Métodos de observação de Capassi e Soares

Em 1730 Capassi e Soares iniciaram a tarefa cartográfica no Rio de Janeiro. A maior parte dos mapas conhecidos realizados na missão dos dois missionários jesuítas representam o litoral. Em carta que escreveu ao monarca, Soares afirmava que o desenho da barra do Rio de Janeiro que enviava juntamente, incluía todas as ilhas avistadas, que ele próprio traçara para utilização dos pilotos que navegassem para o Rio de Janeiro. As preocupações de caráter hidrográfico ficaram também expressas em mapas e plantas elaborados mais tarde, onde eram representadas a baía do Rio de Janeiro, uma das suas ilhas e a foz do rio da Prata. Neles são bem visíveis as sondagens de profundidade, mais uma evidente ajuda à navegação. O mapa da baía do Rio de Janeiro, a planta de uma das suas ilhas e o mapa da embocadura do rio da Prata encontram-se, respectivamente, na Bibliothèque National de France (Paris), no Aquivo Histórico Ultramarino (Lisboa) e no Arquivo Histórico do Exército (Lisboa).

Uma fonte que permite inferir que métodos e instrumentos foram empregados na prática cartográfica é o rascunho atribuído aos dois, onde aparecem oito latitudes com precisão de até 1”. O rascunho cartográfico prova que foram registrados rumos e distâncias itinerárias (estimadas em viagens). Mas, para determinar a latitude com precisão de segundo, não bastavam os instrumentos mais simples, como a bússola e o astrolábio. Eram necessários o sextante ou o quadrante. A ideia da utilização rotineira de instrumentos mais precisos é corroborada pelas quase 150 latitudes registradas durante a missão, onde um mesmo nível de rigor pode ser encontrado.

O texto que aparece no rascunho cartográfico é da mão de Soares, com sua característica caligrafia. A cópia existente no Brasil foi publicada em 1882 na Revista Trimestral do Instituto Historico Geographico e Ethnographico do Brasil, Tomo XLV, 212.

Durante a relativamente curta estadia no Brasil, antes de ser tolhido pela doença em 1736, Capassi correspondeu-se e procurou colaborar com Carbone numa nota que inclui 148 latitudes com precisão de até 1”, 89 até 1’, 2 expressas em graus, e a longitude de Vila Boa, em Goiás, calculada até 1’ em relação ao meridiano da Ilha do Ferro por Soares. Todavia, em carta que escreveu em 1735 a Martinho de Mendonça de Pina e Proença (16931743), que era um fidalgo português da Casa Real, que esteve em Minas Gerais entre 1734 e 1737 a serviço de D. João V, Capassi dizia não ter recebido de Carbone observações dos satélites de Júpiter realizadas na Europa que pudesse comparar com as suas e queixava-se da incompletude das tabelas que previam, para um meridiano de referência, os eclipses dos satélites (elementos essenciais na determinação das longitudes). Na mesma carta dizia não ter outras observações de Júpiter realizadas no Brasil, o que sugere que já tinha feito outras, mas revela ao mesmo tempo, dificuldades na aplicação dos métodos da astronomia de precisão. Capassi confessava então a Pina e Proença que preferia não enviar a tabela de longitudes para Lisboa, a enviar afetada de erros. Esse era já um período em que outras incumbências e ocupações na corte afastavam Carbone das observações astronômicas.

Oscar T. Matsuura

Oscar T. Matsuura

Oscar T. Matsuura é docente aposentado do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, onde liderou o Grupo de Astrofísica do Sistema Solar. Foi diretor do Planetário e Escola Municipal de Astrofísica Prof. Aristóteles Orsini em São Paulo e é pesquisador colaborador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCTI). Ultimamente tem se dedicado à História da Astronomia no Brasil.
Oscar T. Matsuura é docente aposentado do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, onde liderou o Grupo de Astrofísica do Sistema Solar. Foi diretor do Planetário e Escola Municipal de Astrofísica Prof. Aristóteles Orsini em São Paulo e é pesquisador colaborador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCTI). Ultimamente…
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