tropas e veículos militares. [6] Essas informações são, logo depois, confirmadas por imagens de satélite. Vídeos postados na internet nos meses de setembro e dezembro de 2014 “mostram escavações sendo feitas por máquinas, armamento pesado sendo levado para o sítio e nele posicionado”. [7] “O sítio está sendo usado para fins militares (…), as entradas da maioria das tumbas principais foram enterradas para proteção, tal como o DGAM reportara, e mostram danos significativos em partes do Hotel Zenóbia, onde seções do teto da área central parecem ter desmoronado”. [7] Ruínas do hotel de luxo confirmam o abandono de Palmira por moradores e visitantes. (Figura 2)

Figura 2. Captura de tela de vídeo da RT (Russia Today): “ISIS destroys part of Roman theater in Palmyra – Syrian antiquities chief.”
(Imagem: Russian Today. Reprodução)

 

Acontecimentos, 2015

ISIS desencadeia, no dia 13 de maio, atos de violência contra o patrimônio e executa sumariamente pessoas apreendidas, que os brigadistas alegam ser apoiadoras do governo sírio. Há informação bastante confiável [8] de que, no dia 14, teriam ocorrido vinte e seis execuções, dez das quais por decapitação. Dia 15, mais vinte e três mortes, nas quais se incluem nove crianças. Dia 21 de maio, quinta-feira, milícias do ISIS ocupam a região de Palmira. Oficiais e ativistas pró-Assad relatam à imprensa que, até então, a prioridade dos invasores “parece ser impor o seu regime; não havia sinais de que o grupo estivesse se movendo em direção às ruínas. (…) As pessoas do lugar foram proibidas de deixar a cidade até o sábado de manhã para garantir que nenhum membro do governo que estivesse sendo procurado conseguisse fugir. Os jihadistas percorreram as ruas, anunciando por autofalantes que não se desse abrigo aos apoiadores de Assad.” [9]

Cento e cinquenta a trezentos soldados do exército sírio são executados.[10] Outros militares e civis são presos. Duas semanas após iniciada a invasão, dia 30 de maio, as pessoas detidas no Presídio Militar de Tadmur são libertadas e a destruição do edifício conhecido como “inferno na Terra”  [11] é realizada pelos milicianos, afrontando um governo reconhecidamente sanguinário. Lê-se no noticiário: “Em uma prisão se tem direitos básicos, mas aqui não se tem nada. Apenas medo e o horror. Queria que [o edifício] fosse conservado como testemunho de anos de brutalidade”, declara Salameh Kaileh, escritor palestino, preso por quatro anos. [12] “O ISIS demoliu um símbolo histórico que deveria ter sido conservado, porque em cada cela pessoas foram mortas”, afirma Ali Aboudehn, libanês. [12] Destrói-se também um testemunho importante do regime de opressão e violência a que o edifício servira.[13] O que se fará dessas ruínas no pós-guerra e das histórias que o edifício abrigava?

Pouco tempo depois, o ISIS exibe vídeo que registra a execução no anfiteatro romano de vinte e cinco prisioneiros pelo mesmo número de meninos. [14] Tem início campanha publicitária de terror, mirando a opinião pública regional e mundial, em que pelo menos dez gravações realizadas em alta qualidade técnica são veiculadas em dias seguidos, celebrando fuzilamentos e degolas, tendo o sítio do patrimônio mundial como cenário.

Na tentativa de recuperar o controle da região, tropas sírias contra-atacam dia 8 de julho, [15] quando se inicia nova batalha que se prolonga por quase um mês, até o dia 4 de agosto, quando as tropas do governo batem em retirada. [16] Duas semanas depois, nova investida do ISIS contra o sítio arqueológico tem início, com a decapitação pública de Khaled al-Asaad, [17] o arqueólogo que por quarenta anos dedicou-se à conservação destas antiguidades. O patrimônio se torna o alvo preferencial da destruição e, repetidamente, cenário das ações violentas. A máquina de propaganda do ISIS comemora a tomada de Palmira. Diversas investidas são perpetradas contra monumentos importantes, como o Templo de Baal-Shamin, [18] bombardeado em 23 de agosto; o Templo de Bel, com o respectivo cella e as colunas que circundam o Templo de Ba’al, que se torna mira nos ataques do dia 30; [19] o Arco Triunfal, alvejado no dia 4 de outubro;[20] e, no dia 26, três peças da colunata principal são alvo das forças insurgentes. [21] Cenas de morte associadas à destruição agressiva dos monumentos declarados patrimônio da humanidade ampliam o assalto, a divulgação do terror e seu efeito moral, projetando a agressão para além do sítio, da região e do país.

 

Acontecimentos, 2016

Não obstante haverem firmado perante o Conselho de Segurança da ONU os termos em que aceitariam cessar as hostilidades na Síria, assegurando que a trégua seria “monitorada de modo imparcial e transparente, com cobertura da mídia”,[22, 23] Rússia e Estados Unidos, que vinham desenvolvendo ações militares na Síria e no Iraque desde 2014, [24] permanecem no campo de batalha. Em março, a cidade e o sítio arqueológico são reconquistados pelas tropas de Assad, com o apoio da Rússia. [25]

Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a República Árabe da Síria, que fora criada pelo Conselho de Direitos Humanos em 2011, reporta às Nações Unidas o prosseguimento das atrocidades: “uma sepultura coletiva, com mais de 60 corpos, foi descoberta no final de maio de 2016, após as forças governamentais retomarem Palmira. Acredita-se que esses corpos sejam de soldados do governo e membros de Forças de Defesa Nacional aliadas, executados à queima-roupa ou degolados.” [26]

O Exército sírio retomou a cidade em março de 2016 e eventos comemorativos, que se mostraram apressados, deram margem à eclosão alhures de um salvacionismo que dificilmente se poderia considerar algo mais do que inconsequente e oportunista. Uma réplica em impressão digital 3D do Arco do Triunfo de Palmira foi empreendida pelo Institute for Digital Archaeology e instalada em Trafalgar Square, em Londres, pretendendo ser “um gesto de resistência simbólica à destruição e de apoio à conservação do patrimônio” dividiu opiniões, dando lugar a posicionamentos críticos contra a exposição pública e banalização do valor de vidas e culturas sírias, e incitação do público a tirar selfies ao lado da réplica, sem confrontar as violências que contribuíram para o cenário de destruição no Oriente Médio. Na mesma linha, foi questionada uma instalação similar em Nova York, que, segundo os críticos, não deixava claro se tinha o sentido de solidarizar-se com o povo sírio ou praticar “colonialismo digital”, com pouca transparência sobre o destino de eventuais doações associadas ao projeto e fraco vínculo com o povo sírio, situando o episódio ao lado de outros projetos de reconstrução digital como sintoma de um salvacionismo ocidental que reforçava, em vez de corrigir, a distribuição desigual de conhecimento e poder sobre o patrimônio de países do Sul Global.

No campo de batalha, as comemorações prosseguiam. Com a retomada do sítio arqueológico pelas forças de Assad, apoiadas pela Rússia, o anfiteatro romano volta à cena midiática no dia 5 de maio com novos protagonistas. Prayer from Palmira: Music Revives the Ancient Walls é o título do concerto triunfal realizado pela Orquestra do Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, [27] sob a regência de Valery Gergiev, conhecido como o maestro mais apreciado pelo Kremlin. [27] A cerimônia homenageia também Alexander Prokhorenko, general comandante morto em combate em 17 de março daquele ano e proclamado, em 11 de abril, Herói da Federação Russa. Pronunciamento de Vladimir Putin exibido em telão é o ponto alto do evento assistido por militares uniformizados e diversas pessoas (muitas crianças) em trajes étnicos, que lotavam o anfiteatro. Na gravação, realizada e distribuída pela Televisão Russa, [29] imagens da orquestra e do público no anfiteatro são intercaladas com o sobrevoo da cidade de Tadmur, que, do alto, aparenta ser, ela mesma, um sítio em ruínas.

Dois dias depois, nova comemoração, desta vez síria, é feita na arena, com o programa “The Sun Gate”, executado pela Orquestra Sinfônica Nacional e o coro de câmara do Instituto Superior de Música da Síria, regidos por Misak Bagboderian. O palco em que se encenara a brutalidade e o poder do ISIS, com fuzilamentos e degolas, é agora ocupado por músicos que celebram entusiasticamente a aliança entre Síria e Rússia e a retomada de Palmira, tudo devidamente televisionado, transmitido para o mundo e repercutido nas mídias sociais e encerrado com a execução da Marcha Triunfal da ópera Aída, de Verdi. A apresentação é retransmitida pela CCTV News e anunciada como tendo sido assistida por “famílias dos mártires de Palmira e de várias outras áreas da Síria, assim como por várias personalidades sírias e russas”.[30]

No mês seguinte, em sua reunião anual, o Comitê Intergovernamental da Convenção do Patrimônio Imaterial da UNESCO aprova, no mesmo tom celebratório, proposta do Iraque para inscrição da “Festa do Khidr Elias e suas orações” na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O Comitê entende que a medida “contribuirá para promover a paz e a atenção da mídia no Iraque” e “sensibilizar [a opinião pública] sobre a importância do patrimônio cultural intangível em caso de conflito armado e em geral”. [31] Além disso, que estas ações fortalecem o reconhecimento da “natureza dupla do patrimônio cultural intangível em emergências, nas quais, por um lado, sua viabilidade pode ser diretamente ameaçada e, por outro, seu uso como alavanca da resiliência e recuperação pode beneficiar significativamente as populações afetadas”. [32] Estimulando os Estados Partes a submeterem propostas emergenciais, a assembleia determina também que os órgãos executivos da instituição deem prioridade aos pedidos dessa natureza que venham a ser encaminhados. [32]

Na contramão do descrédito politicamente concertado das organizações multilaterais geradas no pós-guerra, consolidava-se também na esfera pública mundial forte indignação frente a estes acontecimentos, com mobilização de diversas organizações políticas e humanitárias internacionais. Algumas destas ações merecem destaque.

Em 27 de setembro, o Tribunal Penal Internacional (TPI) tomou decisão histórica, condenando a 9 anos de prisão um líder político do Mali, acusado de ter cometido crime de guerra ao comandar, em julho de 2012, a destruição de 10 edifícios históricos e religiosos em Timbuctu. [33] Pouco tempo depois, em 8-9 de dezembro, o Comitê da UNESCO para Proteção de Bens Culturais em Caso de Conflito Armado reforçou essas decisões ao aprovar pedido da Líbia, do Mali e da Geórgia para aplicação do dispositivo de “proteção reforçada”(enhanced protection) a monumentos destes países. Além disso, atualizou a implementação de estratégias para o “Fortalecimento da Ação da UNESCO para Proteção da Cultura e Promoção do Pluralismo Cultural na Eventualidade de Conflito Armado” e identificou áreas prioritárias de ação, entre as quais destaco a construção de sinergia com outros dispositivos já adotados pela organização, inclusive as Convenções do Patrimônio Mundial (1972) e do Patrimônio Intangível (2003), o compartilhamento de informações por meio da coordenação de mecanismos de acompanhamento de ações e denúncias e o convite aos Estados Membros para contribuírem financeiramente, em caráter voluntário, para a implementação das estratégias aprovadas e o fortalecimento da implementação da Convenção de Haia, de 1954. [34]

Entretanto, na Síria, a guerra não cessa e Palmira é recapturada pelas forças do ISIS no derradeiro mês de 2016. [35]

 

Acontecimentos, 2017

Em 12 de janeiro, tem início mais uma ofensiva conjunta da Rússia e da Síria, com participação, em paralelo, da “Força-tarefa Conjunta Combinada”. Operação “Inherent Resolve“, que acarreta a retomada de Palmira em 2 de março. [36]

O anfiteatro, ocupado pelo show de horror midiático do ISIS e comemorações musicais, retorna como cenário de vídeos veiculados pela milícia Caçadores do ISIS (ISIS Hunters), aliada a Assad. Na mesma data, é lançado nas redes sociais vídeo anunciando o perfil dos novos atores, como vítimas de atrocidades cometidas pelas milícias, intitulado We are the ISIS Hunters, liberators of Palmyra. O arquivo original não se encontra mais em URL pública estável. (Figura 3)

Figura 3. Caçadores de ISIS, libertadores de Palmira.
(Still de video, sem indicação de autor. Reprodução)

 

Em 24 de março, o Conselho de Segurança da ONU aprova a Resolução 2347, considerada “a primeira resolução jamais adotada por esse Conselho, focalizando o patrimônio cultural”,[37] alinhada aos dispositivos da UNESCO, a saber, a Convenção de Haia para a Proteção de Bens Culturais em Caso de Conflito Armado (1954) e seus dois protocolos, além da Convenção da UNESCO de 1970 sobre Meios de Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência de Propriedade de Bens Culturais e a Convenção de 1972 de proteção do Patrimônio Cultural e Natural Mundial. Ao reconhecer a relevância da decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) já mencionada, o alvo principal desta medida é coibir “a destruição ilegal do patrimônio cultural, de sítios e artefatos religiosos, entre outros, assim como a pilhagem e o contrabando de propriedades culturais localizadas em sítios arqueológicos, museus, bibliotecas, arquivos e outros sítios, no contexto de conflitos armados, notadamente por grupos terroristas”. Entre as medidas instituídas, a organização “reitera a sua condenação de qualquer envolvimento direto ou indireto com negociações envolvendo o ISIL, a Frente Al-Nusra (ANF) e todos os demais indivíduos, grupos, iniciativas e entidades associados com o Al-Qaida, reiterando que esse envolvimento pode constituir apoio financeiro às entidades designadas pelo Comitê 1267/1989/2253 de Sanções ao ISIL (Da’esh) e Al-Qaida”, e acarretar a inclusão em outras listas pelo Comitê”. Destaca também que “cabe aos órgãos subsidiários aplicar, aos transgressores listados, as sanções de ‘congelamento de bens, banimento de viagem e embargo de armamentos’”. Paralelamente, o Tribunal Penal Internacional (TPI) e a UNESCO firmam acordo visando “fortalecer a cooperação para proteção do patrimônio cultural”. O Conselho de Segurança destaca o papel do patrimônio cultural para a paz e a segurança.

A conexão entre destruição material e erosão do patrimônio imaterial pela via do deslocamento forçado é documentada por estudo encomendado pela Seção do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO sobre as consequências da guerra em foco para a população síria. O relatório reconhece que “poucas expressões culturais, costumes, habilidades e conhecimentos que constituem o patrimônio cultural intangível de indivíduos, grupos e comunidades na Síria foram poupados pelo conflito que tomou o país desde 2011”. [38] Mesmo assim, destaca que “em situações de deslocamento, o PCI contribui em vários graus para a resiliência psicológica, social e econômica de sírios deslocados, e lhes confere capital cultural e social. (…) algumas formas de PCI também criam para os sírios em deslocamento oportunidades para recuperar seus meios de vida perdidos, mesmo na ausência de capital econômico. (…) Além disso, PCI permite aos sírios interagir para além das diferenças políticas e etnorreligiosas exacerbadas pela guerra”.[38]

Cerca de um mês depois, [39] os Estados Unidos lançam 59 mísseis Tomahawk contra a base de Shayrat, matando ao menos dezesseis pessoas, entre elas nove civis (quatro crianças). O objetivo alegado é enviar “resposta direta ao ataque com armas químicas de Khan Shaykhun, ocorrido em 4 de abril”, vitimando 86 mortos e cerca de 30 crianças. [39] A primeira investida norte-americana às instalações de Assad termina por colocar na mesma trincheira as principais forças em conflito.

A imprensa mundial passa a dar destaque a Mossul, no Iraque, onde ocorre a destruição do Minarete Al Hadba e da Mesquita Al Nuree, no final de junho. (Figura 4)

Figura 4. “Displaced Iraqi civilians walk past the ruined Grand al-Nuri Mosque after fleeing their homes on June 30”
(Imagem: Alaa Al-Marjani/Reuters, 30/06/2017. Via NBC e outras agências. Reprodução)

 

Palavras ausentes, vidas diferidas

O rastreador desliga seu dispositivo eletrônico. A experiência imersiva vicária se interrompe, embora ainda se ouça o vento do deserto e as rajadas de metralhadoras. Ele se afasta de Palmira, Tadmur, de seus arredores. Já não distingue o rastro das pessoas, que pouco tempo antes habitavam estas paragens. À distância, observa que em outros sítios os acontecimentos se repetem com pequenas variações e anota em seu caderno de campo.

O recorte de 2013 a 2017 não é um limite de atualidade, mas o intervalo em que a violência da guerra no Oriente Médio se torna legível. Na região como um todo, Palmira poderia ter sido um caso de sucesso na demonstração de boas práticas: sítio isolado, distante dos grandes centros urbanos, inscrito na Lista do Patrimônio Mundial desde 1980, objeto de dispositivos da UNESCO, do Tribunal Penal Internacional e, ao cabo, da Resolução 2347 do Conselho de Segurança da ONU. Foi tardia, porém, a proteção do sítio e de seu entorno, como narrado pelas fontes, que também registram o recuo das agências de preservação, nacional e multilateral, frente ao prosseguimento da guerra entre o autodenominado Estado Islâmico e o Estado Sírio, e a atuação dissimulada dos Estados Unidos e da Rússia após assumirem o compromisso (de fachada) de não-intervenção, perante o Conselho das Nações Unidas. As ações bélicas, entretanto, não se desenvolveram uniformemente. Alternaram-se no controle da região as duas frentes em confronto. Até onde foi possível verificar, não parece ter havido avanços significativos na defesa do sítio. Nada se informa sobre a população, a não ser fuzilamento de pessoas, a degola do responsável pela conservação do sítio e a destruição do presídio pelos milicianos, desfecho que antecipou o que depois se generalizaria: o esvaziamento das articulações políticas multilaterais, a banalização da morte, das fugas e destruição do espaço habitado, como em Gaza e em outras localidades da região. Os acontecimentos posteriores em outras localidades não abrem outro capítulo: agravam o que Palmira torna visível.

 

“O patrimônio se torna o alvo preferencial da destruição e, repetidamente, cenário das ações violentas.”

 

As ruínas vilipendiadas de Palmira, com espetacularização da guerra no teatro romano, primeiro pelo ISIS, em seguida pelos vitoriosos de ocasião, assim como as inúmeras cidades destruídas no Oriente Médio, questionam os edificadores do patrimônio com uma urgência inarredável. Como lidar com as marcas da destruição? Apagá-las, consolidá-las como testemunho da barbárie? Quanto às pessoas que se refugiaram, não se sabe onde: estaria, para elas, a terra natal irremediavelmente perdida? Teriam acalentado algum sentido de pertencimento? O que significará, para os eventuais retornados, o reencontro com os vestígios da violência em sua terra? E se estas marcas tiverem sido apagadas? Como será conviver com o silêncio? As poucas vozes que pudemos reconhecer à distância já anteciparam o seu alerta. Yassin al-Haj Saleh, ex-presidiário de Tadmur, questiona a demolição do “inferno na Terra” [40] sob Assad: “A destruição da prisão, que era um símbolo de nossa escravidão, é a destruição de nossa liberdade. Este foi um grande serviço [prestado pelo ISIS] ao regime de Assad.” [39] A destruição de estruturas edificadas atinge a matéria que baliza os sentidos socialmente compartilhados de lugar e de realidade, que alimentam os “valores de rememoração” que a elas se agregaram, não por mera antiguidade, como concebeu Riegl, [41] mas pela pátina simbólica social e historicamente produzida que a elas aderiu.

Nessas ruínas perduram sentidos de uma antiguidade que é, contraditoriamente, civilizada e bárbara. É certo que o sítio descrito pela UNESCO como “um oásis no deserto sírio” permanece “no cruzamento de várias civilizações” como interpretavam os técnicos do patrimônio (UNESCO, 2026). Porém, os acontecimentos relatados neste estudo claramente mostram que, hoje como ontem, em sítios de combate há poucas vitórias para celebrar, pois, como escreveu o pensador judeu-alemão já mencionado, “não há documento de civilização que não seja, ao mesmo tempo, documento de barbárie”.[42] Notícias sobre essas atrocidades atravessaram fronteiras e se tornaram parte da vida de nós todos, seus contemporâneos. Elas atravessarão também o tempo, como informação legada aos descendentes. Sem dúvida, está-se diante de um universalismo macabro pois, enquanto a cena internacional focaliza monumentos danificados, saques e tráfico de antiguidades, perdura o inaceitável e ofensivo silêncio sobre as populações de Palmira, Alepo, Mossul e de tantos outros sítios – patrimoniais ou não – transformados em terrenos baldios de corpos, valores, conhecimentos e aspirações.

O triste episódio ocorrido no teatro romano de Palmira, que evidencia claramente o valor simbólico dos monumentos como alvos de bombardeios e vilipêndio em contextos conflagrados, expõe também a vulnerabilidade da população que vive nos seus arredores, quando não nos monumentos eles próprios como residentes. É tempo de reparar a dissociação conceitual entre danos materiais e danos sociais, que a tradição preservacionista separou. São incompreensíveis sítios arqueológicos ou cidades em ruínas quando a história e a saga de seus habitantes são silenciadas. Assim como é inaceitável que os investimentos materiais feitos na reparação de estruturas protegidas superem ou tomem o lugar da atenção dada aos danos humanos deles indissociáveis. Este princípio valeu para as cidades europeias do pós guerra e vale para os casos focalizados neste estudo, articulados pela tragédia. Entre realidades históricas passadas, investimentos curatoriais dos anos 1980 e adversidades como as aqui registradas desde 2013, o que é trazido à luz em Palmira/Tadmur sobrevive com as marcas visíveis e invisíveis das intervenções a que foi submetido, e das mortes e partidas silenciadas. Eis sua ambivalência essencial: ser a metáfora e o referente, a palavra emblemática e a coisa dita, cujos sentidos em transformação se acumulam como pátina inseparável de sua permanência. A desatenção às pessoas conviventes em sítios patrimoniais ou seu tratamento como público-alvo anônimo de ações caritativas reforçam o sentido sinistro e funesto do que é protegido, ao mesmo tempo que expõe forte turbulência na interface entre as dimensões cultural, política e emocional do viver em ruínas ou delas se distanciar.

 

2018 e depois

Em 2018, a cena midiática se desloca para Mossul e para a reconstrução espetacular de sua Mesquita al-Nuree. Embora Palmira recue ao segundo plano das atenções internacionais, desenvolve-se a progressiva incorporação dos agentes sírios — antes destinatários das decisões multilaterais — à posição de interlocutores e, por vezes, autores das obras de recuperação do sítio. O primeiro indício desse deslocamento deu-se em 2019, quando a Direção-Geral de Antiguidades e Museus da Síria leva proposta própria à mesa da UNESCO. Em 2023, a oficina científica sobre o Arco do Triunfo já reúne a DGAM, a Syrian Trust for Development e a Academia Russa de Ciências em cooperação direta, relegando a UNESCO a um papel de acompanhamento. Mas é em dezembro de 2024 — com a mudança de governo provisório e a retomada do trabalho de campo pelos próprios funcionários da agência síria — que o deslocamento se torna presença efetiva, e não mais apenas anunciada.

 

“A destruição de estruturas edificadas atinge a matéria que baliza os sentidos socialmente compartilhados de lugar e de realidade.”

 

Essa presença culmina, sem se resolver, na Segunda Conferência Internacional sobre Palmira: pela primeira vez desde 2019, autoridades sírias e “membros da comunidade local” ocupam a mesma mesa que os especialistas internacionais, e as recomendações da DGAM inscrevem, também pela primeira vez, o engajamento comunitário como prioridade documentada. A fala da vice-diretora Lina Kutiefan — que articula a reabilitação do sítio à sobrevivência de quem nele trabalha e à cidade vizinha ainda sem infraestrutura — desloca ainda o próprio vocabulário do dispositivo: do monumento à infraestrutura, do patrimônio à sobrevivência de quem nele trabalha.

Seria precipitado, no entanto, ler nesse percurso uma transição consumada. Os três eixos prioritários anunciados em Lausanne, apoiados por um envelope da ALIPH da ordem de US$ 5 milhões para a Síria, continuam a ser decisão de um conselho sediado na Suíça, tomada após missão e reuniões bilaterais — não o acordo tripartite publicamente pactuado que caracterizou o caso de Timbuctu. A presença síria se expande, assim, no plano técnico e discursivo do dispositivo; permanece, até onde a documentação permite ver, ausente do plano em que se decide e se financia.

O silêncio sobre as comunidades locais a que nos referimos nos comentários sobre o período anterior a 2018 não perdura em tempos mais recentes, e vale precisar este fato. Em Palmira, sua participação figura nos documentos da DGAM e nos anúncios da conferência de Lausanne como recomendação e plano futuro — treinamentos, oficinas, envolvimento nas decisões sobre o museu —, ainda que até recentemente sem cronograma e orçamento.[43] Ao que se sabe, encontra-se ainda sem resultado verificável. Em Mossul, ao contrário, o silêncio não significa ausência de informação. Efetivamente, a UNESCO reporta a criação de mais de 7.700 empregos locais, a reabilitação de 124 edificações históricas [44] e um concurso arquitetônico que previu consulta em larga escala aos moradores sobre as opções de reconstrução do complexo de al-Nuri.[45] Entretanto, pesquisas de opinião conduzidas junto à população da cidade beneficiada pelo empreendimento que foi batizado com o ambicioso título “Reviver o Espírito de Mossul” revelam não a falta de programas em benefício dos habitantes da cidade, mas a ausência de participação efetiva das comunidades e dos gestores de patrimônio locais nas decisões que afetam diretamente suas vidas. Levantamento com 1.600 moradores mostra que a relevância do trabalho dos especialistas estrangeiros é reconhecida, mas os entrevistados reivindicam mais controle sobre o futuro de seu próprio patrimônio. [46]

Além disso, entrevistas em profundidade indicam que a recuperação de Mossul deve abranger a “reconstrução de comunidades”, sobretudo as minoritárias, e que, sendo adequadamente apoiados, projetos de base social comunitária podem contribuir para a recuperação pós-conflito. [47] Apesar dos inegáveis benefícios produzidos pelas ações em curso, é preciso reconhecer que, nos dois casos, por vias distintas — a presumível indiferença em Palmira e a marginalização das comunidades em Mossul — o destino das populações locais dos sítios afetados permanece na contramão do espírito das metas globais de desenvolvimento sustentável adotadas pela maioria das instituições em ação, sem alcançar a condição de agentes plenos das intervenções reparatórias nos territórios que habitam. Mais preocupante ainda é o fato de que, segundo Logan, “negar às populações locais o direito de determinar as circunstâncias de sua própria vida” [48] seria um problema estrutural do próprio dispositivo do Patrimônio Mundial.

Nestes comentários finais, é preciso lembrar que a narrativa possível em face do material coletado sugere que, ao longo do processo analisado, concretizaram-se importantes ações coordenadas entre organizações multilaterais de cultura, direitos humanos, segurança e justiça. Entretanto, permite observar também graves fragilidades nas esferas de ação de cada país. Refiro-me às decorrentes de disputas de poder entre grandes potências econômicas e militares, que tornam instável e incerta a eficiência dessas ações, mas também a Estados omissos e governantes que são, eles próprios, agentes da destruição. Em uma conjuntura de multilateralismo em crise, maior se torna a demanda de eficiência às organizações que possuem mandatos supranacionais, como as do sistema ONU, em particular a UNESCO. Desse ponto de vista, pode-se inferir, com base no material apresentado, que seria bem-vindo um regime de proteção patrimonial que dispusesse sobre a especificidade das situações de guerra e de conflito social, de escala nacional ou internacional. Um instrumento desta natureza poderia, como sugerem Lixinski e Schreiber, [49] articular mais efetivamente a Convenção do Patrimônio Mundial e a de Haia, tornando mais eficientes as ações coordenadas, em que pese o recente anúncio da existência de dispositivos para este fim. [50] Ademais, sugerem os autores a criação de mecanismo que vincule a autoria do dano patrimonial — de grupo insurgente ou de aparato estatal — à reparação efetiva, além da sanção penal individual. Além de aperfeiçoar mecanismos de controle, é urgente incorporar parâmetros conceituais ainda não totalmente assimilados pelos instrumentos em uso, especialmente no que diz respeito às pessoas afetadas por ações de destruição do patrimônio.

 

Coda

Nesse ambiente social e histórico, em que se enredam as tramas que alimentam, destroem e transformam o patrimônio, o agente preservador há de persistir em fazer emergir objetos ricos e estranhos. Aqueles nos quais, em águas turvas da história, cargas excepcionais de significação se acumularam como novos investimentos simbólicos, na constante reinvenção do social.

 

Capa. Vista panorâmica do sítio arqueológico de Palmira, na Síria.
(Foto: Divulgação)

 

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[1] Bakhtin, M. (2018 [1973]). Teoria do Romance II. A formas do tempo e do cronotopo. São Paulo: 34.
[2] Benjamin, W. (1982 [1927-1929 ; 1934-1940]) Das Passagen-Werk / Paris, capitale du XIXe siècle. Paris: Cerf.
[3] Arendt, H. (1977 [1968]). Walter Benjamin: 1892-1940. In W. Benjamin, Illuminations (pp. 1-59). Glasgow: Jonathan Cape.
[4] UNESCO. (2026a). Site of Palmyra. World Heritage List. Em 14 de Agosto de 2026. https://whc.unesco.org/en/list/23
[5] Comitê do Patrimônio Mundial. (2013). Decisão 37 COM 7B.57: Site of Palmyra (República Árabe Síria).
[6] Direção-Geral de Antiguidades e Museus da Síria (DGAM). (2014). Conservation issues presented to the World Heritage Committee. UNESCO. https://whc.unesco.org/en/soc/2913
[7] Direção-Geral de Antiguidades e Museus da Síria (DGAM). (2015). Conservation issues presented to the World Heritage Committee. UNESCO. https://whc.unesco.org/en/soc/3217
[8] Malay Mail. (2015). At least 23 killed as IS advance on Syria’s ancient metropolis of Palmyra. https://www.malaymail.com/s/897603/at-least-23-killed-as-is-advance-on-syrias-ancient-metropolis-of-Palmyra
[9] The Times of India. (2015). ISIS purges Syria’s Palmyra of Assad loyalists. https://web.archive.org/web/20150525142119/http://www.timesofindia.com/world-middle-east/ISIS-purges-Syrias-Palmyra-of-Assad-loyalists/articleshow/47397855.cms
[10] The Christian Science Monitor (2015)
[11] Reuters. (2015c). Islamic State blows up empty prison complex in Syria’s Palmyra. https://www.reuters.com/article/us-mideast-crisis-syria-prison/islamic-state-blowsup-empty-prison-complex-in-syrias-Palmyra-idUSKBN0OF0SD20150530
[12] BBC News. (2015b). Palmyra’s Tadmor prison: ‘Hell on earth’. https://www.bbc.com/news/magazine-33197612
[13] International Business Times. (2015). ISIS demolishes Syria’s notorious Tadmor prison in ancient city of Palmyra. https://www.ibtimes.com/isis-demolishes-syrias-notorious tadmor-prison-ancient-city-Palmyra-1945293
[14] CNN. (2015). ISIS executes prisoners at Palmyra. https://edition.cnn.com/2015/07/04/middleeast/isis-execution-Palmyra-syria
[15] Reuters. (2015a). Syrian army says it’s closing in on Islamic State in Palmyra. https://www.reuters.com/article/us-mideast-crisis-Palmyra/syrian-army-says-itsclosing-in-on-islamic-state-in-Palmyra-idUSKCN0PJ2MU20150709
[16] Al-Masdar News. (2015). ISIS attempts a counter-offensive at Palmyra. https://www.almasdarnews.com/article/isis-attempts-a-counter-offensive-at-Palmyra/
[17] Reuters. (2015b). Islamic State militants behead archaeologist in Palmyra, Syrian official says. https://uk.reuters.com/article/uk-mideast-crisis-archaeology/islamic-state-militants-behead-archaeologist-in-Palmyra-syrian-official
[18] BBC News. (2015a). Islamic State destroys Palmyra’s Baalshamin temple. https://www.bbc.com/news/world-middle-east-34036644
[19] The Guardian. (2015). Satellite images reveal Isis destruction of Palmyra’s temple of Bel. https://www.theguardian.com/world/2015/sep/01/satellite-images-reveal-isis-destruction-of-Palmyras-temple-of-bel
[20] Al Jazeera. (2015). ISIL blows up triumphal arch in Syria’s Palmyra. https://web.archive.org/web/20151008125156/http://www.aljazeera.com/news/2015/10/isil-blows-arch-triumph-syria-Palmyra-151005033238445.html
[21] Sputnik News. (2016). Syrian Palmyra national museum completely plundered, artifacts partly destroyed. https://web.archive.org/web/20160327130520/http://sputniknews.com/military/2016/0327/1037046244/syrian-Palmyra-national-museum-completely-plundered-artifacts-partly-destroyed.html
[22] Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. (2016). Resolução 2268 (2016).
[23] ISSG (2016). International Syria Support Group. (2016, 22 de fevereiro). Terms for the cessation of hostilities in Syria. Reproduzido em Al Jazeera. https://www.aljazeera.com/news/2016/2/23/syrian-war-terms-for-the-cessation-of-hostilities
[24] Combined Joint Task Force–Operation Inherent Resolve. (2014). History. https://www.inherentresolve.mil/WHO-WE-ARE/History/
[25] Chicago Tribune. (2016). Palmyra recaptured by Syrian government forces. http://www.chicagotribune.com/news/nationworld/ct-syria-Palmyra-islamic-state-20160327-story.html
[26] Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a República Árabe da Síria. (2016). Relatório A/HRC/33/55. Nações Unidas. https://documents-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G16/178/60/PDF/G1617860.pdf
[27] The Guardian. (2016). Palmyra amphitheatre hosts Russian concert after recapture by Syrian forces. https://www.theguardian.com/world/2016/may/05/Palmyra-amphitheatre-hosts-russian-concert-after-recapture-by-syrian-forces
[28] The Independent. (2016). Russian special forces officer ordered air strike on himself to kill Isis militants surrounding him. https://web.archive.org/web/20160616000000*/www.independent.co.uk/news/world/europe/russian-special-forces-officer-ordered-air-strike-on-himself-to-kill-isis-militants-surrounded-body-a7008106.html
[29] CCTV News. (2016). Concerto sinfônico em Palmira, ‘The Sun Gate’ [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=a1k0Hr7JBKw
[30] Televisão Russa [Rossiya 1]. (2016). Prayer from Palmyra: Music revives the ancient walls [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=YLyxTc96oUI
[31] Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. (2016a). Decisão 11.COM 10.B.18. UNESCO. https://ich.unesco.org/en/decisions/11.COM/10.B.18
[32] Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. (2016b). Decisão 11.COM 15. UNESCO. https://ich.unesco.org/en/Decisions/11.COM/15
[33] Tribunal Penal Internacional. (2016). Al Mahdi case: Ahmad Al Faqi Al Mahdi found guilty of the war crime of attacking historic and religious monuments in Timbuktu. https://www.icc-cpi.int/pages/item.aspx?name=pr1242
[34] Comitê para a Proteção de Bens Culturais em Caso de Conflito Armado. (2016). 11ª Reunião, Paris.
[35] PBS NewsHour (2016). Regan, M. D. (2016, 11 de dezembro). ISIS recaptures ancient city of Palmyra. PBS NewsHour. https://www.pbs.org/newshour/world/islamic-state-recapture-palmyra
[36] Reuters. (2017). Forças sírias e russas retomam Palmira. https://ca.reuters.com/article/topNews/idCAKBN1691GI
[37] UNESCO. (2017a). Security Council adopts historic resolution for the protection of heritage. https://en.unesco.org/news/security-council-adopts-historic-resolutionprotection-heritage
[38] UNESCO. (2017b). Intangible cultural heritage of displaced Syrians: Survey report (G.Chatelard, Prep.). UNESCO, Intangible Cultural Heritage.
[39] CNN. (2017). Trump e a resposta militar dos EUA à Síria. https://web.archive.org/web/20170407021906/http://edition.cnn.com/2017/04/06/politics/donald-trump-syria-military/index.html
[40] Reuters. (2015c). Islamic State blows up empty prison complex in Syria’s Palmyra. Reuters. https://www.reuters.com/article/world/islamic-state-blows-up-empty-prison-complex-in-syrias-palmyra-idUSKBN0OF0SA/
[41] Riegl, A. (2014 [1903]). O culto moderno dos monumentos: sua essência e sua origem. São Paulo: Perspectiva.
[42] Benjamin, W. (1977[1940]). Theses on the philosophy of history. In H. Arendt, Illuminations (pp. 255-266). Glasgow: Fontana/Collins.
[43] Ditmars, H. (2025, novembro 4). Heritage experts call for international task force to plan Palmyra rebuild. Retrieved from The Arte Newspaper: https://www.theartnewspaper.com/2025/11/04/heritage-experts-call-for-an-international-task-force-to-rebuild-palmyra
[44] UNESCO. (2026b). Revive the spirit of Mossul. https://www.unesco.org/en/revive-Mossul. Em 5 de agosto de 2026.
[45] UNESCO. (2020, novembro 16). Mosul rising: UNESCO launches international architectural competition to rebuild Al-Nouri Mosque complex. Retrieved from https://www.unesco.org/en/articles/mosul-rising-unesco-launches-international-architectural-competition-rebuild-al-nouri-mosque.
[46] Isakhan, B., & Meskell, L. (2024). Rebuilding the Heritage of Mosul: Public Opinion Survey Findings. Deakin University.
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[48] Logan, W. (2007). Closing pandora’s box: human rights conundrums in cultural heritage protection. In H. Silverman, & D. Ruggles, Cultural Heritage and Human Rights (pp. 33-52). New York: Springer.
[49] Lixinski, L., & Schreiber, L. (2017). The Limits of Framing in international law: the shortcomings of international heritage protection in the ISIS conflicts. Research paper n. 17-04, Adelaide Law School, Adelaide, Australia. Retrieved September 9, 2018, from http://ssrn.com/abstract=2940087
[50] UNESCO. (2026c) Tools for the 1954 Hague Convention and its two Protocols (1954 and 1999). https://www.unesco.org/en/node/214945?hub=180145, em 21 de agosto de 2016.
Antonio Arantes é antropólogo. PhD King’s College, Cambridge. Professor Emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ex-presidente do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e da ABA (Associação Brasileira de Antropologia).
David Creimer Reichhardt é doutor em Ciências Sociais, Mestre em Antropologia Social e Bacharel em Ciência Política pela Unicamp.

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