Do Norte e para o Norte. Essa frase sintetiza a trajetória de Nadya Helena Alves dos Santos, doutora em Ciências Nutricionais, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Nutrição na Amazônia (PPGNAM/UFPA) e referência em diferentes espaços de liderança nas áreas de Saúde e Nutrição. Ao longo de sua carreira, tanto durante a formação realizada fora da Região Norte quanto no retorno à Amazônia como professora universitária, esteve sempre presente a convicção de que é necessário produzir uma ciência contextualizada e construída em diálogo com quem vive a região. “A gente precisa, primeiro, respeitar a cultura da nossa região e, depois, tentar melhorar a partir disso”, afirma. Nesta entrevista à Ciência & Cultura, Nadya dos Santos revisita os desafios, as escolhas e as conquistas de quase três décadas de história, com destaque para sua participação na criação do Programa de Pós-Graduação em Nutrição na Amazônia – o primeiro da área na Região Norte.
Ciência & Cultura – Como a Nadya que começou a estudar nutrição há quase 30 anos se tornou a pesquisadora que é hoje?
Nadya Helena Alves dos Santos – Eu me graduei em nutrição e fiz uma especialização em Nutrição Clínica na Universidade Federal do Pará, a UFPA. Trabalhei por 12 anos em uma empresa privada e, depois, fui fazer mestrado na Universidade Federal da Bahia em Nutrição, Alimentos e Saúde. Sempre quis fazer mestrado, mas não tinha essa opção em nutrição aqui no Pará. Fiquei um ano como professora substituta na UFPA e fui fazer o doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ.
Eu considero o mestrado e doutorado como um divisor de águas nessa minha trajetória científica. Foi durante o mestrado que eu entendi e comecei a gostar, especificamente, de fazer pesquisa, de trabalhar nessa área da epidemiologia. No doutorado, tive a oportunidade de colaborar com alguns projetos na área da nutrição que fizeram o meu desenvolvimento enquanto pesquisadora aumentar bastante. O doutorado foi o momento em que eu pensei que queria ser pesquisadora, queria ser professora, e aí tudo ficou mais claro.
Quando eu penso na minha trajetória científica, eu não vejo apenas os títulos e diplomas. O mais importante são todos os desafios e as escolhas que eu fiz. Acima de tudo, tive muita persistência e resiliência para chegar até aqui, ocupando espaços que sempre foram, na maioria das vezes, ocupados por homens.
Eu sempre tive à vontade, a certeza de que eu queria voltar para a Região Norte. Quando voltei, fiquei por quase 3 anos na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, a Unifesspa e depois passei a atuar na UFPA, a maior universidade do Norte, no curso de Nutrição. Eu cheguei exatamente no momento em que estava sendo implementado o Programa de Pós-Graduação em Nutrição na Amazônia, o primeiro da região norte. Acho que a gente está muito atrasado. Era um programa que já deveria existir há muito mais tempo, mas nasceu somente em 2025. Mesmo assim, apesar de ser muito esperado e aguardado, nasceu sem recursos.
A ciência vai acontecendo em várias etapas, mas o que a gente entendeu aqui é que não precisamos somente produzir conhecimento. A gente precisa contribuir de alguma forma para o nicho onde a gente está. A gente está dentro da Amazônia. Nós somos amazônidas, então eu não quero produzir ciência sendo personagem de pesquisa. Eu quero fazer pesquisa com as pessoas que estão aqui.
“Nunca me deixei ser silenciada pelo fato de ser mulher.”
C&C – Foi essa vontade de fazer ciência contextualizada junto com as pessoas que te fez ter essa certeza de que você queria voltar para o Norte?
NHAS – Com certeza! Minha certeza de voltar era uma consciência de que aqui a gente também precisa ter profissionais qualificados, porque o que eu mais ouvia quando fiz doutorado fora era que no Norte não tem nada, que eu não deveria voltar. Eu nunca pensei desse jeito. Eu acho que a nossa universidade precisa ter pessoas que têm doutorado e, hoje, a maioria dos nossos professores têm doutorado.
Além do voltar, acho que, depois que eu fui fazer doutorado na UFRJ, eu pude dar também oportunidade para outras mulheres, pessoas daqui da minha região, que achavam que não tinham a opção de ir para lá.
C&C – Você sente que, em algum momento, o fato de ser mulher influenciou na sua trajetória e te trouxe desafios que homens não teriam?
NHAS – Acho que esses desafios inerentes ao fato de ser mulher estão em todas as áreas. Na ciência, não é diferente. O que eu senti muito foi que, quando fui líder de projeto do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, o ENANI, as pessoas confundiam muito a minha posição com a do meu orientador. Ele não era mais meu orientador, era meu colega de trabalho. Eu já tinha terminado o doutorado e era uma pesquisadora desenvolvendo um projeto de pesquisa.
Eu fazia questão de corrigir isso, primeiro para não ter confusão de CPF, como eu brincava, mas também para marcar a minha posição: eu não era uma mulher sem formação, era uma mulher com formação, já doutora, desenvolvendo um projeto de pesquisa. Acho que isso é importante. Às vezes existe um ruído na forma como as pessoas enxergam você, e eu nunca deixei isso passar.
Também nunca me deixei ser silenciada pelo fato de ser mulher.
C&C – Será que essa confusão tinha a ver com isso? De achar que tem um homem por trás te orientando mesmo você sendo a líder?
NHAS – Acho que pode ser, mas também tem uma relação com o fato de que as pessoas não me conheciam. Eu estava no processo de assumir esse papel, enquanto elas já conheciam o orientador, que era o coordenador do projeto. Acho que, algumas vezes, ser mulher até me abriu portas por ter mais facilidade de me comunicar, de estar à frente do planejamento e por ter o senso de organização, que sempre foi a minha melhor qualidade.
“A cultura da nossa população é importante, a gente pode respeitar os hábitos e melhorar a forma de preparo.”
C&C – Acredita que a nutrição é vista como uma área feminina?
NHAS – Eu acho que já foi uma área dominada por mulheres, mas não é mais. Na minha época, a gente via muito isso no curso de graduação: as turmas eram majoritariamente compostas por mulheres. Hoje, acho que está bem dividido, até mesmo pelas áreas de atuação. Temos áreas de atuação que chamam mais atenção de homens e outras, de mulheres. Acho que isso aconteceu de forma natural com o tempo.
C&C – Quando percebeu que a nutrição não é só biologia, mas também tem a ver com cultura e desigualdade?
NHAS – Essa consciência, de respeitar o cultural, sempre me acompanhou. A cultura da nossa população é importante, a gente pode respeitar os hábitos e melhorar a forma de preparo, por exemplo.
Desde os primeiros estágios que eu fiz, observei que não adianta atender aqui no Norte e falar para a pessoa não tomar açaí, não comer farinha, não comer peixe frito ou algo do tipo. Faz parte da cultura, a gente tem que tentar adequar o mais perto possível do hábito saudável, mas sem perder de vista a cultura.
A gente tem uma diversidade enorme de alimentos que são consumidos aqui na nossa região de forma não adequada. Mas não são alimentos inadequados. A gente precisa, primeiro, respeitar a cultura da nossa região e, depois, tentar melhorar a partir disso, ensinando essas pessoas a consumir esses alimentos de forma adequada, saudável e aproveitando a diversidade que a gente tem aqui.
C&C – Melhorar a alimentação sem perder de vista a cultura pode ser considerado um dos maiores desafios que vocês têm hoje na área de pesquisa?
NHAS – Acho que o principal desafio é produzir políticas públicas voltadas para a realidade da nossa região, respeitando os nossos hábitos culturais. Os alimentos que a gente tem aqui são muito diferentes dos alimentos das outras regiões. As políticas mais gerais que a gente tem hoje, principalmente essas voltadas para alimentação e nutrição, não colocam essa lupa.
A gente vê o guia alimentar para a população brasileira, que, apesar de ser um material excelente, não foi pensado para a nossa região. Por exemplo, não se vê nesses materiais o açaí da forma como é consumido aqui, o jambu… Vemos o brócolis, a couve-flor, que não são do nosso hábito diário.
É por isso que é importante produzir ciência aqui. Porque a gente precisa entender que realidade é essa para que possamos produzir políticas que sejam voltadas para essa realidade, não apenas políticas gerais.
C&C – O programa de pós-graduação é bem recente, mas vocês já têm isso em mente, essa conexão com as políticas públicas?
NHAS – A gente tem tentado trabalhar com consumo dentro da nossa região e isso está entre os nossos objetivos, ter dados que subsidiem políticas públicas focadas nos nossos hábitos, nos nossos saberes e na nossa cultura.
C&C – Você foi líder de projeto no ENANI 2019. Em 2024, houve uma nova edição desse estudo. A senhora está na equipe?
NHAS – Sim. Eu coordeno, junto com uma professora da UFRJ, o eixo de antropometria, de avaliação nutricional antropométrica de crianças e mães.
C&C – A nova edição do ENANI é diferente da anterior?
NHAS – O ENANI é composto de três eixos: o eixo bioquímico, antropométrico e de consumo de alimentos. A principal diferença entre o ENANI 2019 e o ENANI 2024, é que, nessa última edição, a gente também fez a coleta de sangue das mães, o que não aconteceu em 2019.
Além disso, aumentamos a faixa etária das crianças avaliadas em 1 ano, incluindo as crianças com até 6 anos completos.
C&C – Essa avaliação das mães pretende ajudar a avaliar fatores genéticos?
NHAS – É algo que está no nosso radar, mas, por enquanto, não temos recursos para fazer.
As amostras de sangue foram guardadas em um biobanco.
Pretendemos estudar a metabolômica e ver qual é o impacto da genética da mãe na criança, tanto para crescimento e desenvolvimento infantil quanto para hábitos e para a microbiota.
“Ser resistente e resiliente faz parte. É uma qualidade que todo pesquisador ou pesquisadora precisa ter.”
C&C – Você comentou algumas vezes sobre a necessidade de ter resiliência. Houve momentos em que a resiliência foi determinante na sua carreira?
NHAS – Muitos momentos. Ser resistente e resiliente faz parte. É uma qualidade que todo pesquisador ou pesquisadora precisa ter. Se não, a gente desiste no meio do caminho por falta de tudo, de infraestrutura, por falta de entendimento da importância da ciência, da pesquisa…
A gente viveu um momento recente na história do Brasil em que nós, pesquisadores, fomos desacreditados. Acho que isso faz parte da formação, mesmo. A minha formação enquanto pesquisadora foi pautada sempre nisso, ser sempre resistente, resiliente, sem perder de vista o que eu queria conquistar.
C&C – Com tantos anos de carreira, ocupando tantas posições de destaque, você se sente uma inspiração para outras mulheres?
NHAS – Acho que sim. Durante a minha trajetória acadêmica, eu ajudei a formar pessoas, orientei e continuo orientando, formando pesquisadores.
Acho que posso ser uma inspiração para pessoas, mulheres ou homens, independente do sexo, que queiram trabalhar e desenvolver sua trajetória da forma como eu fiz, sem perder de vista meus valores, minha formação, as coisas que eu acredito, o quanto é importante chegar e ver conquistas, responsabilidades, resiliência, desafios enormes.
C&C – Isso é uma coisa que te inspira a continuar ou acaba sendo uma responsabilidade extra? Como a senhora se sente?
NHAS – Isso me inspira a continuar, a incentivar ou ser inspiração para outras mulheres, outros cientistas. Me incentiva a continuar trilhando a minha trajetória, porque eu tenho muito orgulho da forma como eu construí a minha vida acadêmica e cheguei até aqui.
Nada na vida acontece por acaso. Todas as etapas e todos os caminhos e processos que aconteceram, lugares por onde passei, foram importantes para a minha formação.
Continuar seguindo na carreira científica é algo que certamente vai me permitir ser essa pessoa que pode estar como uma inspiração na vida de outras mulheres cientistas.
C&C – Qual marca ou mensagem a senhora gostaria de deixar na ciência para as próximas gerações de pesquisadoras?
NHAS – As próximas gerações precisam ter orgulho do lugar de onde elas são e tentar sempre buscar o melhor, ser o melhor dentro da sua área. Foi isso que eu sempre busquei.
Eu sempre quis ser a melhor. Não no sentido de soberba, mas no sentido de poder fazer melhor aquilo que eu estava fazendo. Se eu escolhi estar aqui, é porque eu quero, então eu vou fazer o meu melhor. É por isso que eu me orgulho da minha história.
Eu nunca fiz nada por acaso. Eu sempre quis fazer, sempre quis estar. Acho que a mensagem é essa: faça sempre o seu melhor naquilo que você estiver fazendo. O resto vem como consequência.


